Análise de Rumo – (RAIL3)

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A Empresa

O mercado enxerga a projeção, ou seja, os investimentos futuros em infraestrutura no país e a melhoria da produtividade, além obviamente de uma maior utilização do modal para transportes domésticos, então conheça o negócio e então calcule o risco/retorno do investimento.

Para contextualizar: com safras e mineração maiores e melhor gestão dos custos (eficiência) a empresa ganha no volume/preço e reduz gastos, aumentando assim a margem, mas é preciso consciência de que ela ainda possui desafios a superar, os resultados tem impacto das safras, mas o agronegócio é uma atividade cíclica e que depende de fatores externos sem controle, por mais que existam proteções e capacidade de armazenagem evoluindo, ainda assim os impactos devem ser considerados em eventuais problemas de quebra de safra ou menores volumes do setor de mineração.

A companhia tem como atividade serviços logísticos de transporte ferroviário, elevação portuária e armazenagem, e operando principalmente nos mercados de Mato Grosso e São Paulo, além da região sul, principalmente devido aos portos e também obviamente porque é onde se concentra a maior parte da produção de grãos que é enviada ao mercado externo. Esse é um dos fatores essenciais na análise desse ativo, a safra exportada, os volumes e a relação dessa variável com os custos fixos do negócio, e como isso consequentemente altera o lucro do negócio.

A Companhia opera 12 terminais de transbordo, seis terminais portuários e administra cerca de 14 mil quilômetros de ferrovias, são mais de mil locomotivas e 28 mil vagões, incluindo uma rede ferroviária que consiste em cinco concessões com aproximadamente 13.500 quilômetros de linhas, 1.200 locomotivas e 33.000 vagões, além de centros de distribuição e instalações de armazenamento, sendo a capacidade de armazenagem estática de 900 mil toneladas.

Nos portos a estrutura é a seguinte: controla dois terminais em Santos e possui participação em quatro terminais portuários, sendo três em Santos e outro no Paraná, sendo que a capacidade de armazenagem estática é de 1,3 milhão de toneladas e a capacidade total de levantamento de 29 milhões de toneladas por ano.

 Unidades de Negócio

  • Operação Norte: maior participação no percentual de volume e receita, transportando: soja, milho, farelo de soja e açúcar) e fertilizantes, além de produtos industriais (combustíveis, cimento, celulose, entre outros. Essa operação conta com BENEFÍCIO SUDAM, que reduz 75% do IRPJ e foi renovado até 2023.
  • Operação Sul: soja, milho, farelo de soja, açúcar, fertilizantes, combustíveis, cimento e celulose, entre outros
  • Operação Norte-Sul: produção agropecuária de Goiás, Tocantins, Minas Gerais e leste do Mato Grosso.
  • Operação de Contêineres: através da Brado, que é uma empresa que oferece serviços de logística multimodal, ela possui 16 locomotivas, mais de 3 mil contêineres e 2,4 mil vagões, equipamentos, armazéns e terminais. Disponibiliza serviços especializados de: reefer (com refrigeração para perecíveis), dry (cargas em geral) e isotank (líquidos).

Fonte: ITR da companhia 2T2020

OBS: Na composição dos resultados é preciso considerar: densidade média de tráfego (milhares de TKU/km de linha), consumo de combustível (litros/milhares de TKU), produto médio (receita/produção do transporte), velocidade média comercial e a Velocidade Média de Percurso (km/h).

Composição acionária

A composição acionária da companhia, mais relevante é a seguinte: 28,47% nas mãos da Cosan e 67,59% Free Float. São 1.559.015.898 ações ordinárias.

Resultados 2T 2020

O volume foi de 16,4 bilhões de TKU, aumento de 13,9% na comparação com 2T2019 devido à alta demanda por transporte e da safra recorde de soja, afinal houve aumento de 18,3% no volume de grãos movimentado pela companhia, além de aquecimento na movimentação de açúcar (já falamos no material de Cosan sobre a estratégia que as empresas adotam em relação a optar por direcionar ao produto que apresenta maior retorno naquele cenário, e nesse trimestre foi mais vantajoso exportar o açúcar visto que as pessoas não pararam de comer do que direcionar ao etanol, já que com a pandemia e restrição de circulação a necessidade do produto foi menor, e ainda tem a questão do dólar e também ao fato do petróleo estar com a cotação bem mais baixa no início do trimestre), o volume do açúcar transportado cresceu 30,6%.

Os fertilizantes aumentaram volume transportado em 23%, o transporte de produtos industriais e de contêineres, recuou 14,3% e 4,2%, respectivamente, o que não é nenhuma surpresa, afinal a pandemia afetou mais alguns setores do que outros, e sabemos que o agro foi favorecido nesse período e já descrevemos nos materiais anteriores os motivos, porém é preciso cautela afinal estamos falando de um setor que está exposto a variáveis externas sem controle, e mesmo com um mundo enorme para suprir temos concorrência e custos muito elevados, veja a questão de que em alguns negócios (agro) o frete transferência não é considerado como custo e sim despesa, logo existe impacto na questão fiscal e na margem. E do outro lado temos uma empresa de logística que precisa manter esse volume para apurar lucro, afinal veja os resultados dos anos anteriores, ou seja, é algo dependente de setores bem específicos que estão aquecidos no momento, mas que a manutenção dos volumes não é uma simples conta de somar.

Importante destacar que na unidade Norte (Porto de Santos) a empresa perdeu Market share: 9 p.p. de 52% para 43%, ela cita que aumentou a movimentação de grãos em 17% enquanto o total das exportações pelo Porto aumentou 40%, e justifica evidenciando um aumento do volume transportado por outras empresas até o Porto, de regiões além do Mato Grosso que é o líder de produção.

Essa é uma daquelas variáveis que sempre devem ser consideradas em negócios, a demanda aumentou e antecipou a safra, estoques precisando ser repostos fizeram o preço dos grãos saltarem a níveis recordes, tanto que existe uma proposta para queda temporária das tarifas de importação dos grãos vindos do Mercosul, exatamente para que não pressione tanto os preços da cesta básica e acabe aumentando a inflação nos próximos meses.

Outro fator interessante e que tem relação direta com o setor agro e de transporte dele é que devido aos baixos estoques atuais de soja (afinal muito foi exportado), além das margens de esmagamento atrativas, refletiram na semana passada no movimento das indústrias nacionais, segundo a CEPEA as empresas estavam pagando pelos lotes da oleaginosa o mesmo valor dos portos, ou seja, um evento que nunca havia ocorrido e que sinaliza uma demanda de consumo por parte das empresas por aqui.

A Operação Sul ganhou 1p.p. no Market share do transporte de grãos portos de Paranaguá (PR) e São Francisco do Sul (SC), de 26% no 2T2019 para 27% nesse trimestre.

Observe os principais números do trimestre e do semestre na imagem abaixo, retirada do release da companhia:

Fonte: release da companhia 2T2020

A receita líquida do trimestre foi de R$ 1.828 milhões um aumento de 5,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, e esse número foi impactado pelo maior volume de 13,9% aliado a uma tarifa 8,5% menor na mesma base comparativa. A tarifa sofreu devido ao recuo de 25,3% no preço do combustível na comparação com 2T2019, e isso impactou em uma diminuição de 6,3% na tarifa, e pelo fato de que nos contratos comerciais o repasse é de 25% da variação do combustível para o preço do frete. Quando a companhia desconsidera o item aumento do combustível a tarifa retraiu 2,2% na mesma base comparativa.

Operação Norte: receita de R$ 1,383 milhões aumento de 7,7% em comparação com o 2T2019, segundo os dados apresentados pela companhia o volume aumentou 16,8% fechando o trimestre em 12,1 bilhões de TKU, aumento principalmente devido a soja +56,4%,  já o volume de milho recuou 42,3%,  volume de açúcar + 14,6%, fertilizantes +29,7% e de produtos industriais +5,6% (ponto positivo para a celulose +32,1%). A operação de elevação portuária aumentou 57%. Ebitda na operação de R$ 801 milhão (+3%) e margem ebitda de 57,9% (-3 p.p.)

Operação Sul: receita de R$ 386 milhões aumento de 3,9% em comparação com o 2T2019, houve uma aumento de 8,5% no volume transportado no trimestre, foram 3,6 bilhões de TKU transportados, resultado principalmente dos volumes de soja +52,1% e +48,5% no açúcar, pelo lado negativo temos o milho devido à quebra de safra no sul, além do recuo de 13,1% nos fertilizantes, os produtos industriais recuaram 22,9%, aqui o volume de celulose/madeira/papel recuou -63%, além da queda do transporte de combustível 31,9% e demais cargas industrializadas, reflexo do COVID-19. O ebitda da operação foi de R$ 177 milhões aumento de 24,5% em relação ao 2T2019, a margem ebitda do trimestre foi de 45,9% contra 38,2% no 2T2019.

Operação de Contêineres (incluindo a Brado Logística): receita de R$ 18,5 milhões recuo de 5,3% em comparação com o 2T2019, aqui o impacto negativo se deve também ao fechamento dos portos na Índia, China e Bangladesh o que impactou as exportações de madeira e algodão, além de menor demanda por cargas no mercado doméstico. Recuo de 5,3% no volume na base de comparação trimestral, transportando 641 milhões de TKU, o ebitda foi de R$ 4 milhões contra ebitda R$ 5 milhões no 2T2019, a margem ebitda foi de 7% estável com o 2T2019.

Redução das tarifas por operação

  • Operação Norte: recuo de 10,5%, pela variável combustível além de preços mais baixos travados no 1T2020 no modelo take or pay.
  • Operação Sul: recuo de1,8% devido a um mix de carga com maior participação de grãos e açúcar no Paraná, o que atenuou o impacto negativo do combustível
  • Operação de Contêiner: retração de 10,2% aqui quem ditou o impacto foi o volume menor de algodão e de madeira e também pelo recuo no mercado doméstico devido a pandemia.

Importante destacar que a operação Norte foi responsável por 72% do volume no trimestre, e a Tarifa (R$/TKUx1000) foi de R$ 101,8 e de R$ 94,4 no semestre, ambas menores que em 2019 (-10,5% e -9,2% respectivamente), na operação Sul que foi responsável por 23,4% do volume no trimestre a Tarifa (R$/TKUx1000) foi de R$ 106,20 no trimestre e de R$ 102,9 no semestre (-1,8% e +0,9% respectivamente), na operação de contêineres que foi responsável por 4,6% do volume no trimestre a Tarifa (R$/TKUx1000) foi de R$ 96,6 no trimestre e de R$ 91,1 no semestre, ambas recuando (-10,2% e -6,8% respectivamente)

Take or pay: é uma cláusula em um contrato comercial que determina a obrigação do comprador a pagar, independentemente da entrega do bem ou serviço por parte do vendedor. No caso da RUMO essa clausula trata sobre as exportadoras assegurarem espaço para suas cargas nos vagões da companhia por preço predefinido, por outro lado caso essa exportadora não tiver o produto para suprir o espaço pré contratado ela precisa pagar o valor mesmo assim. E como você já deve imaginar isso causou um impasse nesse trimestre, acompanhe na reportagem Rumo tem queda de braço com tradings de soja no Brasil

Os custos variáveis foram de R$ 436 milhões no período, um número 7,1% maior que no 2T2019 (menor do que o crescimento em volume), devido aos fatores já mencionados:  volumes maiores, recuo do preço do combustível, além de segundo a empresa maior eficiência energética, com redução no consumo de diesel (Litros/mTKB) em 7,6%. Já o custo com frete de terceiros cresceu 85,1 % em função do aumento de 55,4% no volume de solução logística e de aumento devido a custos unitários crescentes causados pela Covid-19,

Os custos fixos e despesas gerais e administrativas totalizaram R$ 411 milhões +2,9% (custo com pessoal recuo 11%, sendo esse o principal custo), se excluídos custos e despesas da Malha Central, o crescimento foi de 1%, os custos com depreciação e amortização recuaram 3,8%

Custos consolidados e Despesas Comerciais, Gerais e Administrativas totais aumentaram 2,3% no trimestre na comparação com 2T2019.

O ebitda ajustado informado pela companhia foi de R$ 982 milhões, aumento de 6,3%, a margem ebitda no trimestre foi de 53,7% aumento de 0,2 p.p.

O resultado financeiro operacional foi negativo em R$ 201 milhões contra negativo de R$ 259 milhões no 2T2019, aqui impactaram o custo da dívida bruta de R$ 20 milhões +14,6%, isso ocorreu segundo a empresa devido a menores ganhos de marcação a mercado e parte foi  compensado com menores despesas da divida ocasionadas pelo recuo do CDI, mesmo com maior dívida bruta.

Impostos

Por aqui nenhuma novidade em relação aos trimestres anteriores, alíquota efetiva negativa, acompanhe a imagem retirada do release da companhia:

Importante lembrar que a empresa possui prejuízos de exercícios anteriores para compensar.

Dívida

O endividamento bruto da companhia é de R$ 18,3 bilhões, no início de 2020 eram R$ 11,7 bilhões, a dívida líquida é de R$ 7,8 bilhões +2,6% em relação ao trimestre anterior, o indicador dívida líquida/ebitda é de 2x.

Lembrando que os covenants (cláusulas contratuais restritivas referentes ao nível de alavancagem e cobertura do serviço da dívida) são:

  • alavancagem máxima de 3,3x
  • índice de cobertura de juros mínimo de 2x EBITDA/ Resultado financeiro.

Da dívida total R$ 8,9 bi em reais, R$ 8,8 bi em dólar e R$ 104,7 milhões em Euros, a companhia informa que todas as dívidas em moeda estrangeira, nas subsidiárias, possuem estratégia de hedge com derivativos.

Capex

O capex aumentou 64,6%, fechou o trimestre em R$ 722 milhões, o capex recorrente foi de R$ 308 milhões e de expansão R$ 414 milhões, com destaque para as obras na Malha Central de R$ 163 milhões e para a conclusão da expansão do Terminal de Rondonópolis. A companhia informou que com esses investimentos ela terá aumento de cerca de 50% da capacidade, incluído o ganho em capacidade estática de 112.500 toneladas, um aumento de 2 vezes a capacidade atual.

Lucro Líquido

Chegamos então ao resultado final, que reportou lucro líquido de R$ 405 milhões contra lucro de R$ 185 milhões no 2T2019.

Projeções futuras.

  • Quais as condições mercadológicas das Malhas operadas pela empresa?
  • O país vai continuar forte no agro?
  • A empresa vai conseguir executar uma gestão de recursos mais eficiente? E os custos continuarão sob controle caso exista uma perda de volume?
  • Os prejuízos ficarão para trás?

O que nos resta é acompanhar a evolução do negócio.

E aqui temos mais uma prova da dinâmica dos negócios e da importância de fazer uma gestão adequada dos ativos em sua carteira, pois empresas são expostas a ciclos e respondem a eles, e a resposta vai depender da eficiência da gestão do negócio.

E isso não ocorre da noite para o dia, então conhecer o case e entender a geração de valor, vai te proporcionar mais ferramentas para avaliar e evolução e consequentemente identificar boas oportunidades de compra, além de ajudar a reconhecer quando o negócio perde fundamentos.

Não é recomendação de compra ou venda do ativo.

Daniel Nigri

Apoio: Patrícia Rossari

O analista Daniel Nigri CNPI1810 é o responsável pelas informações perante a ICVM 598

As informações não constituem recomendação de compra ou venda de qualquer ativo

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