Dívidas: Empresas com elas, são negócios ruins?

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Empresas com dívidas são negócios ruins?

A análise de um negócio não é uma brincadeira de quem grita mais alto no youtube, decidir um investimento é entender como o negócio gera valor, se as demonstrações de resultado/contábeis refletem uma empresa saudável ou não, compreender se a demanda daquele produto serviço é elástica ou inelástica, verificar como a inflação afeta o repasse de preços na cadeia (início e fim), entender se a distribuição é adequada e principalmente se aquele negócio está investindo com eficiência e pensando no futuro.

Eu recebo muitas mensagens no Instagram onde faço postagens sobre análise de negócios, sobre como as empresas são afetadas e de que forma podemos entender o tamanho das consequências em cada setor, e grande parte dos questionamentos são em relação as dívidas contraídas pelas empresas.

 

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Então não basta apenas dizer que toda empresa “assim ou assado” é ruim, essa generalização não é produtiva e isso vale para a pontuação do índice também.

 

Falando sobre Dívidas

Para descobrir se a dívida é ruim precisamos analisar o negócio!

Exemplo:

  • Qual o propósito da empresa ao tomar a dívida?
  • A taxa de retorno do investimento é viável?

Os fluxos de caixa para manter a saúde financeira da empresa.

E se for uma dívida para girar operação? Nós conhecemos o ciclo financeiro e econômico para entender os prazos e assim determinar os benefícios da estratégia? Se ela (dívida), vai além do resultado obtido pela geração de valor do negócio ou é apenas financiamento pelos ciclos de recebimentos serem mais longos?

 

Encontre os números

Obviamente as dívidas têm juros, então observamos as despesas financeiras que compõem os índices de endividamento.

Conforme a empresa vai pagando a alavancagem diminui se a geração de valor continuar em crescimento, pois aumenta o retorno do investimento, seja em maior faturamento, pois temos mais maquinário ou expandimos a planta produtiva e estamos vendendo o que produzimos, ou em alguns casos através de economia, como nos investimentos em suficiência de energia elétrica/renovável (Grendene é um exemplo).

 

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E, empresas grandes, têm dívida porque precisam investir, e é mais barato usar capital de terceiros do que custear com capital próprio, então no balanço patrimonial você analisa o número e depois busca a justificativa do número nas notas explicativas do ITR.

Lembrando que com a ifrs 16 o balanço vai ter mais dívida, vai aumentar passivo e ativo mesmo sem investimento, então esse é outro cuidado. Escrevi sobre isso, caso tenha dúvidas acesse: IFRS16.

 

Como o mercado enxerga a dívida?

 

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O preço/cotação reflete notícias e suas interpretações, o que por sua vez gera grupos histéricos que compram no topo e vendem no fundo, afinal vendedores e compradores são influenciados psicologicamente de maneira diferente.

Então se uma empresa contrai uma dívida o mercado pode penalizar a ação ou precificar demasiadamente, e tivemos inúmeros casos nos últimos meses: NATU3, KROT3, BRFS3, MDIA3, BTOW3, CAML3 entre outras.

A dívida da BRFS3 tem um perfil diferente das demais, a maioria delas, estão investindo em aquisições de outros negócios no modelo horizontal (casos as empresas são do mesmo setor/concorrentes) e outras no modelo vertical, mas no caso da gigante alimentícia temos um exemplo de dívida contraída para expansão, onde a estratégia de produção não foi eficiente gerando um endividamento perigoso.

 

Estratégia

Para que o investimento seja rentável é preciso continuar  lucrando, e não foi o que ocorreu, na verdade foi o oposto: alto endividamento e faturamento estagnado.

A estratégia foi para aumentar o caixa, desembolsando menos dinheiro antecipadamente com estoque de insumo (ração), que é essencial para o processo industrial (galinha come ração, se a galinha não come ela não cresce, se eu não tenho a galinha o que acontece?).

Então o preço da commodity (milho) aumentou muito (que azar), o CPV aumentou substancialmente (vimos o mesmo ocorrer com o trigo na MDIA3), o que para empresa de margem pequena como a de alimentos significa prejuízo se não houver condições de repasse ao consumidor final.

Ou seja, uma dívida pode começar como um grande e próspero investimento, mas, se a estratégia não se manter os ventos mudam.

Avaliar uma empresa é uma tarefa que deve levar em consideração o potencial dinâmico do negócio, com premissas sustentáveis e coerentes que amparem o cálculo, isso porque estamos falando de projeções que dependem de variáveis para que se tornem realidade no futuro. Graham escreve sobre isso quando cita que nunca se deve pagar mais do que o valor presente dos fluxos de caixa futuros em um ativo, afinal os métodos são baseados em estimativas e com a precificação do mercado em relação as dívidas não é diferente.

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Estrutura

Para fazer um investimento é necessária uma origem dos recursos, escrevi a algumas semanas sobre o essencial na contabilidade para entender as demonstrações, logo noativo temos o investimento total e a contrapartida no passivo.

A estrutura de capital do negócio é formada a partir da origem dos financiamentos que a empresa usa para obter o investimento. Então temos o capital próprio que é o patrimônio da empresa, aqui entra o acionista que possui ações e que tem direito sobre o investido, e temos também o capital de terceiros – as dívidas.

Para saber os valores basta analisar no passivo os gastos com empréstimos e financiamentos.

AtivoOnde recursos foram aplicados
Passivo Circulante e N/circulanteCapital de Terceiros
Patrimônio LíquidoCapital Próprio

 

E cuidado com a generalização de que o capital de terceiros sinaliza, sem exceções, uma empresa em situação financeira ruim.

 

Retornos dos investimentos

 

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A capacidade que um negócio possui em investir é algo positivo, pois aumenta a probabilidade de geração de valor, logo de retorno para o acionista.

A lógica é dedutível: se eu aumento a capacidade produtiva eu aumento a possibilidade de gerar mais receita, então se a estratégia da empresa for coerente e os fluxos puderem ser mantidos ao longo da execução do projeto, as probabilidades são de aumento de retorno, desde que a empresa consiga gerar valor suficiente para honrar o compromisso através da geração de valor atual (receita).

Importante levar em consideração na análise a da taxa de juros (cenário macro). Quando a taxa de juros aumenta o custo ponderado de capital será maior, isso significa que somente projetos com retornos maiores são viabilizados e quando existe alta de juros o WACC (custo médio ponderado de capital) desacelera a economia, quando os juros estão em baixa ele faz a economia crescer.

 

Nas análises precisamos entender certos padrões, pois eles ajudam a definir se a empresa pode agregar valor aos projetos e justificar os investimentos.

 

Resumindo

Se o negócio onde você investe está alavancado, mas continua apurando lucro e este está em crescimento, é um sinal de que o investimento (dívida) está atendendo ao objetivo de aumentar a receita, está tornando o negócio mais eficiente e eficaz e trazendo resultados.

Podemos citar os investimentos da LREN3, ou da NATU3, MDIA3, KROT3, que poderemos observar nos próximos trimestres se os retornos serão adequados, após o tempo necessário para que as sinergias das aquisições ocorram.

Então poderemos entender se a estratégia custo/retorno do investimento/projeto está trazendo resultados positivos. Se são empresas que contraem dívidas para expansão e com isso aumentar participação de mercado e mantem rentabilidade crescente.

Porém se o negócio possui uma dívida gigante e não consegue aumentar o lucro ou pior, começa a reportar prejuízo?

Nesse caso temos um problema e precisamos investigar o que está ocorrendo, afinal obviamente se a empresa tem dívidas e não tem lucro ou não aumenta o lucro projetado na execução do projeto, a tendência é o acúmulo da alavancagem, e isso se transformar em uma dívida ruim “mais dívida para pagar a dívida que já existe”.

Concluindo

Ao analisar a dívida do negócio que você investe ou quer investir, lembre-se que investimentos (dívidas) são importantes quando usados para aumentar a possibilidade de gerar valor ao negócio, torná-lo mais rentável e mais lucrativo para o acionista a longo prazo. Verifique se, no prazo estimado o próprio projeto (onde foram aplicados os recursos) poderá prover o fluxo para honrar a obrigação (dívida) sem tornar o processo uma bola de neve, que apenas gera mais e mais dívida, comprometendo a saúde financeira do negócio e o retorno do acionista.

Para acessar mais conteúdo e enviar sugestões: @patricia_rossari

Patrícia Rossari

 

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