Analise MILLS – MILLS3

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Olá, caro leitor e cara leitora, vamos conversar hoje sobre uma companhia que foi alvo de muitas análises de case de negócios alguns anos atrás, devido à positividade que surgiu pela Copa do Mundo em nosso país. Isso mesmo, aquela Copa onde o Brasil perdeu de 7 x 1 da Alemanha.

Vamos começar explicando um fator que já não é mais novidade para quem acompanha nossos materiais: a capacidade instalada e ociosa. No caso desse negócio, estamos falando tanto sobre a locação quanto na unidade de construção, ou seja, estamos falando da taxa de utilização, que é um dos gatilhos para projeção de receita em qualquer negócio, visto que é a possiblidade de aumentar volumes de produto e serviços (caso a demanda aqueça), sem necessidade de capex ou de tempos excessivos para execução.

Muitos investidores não investem em empresas com prejuízo, outros enxergam a possibilidade de retomada daquele negócio e veem gatilhos no ativo. O mais importante em qualquer dos casos é que você conheça as variáveis que estão contribuindo para os resultados e em que bases as estratégias de revisão das projeções estão sustentadas.

Uma informação importante sobre o negócio é que a maior parte da receita do vem da locação e a companhia detém cerca de 30% de market share na locação de plataformas (e aqui não inclui somente construção civil, mas manutenção e/ou movimentação de materiais nas instalações industriais), e isso graças à fusão com a Solaris. Cerca de 85% da receita líquida em 2019 originou-se nas plataformas aéreas e 66% da receita líquida vem de setores não vinculados à construção, ou seja, apenas 34% vem do mercado de construção.

E já que falamos em capacidade, veja que a unidade de construção encerrou 2019 com uma capacidade utilizada de 35,2% LTM (Last Twelve Months), e na unidade Rental, 48,2% LTM, porém aqui a empresa informa que o preço médio de locação do trimestre ficou 2,5% maior que o 4T2019.

Vamos falar um pouco sobre o negócio da companhia

A MILLS é uma prestadora de serviços especializados. O negócio contempla o planejamento, projeto, supervisão técnica e fornecimento de estruturas temporárias para construção civil (formas para concreto, escoramento e andaimes), além de locação e venda de equipamentos motorizados de acesso (plataformas aéreas e manipuladores telescópicos). A companhia fornece para grandes projetos de infraestrutura e para construção residencial, comercial e industrial.

A empresa foi fundada em 1952 pela família Nacht, um negócio de andaimes e escoramento que prestava serviços ao setor de construção civil. Nas décadas de 70 e 80 ela participou da construção de grandes obras: Ponte Rio-Niterói, em 1971, Usina Hidrelétrica de Itaipu, em 1979, e da primeira plataforma brasileira de exploração de petróleo, em 1983. Abriu capital em maio de 2010. A ação foi precificada a R$ 11,50, captando R$ 685,7 milhões; no dia a ação fechou com uma valorização de 1,22%, lembrando que na ocasião o grande gatilho para a valorização do negócio era a demanda por obras para a Copa de 2014 e para as Olimpíadas de 2016; nas épocas felizes chegou a um valor de mercado de R$ 4,2 bilhões.

No auge ela era a empresa da Copa, visto que prestava serviços em obras de estádios, aeroportos, além dos projetos de mobilidade urbana em 12 capitais do país, o que não é pouca coisa, mas os resultados não continuaram evoluindo, embora acreditava-se na época que ainda existia muito espaço para o setor de construção pesada no Brasil e que o negócio ainda poderia render bons frutos.

Ao final de 2014 as coisas começaram a “azedar”. Em 2013 o lucro da companhia havia sido R$ 172 milhões; em 2014 caiu para R$ 64 milhões, e não parou por aí – em 2015 veio o prejuízo de R$ 97 milhões. Os anos passaram e os prejuízos persistiram: 2016, R$ 99 milhões; em 2017, R$ 138 milhões; em 2018, R$ 104,2 milhões e em 2019, R$ 44,5 milhões. Nos últimos 5 anos, um recuo médio de 70% nos resultados.

Para termos uma ideia do contexto na época – os escândalos envolvendo as construtoras – a Mills tinha uma receita líquida de R$ 832 milhões em 2013, gerando um ebitda na casa dos R$ 400 milhões; já em 2019 foram apurados R$ 128,6 milhões de Ebitda, com receita líquida de R$ 439,5 milhões, números melhores que 2018: Ebitda de R$ 84,6 milhões e receita líquida de R$ 474,9 milhões.

Agora que você já conhece ou revisitou alguns dados do passado da companhia, vamos falar sobre os números que ela divulgou no 1T2020.

Coronavírus

A empresa informou que a partir do final de março houve redução da receita de locação em aproximadamente 30% no negócio Rental e de 10% na unidade de Negócios Construção; logo, essa redução será sentida também no 2T2020, mas a empresa cita que os recebimentos em abril não foram comprometidos. Informou também que as operações da companhia foram mantidas em 95% das filiais, em atendimento a clientes que respondem por 45% da receita de locação  (Rental), sempre lembrando que essas reduções são comparações com o mesmo trimestre do ano anterior.

Para se ajustar ao cenário e se precaver em relação às incertezas, a empresa citou que decidiu suspender os investimentos, fez redução de despesas, renegociação de contas a pagar a fornecedores para compensar o ciclo econômico (cerca de R$ 2 milhões), visto que a mesma fez algumas renegociações com clientes, trabalho de cobrança e alongamento do prazo de pagamento das debêntures Solaris por um ano.

Resultados do Trimestre

A receita da unidade Rental foi de R$ 110 milhões, representando 90,8% da receita líquida total; o ebitda ajustado foi de R$ 39,9 milhões, + 105,8% em relação ao 1T2019, mas isso porque nesse trimestre os resultados da Solaris foram incorporados; sem eles o crescimento seria de 17,8%. Com a consolidação da Solaris, a empresa teve um aumento considerável nos volumes, além de que, com isso, conseguiu melhor taxa de utilização dos equipamentos e maior vantagem em relação a preços (base). Sabe quando as empresas citam sinergias com as aquisições? Pois então, isso é parte dessas sinergias, a capacidade de trabalhar com mais eficiência usando as forças de ambos os negócios combinadas.

Na unidade de construção, o Ebitda ajustado apurado foi negativo em R$ 0,8 milhão no trimestre. A empresa apurou receita líquida de apenas R$ 16,1 milhões, número 31,5% menor que no 4T2019, mas isso tem uma explicação, afinal, ocorreu uma menor venda de equipamentos seminovos ou sucata, visto que a companhia tem o projeto de diminuir a importância dessa unidade no consolidado, ou seja, mudado o foco de mercado a alguns trimestres. E qual o motivo?

Segundo a empresa, existe uma recuperação lenta e que foi adiada em relação a obras de infraestrutura, o que não compensaria os custos de manter a operação no tamanho em que ela foi preparada anos atrás, conforme citado no início da nossa conversa, mas ela não deixa de operar no setor de grandes obras, inclusive cita que a operação que permanece é suficiente para atender demandas futuras, apenas não é mais do mesmo tamanho a operação, uma questão de adequação a custo/benefício.

Na locação de máquinas para o setor de construção, a receita foi de R$ 13,4 milhões, ou seja, a maior parte da receita devido à menor venda dos seminovos e sucatas.

Resultados consolidados da companhia

Veja que a receita líquida recuou 9% em relação ao 4T2019, lembre que em relação ao 1T existe a incorporação da Solaris. Logo, a maior parte do crescimento advém desse fator, e da receita líquida total, 65,7% veio do mercado não construção, e as plataformas áreas respondem por 85,6% do total da receita.

O Ebitda ajustado consolidado foi de R$ 39,1 milhões, isso significa um aumento de 4,5% em relação ao 4T2019, visto que em relação ao primeiro é preciso desconsiderar a Solaris. Como citado acima, a margem do trimestre foi de 31%.

O fluxo de caixa operacional ajustado apurado foi de R$ 33,2 milhões, também aumentou em relação ao 4T2019, sendo que a companhia fez a 4ª emissão de debêntures, no valor de R$ 100 milhões, em março de 2020, com prazo de 5 anos,  CDI + 2,35% ao ano. Assim, as disponibilidades da companhia ao final do trimestre eram de R$ 248 milhões. A dívida bruta é de R$ 187,6 milhões (de debêntures são R$ 178,3 milhões), com prazo médio de 1,8 ano para pagamento e custo médio CDI + 3,50% a.a., e ela vem cumprindo os covenants.

E no final das contas, a empresa apurou prejuízo. Acompanhe as contas de resultado na imagem retirada do release:

Para contextualizar, o lucro bruto foi de R$ 50,2 milhões e as despesas de R$ 47,9 milhões, ou seja, descontando o resultado financeiro, a empresa apurou prejuízo, considere também que já existem prejuízos acumulados no BP de exercícios passados. Porém, das despesas, quando excluída a depreciação-IFRS16, o valor é de R$ 36,6 milhões no trimestre (lembrando que a depreciação não tem efeito caixa).

Por essas e outras, a importância de analisar o fluxo de caixa da companhia e relacioná-lo com as contas de resultado (tem podcast sobre isso lá na área de membros).

Para finalizar nossa conversa: a empresa continua reportando prejuízos, mas está focando no negócio que mais gera valor (locações industriais/manutenção), está reduzindo patrimônio no segmento que não tem tanta representatividade (construção), porém é preciso compreender que empresas assim vêm acompanhadas de um risco de execução do planejado. Portanto, quando falarem sobre gatilhos em negócios, lembre que os números são fruto de estratégias e essas são o que determinam ou não a geração de valor. Assim, compreenda o processo e então decida o investimento.

Não é recomendação de compra ou venda do ativo.

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