MDIA3: M. Dias Branco – Resultados 3T19

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Quem já trabalhou ou trabalha em indústria sabe a importância da cadeia logística no resultado do negócio, e isso vai além da exposição mais privilegiada do produto no supermercado (caso dos produtos de MDIA3). Você já deve ter reparado que algumas marcas estão sempre em evidência em determinadas redes de varejo, e isso não é coincidência, mas não é somente o que importa.

 

Entendendo o negócio

Na década de 90, ela inaugura uma unidade de moagem de trigo para a produção do principal insumo – aqui temos um momento de ruptura no processo de produção, muito importante, iniciando o processo de verticalização. Ainda nos anos 90 ela implantou a estratégia de utilizar não apenas o insumo, mas também comercializar farinhas e farelo de trigo, um mercado muito mais competitivo e que na época passava por inúmeras modificações, e esse foi um dos motivos pelos quais a M. Dias Branco (MDIA3) investiu nessa verticalização.

Para quem não lembra, nos anos 90 o governo parou de intervir no setor do trigo, e ocorre a abertura econômica, ou seja, a permissão para entrada de novos concorrentes no mercado e, com o MERCOSUL em 1994, a expansão dessa mudança amplifica.

Na virada do milênio, a empresa investe mais uma vez na busca da maximização dos resultados através de um gerenciamento de custos mais efetivo, ou seja, amplia a verticalização, e como da primeira vez, não apenas usando a estratégia para suprir a própria produção, mas também para aumentar o portfólio de produtos comercializados. Ela inaugura então uma planta produtiva de produção de gorduras, margarinas e cremes vegetais, o segundo maior insumo usado na fabricação de seus produtos “chefes”.

No ano de 2005 ela integrou a fábrica ao moinho de trigo, com o objetivo óbvio de reduzir custo de movimentação/transporte da farinha (moinho) para a planta produtiva dos biscoitos e massas. Soma-se a essa estrutura a integração do porto privado de uso misto, onde a importação do trigo é feita com custo menor, se comparado ao mesmo processo sendo feito através de um porto comum, e das controladas: M. Dias Branco Internacional Trading LLC e M. Dias Branco Internacional Trading Uruguay S.A , que tem como atividade principal intermediar a compra dos insumos, o trigo em grãos  e o óleo vegetal, mais uma estratégia para diminuir o impacto do preço das commodities e, assim, suavizar o impacto no custo total.

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Para contextualizar, em média, o custo da matéria-prima representou, nos últimos trimestres, 43% da receita, e destes, 27% são compostos pelo trigo, seguido do óleo vegetal, com 6%.

A última grande aquisição da M. Dias Branco (MDIA3) foi a Indústria de Produtos Alimentícios Piraquê, que vai levar um tempo até apresentar resultados significativos. Isso não é algo anormal, a importância da aquisição vai além da marca e das plantas produtivas; a grande questão é o ingresso no mercado do sudeste brasileiro, afinal, hoje, cerca de 71% da receita da M. Dias Branco é gerada no Nordeste, e nesse trimestre ela perdeu mercado nessa região e sentiu forte nos volumes a consequência de ter um percentual tão elevado da receita restrito a um mercado.

Um fator positivo em relação às sinergias com a última aquisição foi que o nível de verticalização de farinha de trigo foi de 85,2%, ou seja, 2.2 p. p. acima dos 83% do trimestre de 2018. E se você acompanha a empresa, sabe que isso é significativo.

 

Resultados 3T2019 : MDIA3

 

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O que temos de mais importante nesses números é a questão do ajuste de estoque, que afeta a capacidade utilizada, o giro, o volume faturado e, consequentemente, os resultados.

Já falamos em diversos materiais sobre a importância de analisar o quanto de capacidade ociosa a empresa possui, tanto para avaliar o impacto atual nos custos, mas também para identificar possível aproveitamento da capacidade ociosa no futuro. Nesse trimestre, o nível de utilização da capacidade total é de 62,8%, contra 77,6% no terceiro trimestre de 2018 e 72,6% no segundo trimestre de 2019.

Em biscoitos, a redução foi de 73,6% no terceiro trimestre de 2018, 68,1% no segundo trimestre de 2019, para 54,2% nesse trimestre, e nas massas foram utilizadas 58,6% da capacidade nesse trimestre, contra 86,6% no terceiro trimestre de 2018 e 77,8% no segundo trimestre de 2019.

A M. Dias Branco (MDIA3) cita que essa diminuição da capacidade utilizada se deu devido ao recuo nos volumes vendidos e às férias coletivas concedidas com o objetivo de readequação dos estoques. Resumindo: vendemos menos, pois nossos clientes ainda tinham estoque e nós também; logo, não havia motivo para produzir mais e, portanto, utilizamos menos capacidade; nossa diluição de custos fica comprometida e, para diminuir impacto, usamos a estratégia de férias coletivas.

Outro fator na comparação que deve ser considerado, segundo a companhia, é que em relação à comparação com o segundo trimestre, houve aumento da capacidade total no trimestre atual, pois houve manutenções preventivas no segundo trimestre que diminuíram a capacidade de produção.

Mas nós sabemos que manutenções preventivas e paradas programadas, são uma forma de unir o útil ao agradável.

A empresa cita que essas mudanças são parte do plano para ajuste de demanda (estrutura de compras dos grandes players), além de uma necessidade de ajuste referente à flexibilidade e dinâmica nos processos de armazenagem e distribuição, lembrando, inclusive, que uma das estratégias de reestruturação é a implantação de um modelo logístico com operadores regionais, o que é uma decisão muito acertada.

E também cita que está reestruturando a parte comercial. Aqui, dois pontos são importantes para acompanhar: criação de duas diretorias, uma para as regiões Norte e Nordeste e outra para Sudeste, Sul e Centro-Oeste, afinal, são mercados com púbicos e modelos de precificação completamente distintos, e precificação é vital para qualquer negócio, sendo que, inclusive, ela cita que está contando com apoio de uma consultoria externa para esse fim, pois tem consciência da importância de trabalhar a precificação por canal e assim se tornar mais competitiva e flexível para se adequar a demanda.

Canais diferentes exigem estratégias diferentes, isso não é novidade, mas algumas empresas demoram mais para adotar as medidas e modificar os processos. Geralmente isso ocorre com empresas que têm muito market share, o que as deixa demasiadamente confortáveis.

Nesse trimestre, a M. Dias Branco (MDIA3) apurou recuo de 1,4 p.p. no market share em biscoitos (33,2%), na comparação com o terceiro trimestre de 2018, e recuo de 2,6 p.p. em massas (35,6%).

Acompanhe abaixo a imagem, retirada do release da M. Dias Branco (MDIA3):

 

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Receita Líquida

A M. Dias Branco (MDIA3) apurou R$ 1,5 bilhão no trimestre, contra R$ 1,7 bilhão no mesmo período de 2018, um recuo de 11,1%.

Os biscoitos, que representaram 54,2% da receita, tiveram uma queda de 14,9%, com aumento de preço médio R$/Kg líquido em 5,35% e queda no volume, de 19,3%. As massas, que representam um pouco mais de 20% da receita, nesse tri recuaram 12,7%, com aumento de preço médio R$/Kg líquido em 8,9% e queda no volume, de 19,9%. Quando o período de comparação é com o segundo trimestre de 2019, houve aumento de 0,5% na receita líquida, com queda de 2,3% nos volumes e um aumento de preços em 2,9%.

Para contextualizar, nessa base comparativa os biscoitos reduziram a receita líquida 0,6% e o preço médio líquido R$/kg aumentou 3% (lembrando que os biscoitos são os mais significativos na receita total); e as massas reduziram a receita em 2,6%, mas o preço aumentou 4,6%.

Aqui vale destacar o aumento do preço médio líquido da farinha R$/kg, em 8,8%, o que obviamente permitiu esse aumento de preços ao consumidor final. Mas não se esqueça de prestar atenção ao fator “efeito preço negativo”, pois é uma das variáveis que acabam influenciando esse negócio: o preço da commodity cai e, com isso, o preço final recua em muitas marcas, o que pressiona a concorrência a fazer o mesmo. Então são duas situações distintas, preço da MP em alta e em baixa.

Analisando o resultado bruto por região, a M. Dias Branco (MDIA3) destaca os seguintes números:

 

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Observe que houve recuo na região Sudeste.

Houve redução do lucro bruto de 20,4% no comparativo anual – R$ 534,8 milhões, com margem bruta recuando 4,0 p.p., ficando em 34,5% (volumes menores e do aumento dos custos). Deste total, R$ 71,6 milhões são de subvenção fiscal estadual, e houve aumento dos incentivos fiscais estaduais, conforme descrito no material da empresa.

 

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Custos

Já falei no início desse texto que os custos com matéria-prima representaram 43,9% nesse trimestre, sendo trigo com 27,9% desse total. Nessa conta de custos, o segundo percentual com maior representatividade após as matérias-primas é o custo com mão de obra, que subiu 6,8% na comparação com o ano passado e 4,5% em relação ao segundo trimestre de 2019 (reajuste salarial e reoneração da folha). A empresa cita que está com plano de demissão voluntária e desligamentos, para ajuste do quadro.

No total, o CPV total representou 70,1% da ROL, contra 66,7% no mesmo período de 2018 e 70,3% no segundo trimestre de 2019. Em relação a essa última base comparativa, houve redução dos custos do trigo, óleo e açúcar, respectivamente -0,8%, -1,8% e -2,0%.

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Ebitda

A M. Dias Branco (MDIA3) apurou R$ 188,1 milhões de EBITDA no trimestre, contra R$ 283,8 milhões ano passado, uma redução de 33,7%, e R$ 182,7 milhões no segundo trimestre, aumento de 3%. Margem EBITDA de 12,1% nesse trimestre, contra 16,3% no ano passado e 11,8% no segundo trimestre desse ano.

Aqui, a retração se deu obviamente pela menor diluição dos custos fixos, devido ao menor volume produzido no trimestre. Cabe lembrar que nem sempre os repasses de preços das commodities são ajustados no mesmo período (DRE), o que altera a margem.

Em relação à estratégia de armazenagem/contratos referentes à MP principal, a empresa mantém estoques de trigo e contratos negociados para entrega futura, para de 2 a 4 meses de consumo, dependendo da época do ano e da sazonalidade de cultivo.

 

Resultados Financeiros

O resultado financeiro ficou positivo em R$ 18,3 milhões, contra R$ 28,3 milhões no mesmo trimestre de 2018. Aqui a M. Dias Branco (MDIA3) justifica os números pelas seguintes variáveis:

  • Efeito negativo de R$ 9,6 milhões no valor justo dos contratos de swap.
  • Reconhecimento dos juros de arrendamento, no montante de R$ 1,8 milhão, em cumprimento ao Pronunciamento Técnico CPC 06 (R2) – Operações de arrendamento mercantil (IFRS16), que antes eram contabilizados como despesas operacionais e a partir de 2019 passaram a ser registradas como liquidação de endividamento.

 

Pelo lado positivo, ocorreram atualizações sobre o crédito de exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS/COFINS. A empresa contabilizou receitas de créditos tributários extemporâneos líquidos de honorários advocatícios de êxito: R$ 58,2 milhões; teve despesas com a integração da Piraquê: R$ 2,3 milhões; revisão do quadro de colaboradores e implementação do novo modelo logístico: R$ 23,9 milhões, sendo que o resultado final no EBITDA foi de R$ 32 milhões.

Ou seja, afetou o lucro do trimestre.

Você pode consultar os incentivos que a empresa possui no ITR, página 85.

 

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Alíquota efetiva recuou de 11,33% para 4,05%.

A M. Dias Branco (MDIA3) contabilizou R$ 134,5 milhões de lucro líquido no período, um recuo de 42,6% frente ao mesmo período de 2018 e aumento de 33,7% em relação ao segundo trimestre de 2019, onde o valor apurado havia sido de R$ 100,6 milhões.

Em relação ao índice de alavancagem financeira, no trimestre houve recuo, ficando em 7,49%, contra 12,13% em 31 de dezembro em 2018.

 

alavancagem-financeira

 

Concluindo

Nós já falamos aqui no site aberto e também na área de membros, sobre a importância das empresas estarem atentas à mudança da estrutura logística de seus clientes (outras indústrias/distribuidores/varejo), a importância de estar atento ao custo de estoque, custo de oportunidade, gerenciamento eficaz das armazenagens de MP, as proteções corretas em caso de dependência cambial, etc.

Afinal, essa variável é determinante na rentabilidade, não é apenas uma questão de produzir e vender, mas de programar o quanto produzir, dos níveis de estoque para manter, do nível de armazenagem para ter o mínimo de produto à disposição e atender com eficiência a demanda, etc.

Aqui você pode observar que os níveis de estoque de matéria-prima e de estoques em produção da companhia recuaram, porém os estoques de produtos acabados continuam altos. Imagem retirada do ITR da companhia:

 

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Ao investir em indústrias, é preciso analisar esses pontos: estoque, capacidade utilizada, custos, custo marginal, eficiência de fornecimento de MP, demanda elástica, capacidade de sobreviver com margens menores, etc. Assim saberás se é um bom investimento, se existem bons fundamentos no negócio e se o que o mercado está apresentando é uma oportunidade ou um aviso.

A questão é que a M. Dias Branco (MDIA3) está passando por um ajuste interno, revendo algumas estratégias de operação/logísticas e comerciais, o que é normal em qualquer negócio, afinal eles são dinâmicos e precisam se adequar às mudanças do mercado consumidor. Porém, muitas vezes o mercado precificada demasiadamente nas épocas de “vacas gordas” e, então, quando a “vaca emagrece”, a queda na cotação (que reflete o resultado) acaba assustando muitos investidores que acreditam em empresas “a prova de balas”.

“Um aumento no volume de produção não necessariamente significa uma queda nos custos unitários, pela mesma razão que uma queda no volume não implica um aumento nesse custo. Esse tipo de coisa acontece como consequência de um arranjo ineficiente das coisas.” O nascimento do Lean

Informação é dinheiro.

Até a próxima semana.

Patrícia Rossari

Analista de Negócios – Especialista em Logística

 

Não é recomendação de compra ou venda. Com esse objetivo, o Daniel Nigri, analista CNPI, fez um vídeo para assinantes na Área de Membros. Clique aqui, faça o seu login e assista.