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Buffett estava certo: 90% dos investidores deveriam largar o Stock Picking e investir em um ETF

Se você perguntar a qualquer investidor iniciante quantas ações precisa ter na carteira para estar “bem diversificado”, é provável que ouça algo em torno de 20 a 30 ações. Esse número aparece em manuais, artigos de revistas de finanças e até em livros clássicos sobre investimentos. É quase um mantra: “se tiver 25 papéis, você já se protegeu contra riscos específicos”.

Mas… e se eu te disser que isso é meia verdade? E que, no longo prazo, ter só 25 ações pode custar até 40% do seu patrimônio acumulado em relação a quem diversifica de verdade? Pois é exatamente isso que mostra um estudo da NDVR (2022), que simulou 25 anos de mercado americano para responder a pergunta: afinal, quantas ações você deveria ter na sua carteira?

E a resposta é contraintuitiva: 200, no mínimo.

O mito das 30 ações

A ideia de que 20 ou 30 ações bastam para diversificar surgiu de modelos matemáticos simplificados. Se cada ação tem uma volatilidade própria (digamos 45%) e o mercado como um todo oscila 15%, então basta adicionar algumas ações diferentes na carteira para que a volatilidade média da sua carteira “convirja” para a do mercado.

Nesses modelos, depois de 20 ou 30 ativos, adicionar mais papéis quase não muda o risco. É como se a diversificação tivesse um ponto de saturação. Isso soa lógico, elegante e até reconfortante para quem gosta de montar a própria carteira de ações.

Só que o problema é que a vida real não cabe em uma equação bonita.

O estudo da NDVR resolveu testar essa teoria no campo prático. Eles simularam milhares de carteiras entre 1994 e 2019, com horizontes de 25 anos e diferentes tamanhos de portfólio: de 10 ações até 500. Todas eram rebalanceadas mensalmente e reinvestiam dividendos.

Os resultados chocam quem acredita na “regra das 30 ações”.

  • Um investidor “azarado” com 10 ações multiplicou sua riqueza por 9 vezes em 25 anos.
  • Já um investidor igualmente azarado, mas com 500 ações, multiplicou por 18 vezes – o dobro.
  • E com 25 ações? Havia 10% de chance de terminar com menos de 12x o patrimônio inicial.
  • Com 250 ações, a mesma probabilidade levava a menos de 17x – uma diferença enorme.

Em outras palavras: a dispersão de resultados em portfólios pequenos é gigantesca. Ter 25 ações não garante que você vai acompanhar o mercado. Significa, na prática, jogar um jogo de sorte: pode acabar rico, mas também pode terminar 40% mais pobre do que deveria.

O grande erro dos modelos clássicos é olhar apenas para a volatilidade média. É verdade que a volatilidade de uma carteira de 25 ações é parecida com a do mercado. Mas isso não significa que os resultados finais também sejam.

O que importa para o investidor de longo prazo não é apenas o sobe e desce anual, mas sim o patrimônio acumulado depois de décadas. E nesse ponto, a diferença explode.

Por quê? Três motivos principais:

  1. Risco idiossincrático não some tão rápido – Mesmo com 25 ações, ainda sobra muito risco específico de empresas. Se cada ação tem 45% de risco próprio, a carteira de 25 ainda carrega 9% de risco idiossincrático por ano. Acumulado por 25 anos, isso vira uma bomba-relógio.
  2. Distribuição importa, não só média – A média de volatilidade pode até ser parecida, mas a dispersão é enorme. Em 25 papéis, você tem mais chance de cair em uma carteira “atípica” – ou seja, mais arriscada e com piores retornos.
  3. Retornos médios são diferentes – A teoria simplista assume que todas as ações têm o mesmo retorno esperado. Na prática, isso não existe. Alguns papéis vão entregar 12%, outros 2%. Só que você não sabe quem é quem com antecedência. Se cair na “cara” errada da moeda, sua carteira de 25 ações pode virar um cemitério de retornos baixos.

Ou seja: não basta 30 ações. O risco de ficar para trás é real e se multiplica com o tempo.

Buffett estava certo?

Diante disso, a recomendação do estudo é: se você quer reduzir o risco de azar e capturar os retornos do mercado com mais segurança, precisa de 200 a 250 ações no mínimo. Abaixo disso, você está exposto a variações que não têm nada a ver com “habilidade” – só com sorte.

E aí entra a provocação: quem tem tempo, dinheiro e energia para montar uma carteira com 250 ações? Quem consegue acompanhar balanços, resultados, teses e riscos de 200 empresas diferentes?

Provavelmente, menos de 1% dos investidores. É aqui que entra a frase lendária do Warren Buffett:

“Para 90% das pessoas, a melhor escolha é colocar o dinheiro em um ETF do S&P500 e esquecer o Stock Picking.”

Buffett não disse isso porque duvida da inteligência do investidor médio, mas porque entende exatamente o que esse estudo mostrou. Não se trata de ser esperto. Se trata de não depender da sorte.

Um ETF como o IVVB11 (no Brasil) ou o SPY (nos EUA) dá ao investidor exposição a 500 empresas ao mesmo tempo. Ou seja, resolve de forma simples e barata o problema da dispersão de resultados.

Enquanto o stock picker com 25 ações corre o risco de estar no lado errado da curva, o investidor de ETF praticamente elimina esse azar. Ele não vai “bater o mercado”, mas vai garantir o retorno de mercado – que já é suficiente para multiplicar o patrimônio muitas vezes em 20 ou 30 anos.

E isso é algo que a maioria não gosta de ouvir, porque fere o ego: aceitar que o jogo não é de esperteza, mas de disciplina.

A verdade dura é que a maioria dos investidores não perde dinheiro porque “o mercado é malvado”, mas porque insiste em acreditar que vai ser o sortudo que escolheu as 25 ações certas.

  • Você pode ter disciplina, estudar e acompanhar balanços, mas ainda assim cair no lado errado da moeda.
  • Você pode passar 25 anos achando que estava diversificado, quando na prática estava apenas concentrado demais.
  • Pior: pode terminar com um patrimônio 40% menor do que teria se simplesmente tivesse comprado o mercado.

Stock picking é sedutor porque dá a sensação de controle, de “eu escolho minhas empresas”. Mas o estudo mostra que, para 90% das pessoas, isso é um tiro no pé estatístico.

A resposta é simples, mas impopular:

  • Se você não é gestor profissional, não tente bater o mercado.
  • Se você não tem tempo ou dinheiro para ter 200 ações, não se iluda com 20 ou 30.
  • Se você quer consistência, compre ETFs amplos e rebalanceie de tempos em tempos.

Isso não vai te deixar rico rápido, não vai te dar histórias épicas para contar em churrascos, mas vai te dar algo muito mais valioso: a segurança de não depender da sorte para chegar lá.

Conclusão

O estudo da NDVR desmonta um mito repetido há décadas: 20 ou 30 ações não garantem diversificação real para o investidor de longo prazo. Na prática, só um portfólio com 200 ou mais ações reduz de verdade o risco de azar e captura os retornos do mercado de forma consistente.

E é justamente por isso que Buffett recomenda ETFs para 90% das pessoas. Não porque sejam burros ou preguiçosos, mas porque a matemática está contra eles.

Diversificação de verdade não é glamour, não é stock picking e não é torcida. É estatística pura.
E ela joga pesado contra quem insiste em acreditar que 25 ações bastam.

Se você não quiser ser um dos azarados da curva, talvez seja hora de ouvir Buffett – e o estudo – e simplificar: compre o mercado.

Referência: CHEN, Yin; ISRAELOV, Roni. How Many Stocks Should You Own? The Journal, NDVR, nov. 2022. Disponível em: https://ndvr.com/. Acesso em: 1 out. 2025.

Grande abraço,

João Pedro Mello

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