Para falar dos investidores ativistas, preciso que você entenda melhor o short squeeze da GameStop.

Para compreender melhor o que está acontecendo, sugiro que o investidor faça primeiro essa pergunta:

Qual é o valor real da GameStop?

Na semana passada, vimos as ações da GameStop subindo para recordes, assumindo seu valor de mercado acima de US$ 23 bilhões. Sim, por incrível que pareça, a varejista de videogames em dificuldades agora vale quase tanto quanto a Delta Air Lines Inc. e mais do que a Kellogg Co.

Vale mencionar que a GameStop é uma empresa que alguns analistas basicamente descartaram há um ano, que fechou centenas de lojas, que lutou durante anos para recuperar relevância na era da Amazon.com.

Mas as ações da GameStop voltaram ao mundo dos negócios depois que os fãs do Reddit as impulsionaram a níveis estratosféricos – parte de um fenômeno agora que se espalhou e contaminou a AMC Entertainment Holdings e a Tootsie Roll Industries Inc.

A GameStop vale atualmente mais do que quase 90% das empresas americanas no Russell 3000 e é negociada por cerca de 67 vezes seu valor contábil, o que a colocaria em 34º lugar no índice, atrás apenas da Zoom Video Corporation Inc.

Então, o que a GameStop realmente vale, se os day traders movidos pelo Reddit não tivessem desencadeado toda essa volatilidade? E se vivêssemos em um mundo onde os Redditors nunca houvessem seguido esse caminho? Provavelmente ela valeria  cerca de US$ 2 bilhões.

Por cerca de US$ 326, o preço da ação é mais de 10 vezes mais alto do que seria com base nos fundamentos da empresa. Os analistas geralmente analisam o fluxo de caixa, o crescimento e a dívida para calcular os preços-alvo. Claro, esse sistema não funcionou tão bem na era atual, mas ainda fornece uma noção de quanto a GameStop pode valer em um universo paralelo – ou neste universo, uma vez que a histeria diminua.

A GameStop, com sede em Grapevine, Texas, não quis comentar sobre o aumento das ações.

Vamos falar de algumas curiosidades sobre a empresa?

Ao que tudo indica, a empresa vem lutando há muito tempo, mesmo após várias tentativas de reformular seus negócios, incluindo uma tentativa fracassada de oferecer telefones celulares. Os novos consoles de jogos introduzidos no outono impulsionaram as vendas, mas a receita ainda deve cair 18% neste ano.

Embora o próximo ano deva ser melhor – com crescimento de vendas de um dígito, de acordo com estimativas da Bloomberg – a empresa continuará queimando caixa. A empresa tem reduzido suas operações e, como a maioria dos varejistas tradicionais, ainda está se recuperando da Covid-19. No longo prazo, ela enfrentará uma mudança para os jogos online, aos quais será difícil para uma rede física extensa se adaptar.

“Os fundamentos são sobre empresas que eventualmente devolvem o dinheiro aos acionistas, geralmente em termos de dividendos, mas não há como a GameStop fazer isso”, disse Anne Stevenson-Yang, cofundadora da J Capital Research.

O investidor ativista

O investidor ativista Ryan Cohen, que fez fortuna administrando o Chewy.com, é visto como um potencial salvador da GameStop. Ele quer expandir a linha de produtos da GameStop para ser mais parecida com a da Amazon.

Mas uma reviravolta levaria tempo e não é, de forma alguma, certeza de sucesso.

Eles tentaram e falharam várias vezes no passado para diversificar longe do varejo de jogos físicos – telefones celulares, colecionáveis, fazer e publicar seus próprios videogames.

A GameStop disse durante sua última chamada trimestral que iria anunciar sua estratégia em janeiro. E Cohen recentemente ingressou no conselho da varejista, oferecendo uma nova esperança .

Mas sem saber qual é o plano, é difícil fazer avaliações firmes.

É possível que Ryan Cohen possa bolar um plano que me permita aumentar as estimativas, mas até agora não há qualquer sinal disso.

Mas vamos falar sobre esse movimento dos investidores atvisitas?

Assim como um episódio do Globo Repórter:

Quem são?

O que comem?

Onde habitam?

O sucesso das redes sociais é resultado da nossa natureza. Sim, nós adoramos nos engajar nas questões do momento. Adoramos. Comentamos as notícias, postamos nossa opinião, fazemos passeatas, protestamos…

E o que aconteceu com a GameStop e está acontecendo com a prata está relacionado aos investidores ativistas.

Mas quem são eles?

Os Vingadores?

Assim como Ryan Cohen, da GameStop, eles não vão resolver os problemas das ações das empresas, mas vão nos mostrar como resolvê-los.

Então, quem são eles? Carl Icahn, Dan Loeb, Paul Singer, Barry Rosenstein, que são chamados como os gângsteres de Wall Street dos dias de hoje.

O medo que eles desencadeiam no coração de qualquer CEO e do conselho de uma empresa listada em bolsa quando compram suas ações é o mesmo medo que se sente ao ouvir que uma nova cepa do coronavírus se aproxima e teremos lockdown de novo.

Esses investidores ativistas  não se vestem de camisa do Che Guevara ou criticam o sistema, aliás eles AMAM o sistema, gostam de dinheiro e definitivamente querem dinheiro. E a forma como eles ganham dinheiro, a forma como eles criam valor, é conseguindo mobilizar acionistas fazendo com que a gestão das corporações faça mudanças e também amedrontando a todos quando puxam o valor de uma ação exageradamente.

Agora, alguns vão argumentar que as mudanças que eles criam, o valor que eles criam, são de muito curto prazo e que estão cometendo crime, como manipulação de mercado.

Outros vão dizer que as táticas que eles usam são odiosas. Longas ações judiciais, campanhas públicas difamatórias… Mas, temos que dizer, há alguns ativistas, muito poucos, que desencadearam na bolsa de NY um movimento interessante que pode ser considerado por muitos como construtivo e colaborativo.

E temos que dar crédito quando ele é merecido. Como grupo, eles conseguiram catalisar mudanças em larga escala em grandes corporações, e isso não é pouca coisa. Outro tema da moda ESG está muito relacionado a esses investidores ativistas construtivos e colaborativos.

Imaginem um mundo em que todos os investidores trabalham com a gestão por mudanças, não só para ganhar mais dinheiro, mas para melhorar o meio ambiente e a sociedade. Imaginem como o mundo seria melhor e mais verde. Mas por que um investidor viria a se importar?

E repito: por que um investidor se importaria? Porque, se ter um bom desempenho nas questões ESG, nas questões ambientais, sociais e de governança fosse apenas um ato de boa cidadania empresarial, concordo, os investidores não se importariam.

Talvez a salvação para nosso futuro coletivo é que isso é muito mais do que um ato de boa cidadania empresarial. É um bom negócio. Há evidências que mostram uma correlação clara entre a performance nas questões ESG e a performance financeira. Empresas que fazem bem ao meio ambiente e à sociedade também se dão bem financeiramente. E algumas das melhores empresas estão compreendendo isso.

Como a Adidas. A Adidas está limpando o oceano e ganhando dinheiro nesse processo. A Adidas fez parceria com uma organização chamada “Parley for the Oceans”. A Parley coleta lixo plástico do oceano. A Adidas usa o lixo plástico para fazer calçados. Calçados feitos de plástico do oceano: bom para o meio ambiente e bom para os negócios.

Porque, se vocês conhecem os “hipsters”, o segmento de consumidores que mais cresce, e sei que vocês conhecem, então sabem que um hipster, ao ter que escolher entre um calçado sem marca e um Adidas feito com plástico do oceano, sempre vai escolher o Adidas, e andar por aí como se não fosse nada, mas vai procurar por cada oportunidade para falar sobre eles.

Precisamos deixar de criticar os hipsters, pois precisamos deles. E precisamos de empresas como a Adidas. E o que mais precisamos é de investidores para convencer outras empresas a agir como a Adidas.

E esse é o desafio dos investidores ativistas: se converterem em os “investidores conscientes”. Os investidores conscientes se preocupam com as questões ESG.

E falam muito sobre envolver a gestão nessas questões. Mas eles não conseguem realmente que a gestão faça mudanças que melhorem a sociedade e o meio ambiente. E é aí que os investidores conscientes podem aproveitar uma página do manual dos investidores ativistas, porque eles não têm problemas em conseguir que a gestão faça mudanças. Eles não têm problemas em pressionar apertando o Short.

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Debora Toledo

Débora Toledo é jornalista especialista em investimentos e economia, advogada tributarista, Formada em Direito pela PUC-RJ, possui certificação de AAI . MBA em Mercados Capitais, atualmente cursando MBA em agronegócio pela Esalq/ USP. Débora aborda temas relacionados a dólar, commodities, investimentos no Brasil e exterior, macroeconomia.