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R$ 100 mil não é sempre R$ 100 mil: o que muda de um degrau para o outro

Fala, pessoal!

Na semana passada eu contei pra vocês sobre A Escada da Riqueza, do Nick Maggiulli, e apresentei os seis degraus que ele descreve no livro — cada um representando um salto de dez vezes no patrimônio em relação ao anterior. Hoje eu quero aprofundar um ponto que, pra mim, foi o que mais desmontou uma ideia que eu carregava (e que talvez você também carregue): a de que “mais dinheiro” sempre significa “mais liberdade”, na mesma proporção.

Não significa. E entender por que muda completamente como você deveria pensar o próximo real que sobra no seu orçamento.

R$ 100 mil não é sempre R$ 100 mil

Pega dois exemplos. No primeiro, alguém sai de R$ 10 mil de patrimônio para R$ 100 mil — um salto de R$ 90 mil. No segundo, alguém sai de R$ 300 mil para R$ 400 mil — um salto de R$ 100 mil. Nominalmente, saltos parecidos. Na prática, o efeito é completamente diferente.

No primeiro caso, R$ 10 mil está no nível 1 da escada — abaixo de R$ 50 mil — e R$ 100 mil já está no nível 2 — entre R$ 50 mil e R$ 500 mil. Essa pessoa cruzou de degrau. E cruzar de degrau, como vimos na semana passada, muda o tipo de decisão financeira que faz sentido pra ela: sai do “cada centavo conta” e entra na fase em que dá pra fazer compras no supermercado sem fazer conta de cabeça o tempo inteiro.

No segundo caso, R$ 300 mil e R$ 400 mil estão os dois dentro do nível 2. A pessoa está mais rica em termos absolutos, mas continua no mesmo degrau — com o mesmo tipo de decisão, a mesma margem de manobra, o mesmo padrão de vida possível.

A conclusão é simples de enunciar e difícil de internalizar: o que muda o seu padrão de vida não é quanto você ganhou a mais, é se esse “a mais” te tirou do degrau em que você está. Isso deveria mudar, inclusive, como você comemora — ou não — um aumento de patrimônio.

Não é só quanto, é onde está

Tem uma segunda camada nessa história, que o livro também traz com dados: não é só o valor do seu patrimônio que muda de degrau para degrau — é o tipo de ativo que compõe esse patrimônio.

No nível 1, a maior parte do que as famílias têm é dinheiro em espécie e veículo. A casa própria ainda é rara: segundo o levantamento americano citado no livro (Survey of Consumer Finances, 2022), só 6% das famílias nesse nível são proprietárias. No nível 2, essa taxa sobe para 42% — e para quem já tem casa, ela passa a representar cerca de 76% do patrimônio total. No nível 3, a casa própria vira quase universal (90% das famílias), mas o peso dela no patrimônio começa a cair, para cerca de 65% — porque entram as contas de aposentadoria e os primeiros investimentos. No nível 4, esse peso cai para cerca de 35%, com a entrada de ações e fundos. Nos níveis 5 e 6, a casa já representa uma fatia pequena do patrimônio — 14% e 5%, respectivamente — porque o protagonismo passa a ser das participações em negócios e das carteiras diversificadas.

Ou seja: o peso da casa própria no seu patrimônio não cai de forma constante à medida que você sobe a escada. Ele sobe primeiro — até virar praticamente a totalidade do que você tem no início do nível 2 — e só depois começa a cair, conforme outros tipos de ativo entram na conta. É uma curva, não uma reta.

Por que isso muda o seu planejamento

Esse dado tem uma aplicação prática direta: o que faz sentido priorizar na sua carteira depende de em que ponto dessa curva você está. Alguém no início do nível 3 correndo para diversificar em ações, sem antes ter resolvido a questão da moradia, pode estar tentando pular uma etapa que ainda faz parte do degrau em que está. E o oposto também é verdade: alguém no nível 4 que continua concentrando quase tudo em imóvel está, na prática, ainda tomando decisões do nível 3.

Não existe erro em nenhum dos dois momentos — existe descompasso entre o degrau em que a pessoa está e o tipo de ativo que ela está priorizando.

E você: o seu patrimônio está concentrado no tipo de ativo certo para o degrau em que você está, ou você está tentando ter a carteira de quem já subiu um degrau — ou ainda vivendo com a carteira de quem está um degrau abaixo?

 

Julia Bastos Chagas Priante — @julia.priante

Engenheira de Alimentos pela Universidade Federal de Viçosa, atua no mercado financeiro desde 2006. Com ampla experiência como Officer no Itaú Unibanco/Itaú BBA nos segmentos de Empresas, Nicho Imobiliário e Multinacionais. É Especialista em Investimentos (CEA) e Pós-graduada em Planejamento Financeiro. Auxilia famílias a alcançarem seus sonhos por meio de um planejamento financeiro estruturado e personalizad

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