O que mudou nas eleições americanas depois do Coronavírus?

0
64

Nessa semana, todos os holofotes do mundo voltaram-se para o anúncio que Trump fez ao falar que estaria usando hidroxicloroquina e vários analistas no mundo inteiro apontam que trata-se de uma intensificação para a campanha eleitoral.

Até poucos meses atrás, os planos de reeleição de Donald Trump caminhavam com tranquilidade, mas no meio do caminho havia a pandemia.

Antes do coronavírus, a economia americana estava mais pujante do que nunca, sem grandes problemas e a taxa de desemprego consideravelmente baixa. Os adversários, do partido democrata, encontravam-se em um emaranhado de problemas e debates intensos sobre o rumo que o partido deveria seguir.

Em dois meses, o mundo e esse panorama político mudou completamente, e o COVID mexeu radicalmente no jogo eleitoral e contra Trump. O coronavírus pode custar a reeleição de Trump e, mesmo sem fazer campanha oficialmente, Joe Biden tem chance de chegar à Casa Branca.

A pujança da economia americana era a aposta de campanha de Trump, mas agora, com os impactos da epidemia na economia americana, bem como a posição dos americanos a respeito da resposta tardia do governo para a epidemia, Trump tem chances de se juntar aos ex-presidentes Jimmy  Carter e Bush pai como os presidentes que não conseguiram se reeleger.

Cenário atual

Assim como a maior parte dos países, os Estados Unidos estão em uma situação complicada, onde não há muitas saídas. Trump precisa desesperadamente reabrir a economia, mas ao mesmo tempo, se o fizer, torna-se vulnerável a um ressurgimento de doenças, demandando uma preparação para reabertura cuidadosa.

A economia americana já perdeu 20,5 milhões de empregos em abril e a taxa de desemprego era 14,7%. Para completar, até 20 de maio houve mais de 1,5 milhão de casos de Covid-19 nos EUA e quase 92.000 mortes, contra 58.000 na Guerra do Vietnã.

Com a eleição se aproximando, é razoável supor que Trump não passará o bastão de maneira tão fácil para o Democrata e irá para fazer o impossível para a economia se recuperar do declínio mais acentuado desde a Segunda Guerra Mundial.

Pesquisas

Estão sendo feitos todos os tipos de pesquisas e a grande maioria está indicando uma vitória de Biden.

Assim como observamos no último processo eleitoral no Brasil, as pesquisas, de uma maneira geral, têm sido bastante imprecisas. Já as pessoas mentem ou omitem sua verdadeira opinião com frequência. Elas fazem algo diferente na privacidade do estande eleitoral. A mesma coisa aconteceu quando Trump foi eleito pela primeira vez.

O que está acontecendo agora pode ser parecido.As pessoas que não apoiam podem ter vergonha de apoiar Trump em público devido à resposta tardia ao corona.  Ainda temos quem o apoia, mas alguns nos bastidores.

Vejam algumas pesquisas recentes.Todas mostram Biden ganhando.

https://www.realclearpolitics.com/epolls/latest_polls/elections/

Um tipo de pesquisa que tem se mostrado eficaz, pois responde mais precisamente aos resultados eleitorais, são as pesquisas quanto às apostas que surgem quando as pessoas colocam dinheiro para prever a eleição. Foi comprovado que essas geralmente são mais precisas.Aqui, Trump está ganhando.

https://www.realclearpolitics.com/elections/betting_odds/2020_president/

https://www.predictit.org/

Muitos investidores em Wall Street ainda acreditam que Trump vencerá, principalmente porque Biden não é visto como um grande candidato e é difícil para um presidente em exercício perder. No entanto, com o Coronavírus, essa reeleição, para um presidente em exercício, provavelmente é o mais próximo do que houve desde que George Bush foi eleito. Biden poderia facilmente vencer.Está perto.

Com a eleição se aproximando

Com a eleição americana se aproximando é razoável supor que Trump irá intensificar a sua campanha. Mas qual seria a estratégia do atual presidente para os EUA começarem a abrir sua economia com o vírus ainda à solta?

É possível que o número de novos casos continue a cair nacionalmente, como ocorreu na maior parte do mundo, e Trump de repente tem uma boa chance de ganhar um segundo mandato. As mortes que irão permanecer elevadas serão dos idosos, população carcerária e moradias multigeracionais lotadas, mas o público tende a considerar isso como uma consequência inevitável da pandemia, e não culpa de Trump.

Também temos que considerar o risco de as coisas piorarem, já que uma segunda ou terceira onda nacional de infecções pode matar dezenas de milhares ou mais, de acordo com muitos cientistas da área de saúde.

No entanto, a dura realidade é que, até que haja uma vacina, a vida terá que ser diferente, e pior e mais difícil será a reeleição para o cargo de homem mais poderoso do mundo.

Sobreviver à pandemia será extremamente caro, não apenas em termos de dólares, mas nas mudanças que as pessoas precisam fazer, do uso de máscaras ao isolamento dos idosos e da proibição de grandes reuniões.

O Fundo Monetário Internacional afirma que essas paralisações destruirão US$ 9 trilhões na produção econômica mundial em 2020 e 2021.

Essa quantia enorme pode ser interpretada de duas maneiras – como um motivo para reabrir imediatamente, com a segurança como uma preocupação secundária ou, melhor ainda, como uma justificativa para gastar somas insanas para tornar a reabertura segura.

É difícil imaginar que enfrentar enormes déficits governamentais possa ser uma estratégia sólida. Mas então, o maior fracasso político da pandemia para Trump foi um fracasso de planejamento: uma incapacidade de compreender a magnitude desse desastre e as medidas necessárias para combatê-lo.

No entanto, Trump estava longe de ser o único líder míope no início. O primeiro-ministro britânico Boris Johnson apostou brevemente em deixar o vírus se espalhar para alcançar a imunidade populacional antes de encontrar o próprio Coronavírus, que carrega o peso de todo um Reino desunido.

No caso de reeleição nos EUA, teremos uma mudança global no dólar?

Os gastos podem ser problemáticos,como a impressão de dinheiro, mas nas profundezas de uma recessão, é necessário.

O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, parece se preocupar com a inflação, mas disse em 13/05 que “apoio fiscal adicional pode custar caro, mas vale a pena, se ajudar a evitar danos econômicos a longo prazo e nos deixar com uma recuperação mais forte”.

Nesse sentido, tudo indica que não teremos uma mudança global no dólar.E mesmo se Trump não se reeleger, Biden não fará grandes mudanças em grande parte nas políticas monetária e comercial se eleito.

É consenso entre Democratas e Republicanos ver a China como um adversário no comércio mundial muito mais forte do que era para os EUA há 4 anos, e estão unidos desconfiando da China na frente comercial de hoje em dia.

Além disso, o presidente tem muito controle sobre o dólar, afinal, ele tem influência direta sobre Federal Reserve Board e seus movimentos nas taxas de juros.

O que ninguém controla é o quão “em pânico” o mundo está e será. Se houver problemas no mundo, o dólar se fortalecerá.Quando as coisas voltam ao normal, o dólar geralmente enfraquece.

E na véspera da eleição, o dólar pode se fortalecer globalmente?

Mais uma vez, acho que não haverá uma grande mudança nas taxas de dólar.

O grande fator aqui no momento é o vírus e o quanto está prejudicando a economia global.

Se formos vacinados contra o vírus, o dólar poderá sofrer uma queda. E se o vírus piorar mais do que o esperado, o dólar ficará mais forte.

Se o Fed decidir libertar mais dinheiro para a política monetária, provavelmente também estará reabilitando mais a política monetária nos EUA.

Para a Europa, o que significa a permanência de Trump?

A Europa é um ponto interessante. Trump não tem sido favorável à Europa e o atual presidente americano quer que os europeus contribuam com os pagamentos para os militares e pelas organizações do mundo, como a OTAN, por exemplo.

Trump é neutro/negativo em relação à Europa quanto ao comércio. Se Trump for reeleito, será mais do mesmo para ele, mas não deve piorar.

Se Biden vencer, isso pode ser interessante, pois ele certamente apoiará mais a Europa, mas também não o vejo dando grandes passos. Apenas daremos um passo atrás na direção em que estava antes de Trump, mas o comércio não voltará totalmente, principalmente após o surto de coronavírus

O consenso geral nos EUA (republicanos e democratas) é que a Europa precisa pagar por mais coisas que até agora os EUA pagaram uma parte grande demais. Ninguém nos EUA também acha que é preciso ajudar a Europa economicamente.

E como fica o Brasil?

A luta comercial entre Washington e Pequim ganhou novas proporções com o coronavírus, com troca de farpas e medidas protecionistas.

Com o objetivo de “penalizar a China pela omissão do coronavírus” e reduzir o déficit comercial, Donald Trump divulgou medidas que incluem a exigência de adaptação das empresas para a contabilidade americana e aumentou restrições para itens importados do país asiático.

Caso Trump seja reeleito e a tensão se esvair, podem criar a base para novas negociações, maiores concessões (incluindo no agro) e melhor entendimento entre os países. No entanto, a tendência é que a retórica protecionista perdure e as ações podem colocar as duas principais economias mundiais num conflito comercial de grandes proporções.

O mercado chinês é vital para a economia rural americana. Por isso, as reações internas no país podem ser cruciais. Alguns grupos de interesse que constituem a base de apoio de Trump já se manifestaram duramente contra a China.

Os EUA eram o principal fornecedor de etanol ao país asiático, respondendo por cerca de 85% das importações. Mas com a reeleição de Trump, o Agronegócio no Brasil será beneficiado.

O que podemos afirmar é que o futuro do Brasil depende muito mais da China do que dos Estados Unidos, e com a reeleição de Trump, os chineses sabem que dependerão mais ainda do Brasil, porque terão uma maior dependência para se alimentarem.

Apesar da elevação das tarifas chinesas gerar grande euforia no Brasil, a cautela deve predominar.

Essa reação poderá indicar se conseguiremos, ou não, e como, aproveitar as oportunidades no médio e longo prazos.

Contudo, isso não significa que a lacuna possivelmente deixada pelos EUA no mercado chinês pode ser suprida da noite para o dia.

Por todos esses motivos, ainda que apresentem oportunidades para a ampliação de exportações de alguns produtos do agro brasileiro, as ondas de protecionismo também criam desafios e devem ser muito bem administradas para trazer benefícios ao exportador no médio e longo prazos.

 Se você ainda não é assinante, clique aqui e tenha acesso aso nossos planos.

Já participa do nosso grupo do Telegram?

Videos, informações e novidades vem aí.

Link do grupo

 

Artigo anteriorPetrobras conclui a venda de sete campos terrestres
Próximo artigoResumo dos resultados: Alupar e IMC
Formada em Direito pela PUC-RJ, Débora Toledo é advogada tributarista e assessora de investimentos especializada em alta renda. Fez curso de Gestão de Empresas Familiares na Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), mesma instituição onde ESTUDOU MBA em Mercados Capitais, atualmente cursando MBA em agronegócio pela Esalq/ USP 70% de sua cartela de clientes é formada por famílias do agronegócio. Atuante há 10 anos também em planejamento patrimonial, Débora aborda temas relacionados a dólar, commodities, investimentos para alta renda ou segmentos private, macroeconomia, planejamento familiar e agronegócio.