Balança Comercial do Agronegócio Brasileiro: Junho 2020 e Projeção PIB do Agro

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A CNA – Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária – divulgou os números da balança comercial do agro referente ao mês de junho de 2020, e os números impressionam, visto que o volume foi recorde e, em relação aos anos anteriores, tivemos o  mais positivo da história, em termos de exportações e de saldo da balança comercial do agronegócio.

Aqui cabe uma observação importante para compreender os motivos que contribuíram para os números elevados: não se trata apenas de uma ótima safra e de aumento da produtividade por ha. no caso dos grãos, mas também do aumento da demanda do mercado externo, parte pela incerteza da pandemia, e barreiras logísticas no curto prazo, que anteciparam parte das exportações. O receio do fechamento causou uma corrida dos operadores por fretes, afinal, quando não se tem certeza de até quando será possível embarcar produtos essenciais, o mais comum é acelerar os volumes de embarque ao preço cobrado, ainda mais quando já se enxerga um consumo maior dos estoques de passagem nos países destinos desses produtos. Foi o cenário em março, abril e maio.

Em volume, o aumento em relação ao ano de 2019 foi de 40,7%, e em valor aumentou 24,5%, ou seja, é bastante representativo, e vai refletir no PIB medido pelo governo (geral), que inclui o agronegócio. As vendas ao mercado externo totalizaram US$ 10,2 bilhões e o saldo comercial foi de US$ 9,3 bilhões, e o volume das exportações alcançou 23,4 milhões de toneladas.

Os vencedores na lista de produtos exportados em junho, que representam 70,3% do total exportado, foram:

  1. soja em grãos – US$ 4,7 bilhões
  2. açúcar de cana em bruto – US$ 711,4 milhões
  3. carne bovina in natura – US$ 655,5 milhões
  4. farelo de soja – US$ 563,1 milhões
  5. celulose – US$ 553,6 milhões

E para onde foram esses vencedores?

  1. China levou 42,7% da fatia – US$ 4,3 bilhões
  2. União Europeia levou 14,6% da fatia – US$ 1,48 bilhão
  3. Estados Unidos ficou com 5,3% – US$ 537,1 milhões
  4. Tailândia com 2,4% – US$ 247,8 milhões
  5. Hong Kong com participação de 1,9% – US$ 195,6 milhões, 1,9%

No semestre, de janeiro a julho de 2020, a soja também é a campeã da lista, mas aqui temos a presença do açúcar de cana bruto também. Ambos apresentaram maior variação positiva na comparação com o primeiro semestre de 2019, e no lado negativo temos a celulose. Acompanhe a tabela retirada do boletim da CNA:

Fonte: https://www.cnabrasil.org.br/assets/arquivos/boletins/BalancaComAgro-Junho_2020.pdf

E falando em PIB do agronegócio, que é medido pela Cepea e pela CNA, aumentou 0,36% no mês de abril, sendo que esse número foi o menor registrado em 2020 (devido à pandemia), e o PIB acumulado dos quatro primeiros meses de 2020 é de 3,78%, bem diferente dos demais setores da nossa economia.

Por segmentos nos quatro primeiros meses de abril:

  • Insumos: alta de 0,97%
  • Segmento Primário: aumento de 8,22%
  • Agroindústria: aumento de 0,44%
  • Agrosserviços: aumento de 3,98%

Nos destaques negativos em relação ao PIB, temos a indústria de máquinas agrícolas, segundo a CNA, com projeção de redução do faturamento anual em 10,64%, isso porque houve recuo nos preços reais dos produtos em quase 2% quando comparado aos 4 primeiros meses do ano de 2019, além de redução da produção  anual em 9%, devido às paradas das plantas produtivas durante os meses da quarentena (pandemia).

Já o PIB do segmento primário do agro, conforme destacado acima, vem aumentando ao longo de 2020, e não apenas no agrícola, mas também no setor da pecuária, o que não é uma surpresa, visto o preço do dólar e o aumento de demanda pelo representativo mercado consumidor chinês (mas não apenas ele).

OBS: a alta do dólar fez com que o adiantamento das exportações fosse lucrativo, afinal, mais vantajoso exportar do que comercializar aqui pelo preço em reais, lembrando que o preço da saca de soja atingiu recorde, chegando a ser negociado no porto de Rio Grande a R$ 115, 00 em maio, e aqui cabe um dado interessante, de que o custo de transporte em alguns casos pode superar 60%, e aqui novamente citamos a importância do modal ferroviário para redução dos custos logísticos, que são muito representativos no agronegócio também, principalmente pelo fato de estarmos falando de um produto bruto que não possui margem agregada.

No setor primário agrícola, o PIB aumentou 3,26% em abril e 9,9% de janeiro a abril de 2020, com destaque para os preços (média ponderada da união de todas as culturas), que cresceram 12,45%, e segundo a CNA, o destaque vai para: milho, café, cacau e arroz, que aumentaram os preços em mais de 20%, além de soja, trigo, mandioca e cana, que também apresentaram aumento. Já no primário pecuário, o aumento foi de 0,56% em abril e 5,64% de janeiro a abril de 2020.

OBS: ainda em relação à soja, é fato que a guerra comercial China x EUA, esse vai e volta, os acordos, além da boa safra americana, interferem na nossa projeção de exportação. Hoje são cerca de 77 milhões de toneladas estimadas, e isso representa o segundo maior volume de oleaginosa que já foi exportado pelo nosso país, devido à pandemia, que afetou os mercados interno e externo, comprometendo parte da demanda da cadeia. A CONAB projeta que nesse ano de 2020 as exportações comecem a reduzir no final do primeiro semestre.

A CNA aponta para 2020 uma projeção de crescimento real no faturamento/ano de 15,23% para o segmento primário agrícola, e para o primário pecuário um aumento de 12,24% no faturamento anual. E veja quais são as perspectivas de aumento e de queda do faturamento das culturas individualmente em 2020:

  • Crescimento no faturamento de: arroz (29,38%), café (+53%), cana-de-açúcar (4,46%), milho (36,53%), soja (20,16) e trigo (21,85%).
  • Quedas no faturamento de: algodão (recuo de 4,82%, devido a preços reais 8,34% menores e crescimento de produção de 3,84%), banana, batata, feijão, fumo, laranja, tomate, uva, madeira em tora, madeira para celulose e lenha e carvão

Em relação ao algodão, já havíamos comentado no material de SLC, que está disponível na área de membros, que em março e abril os preços estavam pressionados pela maior oferta e menor demanda devido à Covid-19. A produção, segundo os dados oficiais, será recorde, mas pelo aumento da área plantada.

Já no primário pecuário, o faturamento da suinocultura é a atividade que projeta o maior crescimento do faturamento/ano, em 38,12%, devido a um aumento de preços de 28,30%, com uma produção crescendo 7,65% em relação a 2019. Para o boi gordo, a projeção divulgada pela CNA é de faturamento 12,88% maior em 2020, e na ponta contrária, o frango – avicultura de corte – com crescimento de 1,2% devido à queda do preço em 2,72% em relação a 2019 e com crescimento da produção nesse ano projetada em 4,03%.

A CNA também aponta que para as indústrias de base agrícola, a projeção é de recuo no faturamento para esse ano nos seguintes setores: biocombustíveis, produtos do fumo, produtos e móveis de madeira, celulose e papel, têxtil e vestuário, indústria do café, conservas de frutas, verduras e outros vegetais, bebidas e outros produtos alimentares. Acompanhe os recuos de produção:

  • Indústrias de produtos de madeira – recuo de 11,3%
  • Móveis de madeira – recuo de 17,8%
  • Têxteis de base natural – recuo de 14,6%
  • Vestuário de base natural – recuo de 26,1%
  • Bebidas – recuo de 15,3%

E na ponta contrária temos a indústria do açúcar, com projeção de faturamento crescendo, segundo a CNA, em 43,9%, devido aos maiores preços e também com a maior produção projetada para o ano, em 18,5%, lembrando que aqui as empresas direcionam para a produção do açúcar (exportam) quando o mercado de biocombustível não está atrativo, e devido à pandemia, ocorreu um recuo na oferta, que fez o preço melhorar, além obviamente do dólar muito atrativo para a exportação.

OBS: a CNA aponta que para a produção de biocombustíveis é projetada uma redução de 7,3% no faturamento/ano devido à produção 10,3% menor, também projetada.

Já a indústria de papel e celulose, segundo a CNA, projeta queda de 8,8% no faturamento de 2020 devido a um recuo nos preços de 10,1% em relação a 2019, ainda com a mesma justificativa que já havíamos citado no material de Suzano, que também está disponível na área de membros. Para entender o negócio da celulose, é preciso levar em consideração os seguintes fatores: o consumo afeta o nível do estoque, que por sua vez pressiona o preço; o estoque maior pode afetar a capacidade utilizada e isso pressiona a diluição dos custos fixos, o que pode levar a uma margem menos atrativa. Logo, quando ela opera próximo da capacidade produtiva, o consumo dos estoques no mundo precisa estar aquecido, caso contrário, ela fica com muito estoque sem saída (porque os estoques dos clientes ainda estão altos) e precisa reduzir produção, que prejudica a diluição dos custos. Ou seja, se vendemos menos, inevitavelmente vamos produzir menos, afinal, os custos de estoques, assim como as perdas, são variáveis consideradas nesse planejamento de produção. Veja que essas grandes empresas possuem as paradas programadas, que são formas de ajustes de produção e estoque, tanto que o custo caixa tonelada é sempre calculado levando em consideração ambos os cenários.

E a demanda fica menor, afinal, se os maiores consumidores ainda tem produto, é preciso que o fluxo do consumo aqueça, para então os estoques baixarem e assim exista necessidade de compras, ou seja, aquece mercado e então gera a necessidade que dá start para as novas compras que irão recompor os estoques que estão sendo consumidos. Usando como exemplo a demanda da China, que ficou abaixo do esperado em 2019 e fez com que os estoques da companhia ficassem elevados, o que isso significa na operação do negócio? Impacta na margem, e o mercado penaliza a cotação.

Encerro a nossa conversa reforçando a importância de fazer análise setorial, de compreender o cenário, para então ter informações que auxiliem nos seus investimentos.

Daniel Nigri com apoio de Patricia Rossari

O analista Daniel Nigri CNPI1810 é o responsável pelas informações perante a ICVM 598

As informações não constituem recomendação de compra ou venda de qualquer ativo

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