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Por que nós resolvemos entrar na bolsa?

A explosão de pequenos investidores na Bolsa entre 2019 e 2021 costuma ser explicada por frases rápidas: a Selic caiu, a propaganda aumentou, era modinha. Nenhuma dessas justificativas isoladas descreve o fenômeno com precisão. Um estudo robusto, realizado com 698 pequenos investidores brasileiros, mostra que a decisão de entrar na renda variável é muito mais complexa, multifatorial e, acima de tudo, profundamente ligada à percepção de oportunidade e à necessidade de construir renda futura.

Segundo os autores, embora a queda da taxa Selic tenha algum papel, ela não foi, de longe, o fator dominante.

Apenas 15,8% dos respondentes concordaram totalmente que a redução da Selic influenciou sua decisão, enquanto 28,7% discordaram totalmente. O que realmente estimulou a entrada de investidores foi o comportamento dos preços das ações durante períodos de alta volatilidade. Quase metade dos participantes afirmou concordar totalmente que a queda nos preços das ações representou uma oportunidade clara de entrada, e outros 31,1% concordaram parcialmente.

A dinâmica é simples: quando os preços desabam, a percepção de desconto atrai quem já observava o mercado, quem buscava uma porta de entrada ou quem compreendia minimamente o funcionamento do ciclo econômico. Isso explica por que a pandemia, mesmo sendo um período de incerteza extrema, coincidiu com o maior fluxo de novos CPFs da história da B3.

Outra força determinante identificada no estudo é a busca por renda futura. Diferentemente da imagem popular de que o pequeno investidor quer “ficar rico rápido”, os dados mostram que 61,2% dos entrevistados concordaram totalmente que investem visando uma renda extra de longo prazo, e outros 27,7% concordaram parcialmente. A Bolsa de Valores é vista como uma alternativa complementar para aposentadoria, geração de patrimônio ou diversificação frente ao enfraquecimento da renda fixa tradicional. Essa leitura é reforçada pela percepção sobre a poupança: enquanto a Selic em si divide opiniões, o baixo rendimento da poupança foi apontado como fator determinante por 37% dos participantes, com outros 24,8% concordando parcialmente. Em resumo, não foi o juro baixo que empurrou os investidores para a Bolsa; foi o fato de que o investimento mais tradicional do país deixou de atender às expectativas mínimas de retorno.

A ideia de lucro rápido, outro clichê recorrente, também é relativizada pelos dados. A amostra mostra equilíbrio entre concordância e discordância, o que indica que a noção de “ganhar dinheiro rápido” existe, mas não é predominante. Investidores com pouco conhecimento geralmente discordam desse tipo de expectativa, enquanto perfis agressivos tendem a aceitá-la com mais naturalidade. O perfil conservador, por sua vez, fica totalmente dissociado dessa visão.

Os mapas perceptuais da pesquisa reforçam a heterogeneidade: moderados rejeitam ganhos imediatos e se aproximam mais da visão de longo prazo; agressivos aproveitam quedas como oportunidades e são menos influenciados por indicações macroeconômicas como a Selic; já conservadores não enxergam quedas como oportunidades, não respondem à Selic e tampouco buscam rentabilidade acelerada.

Outro ponto frequentemente superestimado é o papel da propaganda. Apenas 6,7% dos investidores concordaram totalmente que propagandas de corretoras ou conteúdos em rede social influenciaram sua entrada no mercado. Ainda assim, há grupos específicos em que o efeito é mais forte, como pessoas da faixa etária entre 46 e 65 anos e investidores que aplicaram até R$500 na primeira experiência. Os entrantes pós-pandemia também demonstraram maior sensibilidade às campanhas, provavelmente por passarem mais tempo expostos a conteúdos digitais durante o isolamento social. Na prática, porém, o estudo mostra que a propaganda não foi o motor da entrada em massa; ela serviu como reforço ou gatilho complementar para públicos muito específicos.

Um dado especialmente relevante é a diferença entre quem entrou antes e quem entrou durante a pandemia. Os investidores pré-2019 discordam fortemente que a queda da Selic tenha influenciado sua entrada, os entrantes de 2019 se mostraram neutros, e quem ingressou após fevereiro de 2020 passou a atribuir maior peso ao juro baixo e às campanhas digitais. Isso indica que, em momentos de choque econômico, novos investidores tendem a reagir a um conjunto diferente de estímulos, mais emocionais, mais imediatos e mais ligados ao contexto social.

O estudo conclui que os principais fatores determinantes para a entrada na Bolsa são a possibilidade de renda extra futura, a queda nos preços das ações, o baixo rendimento de investimentos tradicionais e, em menor grau, a queda da Selic. Fatores como propaganda e incentivo de parentes ou amigos têm influência limitada, praticamente irrelevante na maioria dos casos. O perfil do investidor, sua tolerância ao risco, seu nível de conhecimento, sua idade e até sua faixa de renda determinam como cada fator é interpretado, reforçando a natureza multifacetada da decisão de investir em renda variável.

Em síntese, o pequeno investidor brasileiro é menos impulsivo do que se imagina e mais racional do que sugere o senso comum. Ele responde a preços, busca oportunidades, tenta se proteger da deterioração da renda fixa e raramente entra na Bolsa exclusivamente por influência externa. Ao olhar esses dados, fica claro que compreender a trajetória desse investidor exige abandonar estereótipos simplistas e reconhecer que suas escolhas são moldadas por ciclos econômicos, percepções de valor e expectativas de longo prazo, e não por modismos passageiros ou promessas de enriquecimento instantâneo.

Se a renda variável atraiu milhões de brasileiros nos últimos anos, não foi por acaso: foi porque, diante de um cenário econômico desafiador, ela se apresentou como caminho possível, às vezes necessário, para quem buscava construir patrimônio e ampliar sua segurança financeira no futuro.

Referência: COSTA, Mayra Raulino da; MENDES, Alcindo Cipriano Argolo; SILVA, Maiara Sardá; LUNKES, Rogério João. Os fatores determinantes para a entrada de pequenos investidores na Bolsa de Valores do Brasil. Revista Contabilidade e Controladoria – RC&C, Curitiba, v. 14, n. 2, p. 144–165, maio/ago. 2022. DOI: 10.5380/rcc.v14i2.83209

Grande abraço,

João Pedro Mello

 

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