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Pouco petróleo, muita politica e pouca margem para erro

Tem manhã em que o mercado acorda nervoso.

Hoje ele acordou com petróleo acima de US$ 100, Treasury de 10 anos em 5,319% e o Estreito de Ormuz novamente lembrando ao mundo que logística global também pode funcionar como arma geopolítica.

O Brent sobe 0,63%, para US$ 101,21, enquanto o WTI avança 0,25%, a US$ 89,66.

A tese é simples: ataques dos houthis, apoiados pelo Irã, contra alvos na Arábia Saudita aumentaram o prêmio de risco sobre os embarques pelo Ormuz.

E aqui aparece a matemática desagradável.

Petróleo mais caro → inflação potencialmente maior → juros altos por mais tempo → Treasury sobe → valuation de ativos de risco sofre.

É quase uma linha reta.

Só que mercado financeiro não gosta de linhas retas. Prefere labirintos.

O Treasury de 10 anos foi a 5,319%, enquanto o Bund alemão equivalente chegou a 3,489%. A recuperação dos títulos perdeu força e os yields voltaram para regiões que fazem qualquer gestor de duration reconsiderar suas escolhas de vida.

Se alguém disser que o petróleo subiu porque o Fed espirrou, não acredite. Embora, considerando o mercado atual, provavelmente haverá um relatório de 47 páginas explicando a correlação.

E o problema pode ser maior do que o petróleo.

A Saudi Aramco alerta que os estoques globais destinados a proteger o mercado contra choques de oferta estão “assustadoramente escassos”.

Governos anunciaram planos para liberar até 100 milhões de barris de petróleo e diesel de reservas estratégicas.

Só que reserva emergencial resolve liquidez. Não resolve uma rota marítima travada. É a diferença entre ter dinheiro na conta e conseguir passar o cartão.

Enquanto isso, a Shell trouxe um dado que merece atenção: sua margem de refino saltou para US$ 42 por barril no 3T2026, contra US$ 24 no 2T2026. Alta de 75% em um trimestre.E não é qualquer número.

O recorde anterior era de US$ 28,04, registrado depois da invasão russa da Ucrânia. Ou seja: o conflito não está apenas mexendo com o preço do petróleo. Está alterando a economia da cadeia inteira de energia.

Para refinadores, volatilidade pode ser problema para uns e EBITDA para outros.

EUROPA: A INDÚSTRIA DISSE “CALMA” E A ESTATÍSTICA RESPONDEU “NÃO”.

A produção industrial da Alemanha subiu 2% em agosto, enquanto o consenso apontava queda de 0,1%.

Surpresa positiva de 2,1 pontos percentuais. Mas ontem as encomendas à indústria alemã haviam despencado 10,6%. Portanto, temos a velha arte econômica de transformar dois números contraditórios em uma narrativa coerente.

Kahneman provavelmente chamaria isso de viés cognitivo. O sell-side chama de relatório.

BRASIL: ELEIÇÃO, JUROS, PETRÓLEO E PRÊMIO DE RISCO.

O primeiro turno colocou Flávio Bolsonaro com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.

Agora a Eurasia elevou de 45% para 70% sua probabilidade de vitória de Flávio no segundo turno.

A diferença entre os candidatos foi de apenas 1,87 ponto percentual no primeiro turno, mas a mudança na probabilidade atribuída pela consultoria foi de 25 pontos percentuais.

Mercado adora probabilidades. Principalmente quando pode transformar uma eleição em valuation.

A Cosan, por exemplo, estaria reavaliando planos de venda de ativos diante da melhora das condições de mercado e da redução de aproximadamente metade da dívida no último ano.

Não é ideologia. É custo de capital.

Quando o mercado acredita que o WACC pode cair, alguns ativos que pareciam condenados à venda subitamente ganham direito a uma segunda opinião.

Howard Marks provavelmente diria para olhar o preço antes de olhar a história.

E o petróleo adiciona outra variável à equação brasileira.

A ANP realiza hoje um leilão com mais de 300 blocos de petróleo e gás, incluindo 13 áreas do pré-sal. Petrobras, Prio, Shell e TotalEnergies estão entre as empresas habilitadas.

Com Brent acima de US$ 100 e estoques estratégicos pressionados, o valor econômico de reservas aumenta. Mas cuidado com a euforia.

Preço do petróleo é variável exógena. Capex, declínio de produção, lifting cost, dívida e disciplina financeira continuam sendo endógenos.

Traduzindo: Brent alto ajuda. Não faz milagre.

PIX: O BANCO CENTRAL QUER QUE O SEU DINHEIRO TENHA AGENDA PRÓPRIA.

A Resolução BCB nº 587 amplia funcionalidades do Pix e estabelece mudanças que serão implementadas entre agora e julho de 2027.

A principal novidade no radar é que, a partir de 1º de julho de 2027, contas-salário poderão utilizar o Pix Automático para pagamentos recorrentes previamente autorizados.

Contas, mensalidades e serviços poderão ser pagos automaticamente.

A evolução é relevante porque transforma o Pix de simples infraestrutura de transferência em uma camada cada vez mais importante de pagamentos recorrentes.

O sistema financeiro brasileiro continua fazendo uma coisa curiosa: enquanto outros países ainda discutem infraestrutura de pagamentos, o Brasil transforma transferência bancária em produto.

BANCOS: JPMORGAN TROCA O CAFÉ PELO MACHADO.

O JPMorgan rebaixou Banco do Brasil para underweight, com preço-alvo de R$ 23, implicando downside de 12,64%. A tese passa por inadimplência do agronegócio, câmbio e risco de El Niño.

Para o Bradesco, a história foi inversa. Upgrade para overweight, com preço-alvo de R$ 26, implicando upside de 19,04%.

Duas instituições financeiras, mesmo país, mesmo ciclo monetário e dois diagnósticos completamente diferentes. É por isso que valuation não é horóscopo.

Você precisa abrir a DRE.

 ENERGIA: A BATERIA TAMBÉM TEM CONTA PARA PAGAR.

A Aneel abriu consulta pública sobre o custeio dos sistemas de armazenamento em baterias. A proposta técnica prevê rateio entre geradores, modulado pelo Índice de Flexibilidade. Usinas mais flexíveis pagariam 25% do encargo; as menos flexíveis, 100%.

E aqui existe uma questão importante para o investidor de utilities, a transição energética não termina quando alguém anuncia uma bateria.

Alguém precisa pagar por ela. E, como sabemos, no mercado regulado a frase “alguém precisa pagar” geralmente termina em uma fórmula tarifária de 38 páginas.

PORSCHE: MENOS VOLUME, MAIS MARGEM.

A Porsche quer elevar em aproximadamente 20% o preço médio de venda dos veículos, enquanto reduz custos e simplifica a operação.

Ao mesmo tempo, está cortando 5.000 empregos, além de outros 3.900 cortes já previstos.

A estratégia é quase uma aula de microeconomia: menos unidades, maior ticket, maior margem.

A empresa quer lançar pelo menos um novo produto “definidor da marca” por ano até 2030.

A mensagem para o mercado é clara: crescimento de receita não é o único crescimento que importa.

Às vezes, o melhor EBITDA é aquele que nasce depois que você para de perseguir volume.

E NO BRASIL REAL, A RECUPERAÇÃO JUDICIAL CONTINUA SENDO UM EXCELENTE LABORATÓRIO DE RISCO DE CRÉDITO.

O Grupo SHC, representante da JAC Motors no Brasil, entrou em recuperação judicial com R$ 239,5 milhões em dívidas, envolvendo 44 empresas.

Um banco teria mais de R$ 100 milhões a receber. E ainda há credores tentando localizar veículos dados em garantia.

É a velha equação do crédito: garantia no contrato ≠ dinheiro recuperado na prática.

Benjamin Graham gostava de margem de segurança. O mercado de crédito brasileiro às vezes prefere margem de esperança.

SAÚDE: ESTABILIDADE COM ALTA ROTATIVIDADE.

Os planos de assistência médica chegaram a 53,164 milhões de beneficiários em agosto, alta mensal de apenas 0,02%.

Nos últimos 12 meses: 16,117 milhões de adesões e 15,434 milhões de cancelamentos

Saldo: 683 mil beneficiários.

A taxa de rotatividade chegou a 29,41%. Ou seja, o estoque parece estável, mas existe uma porta giratória funcionando em velocidade considerável.

É aquele clássico indicador que parece tranquilo até você olhar o fluxo.

COMÉRCIO EXTERIOR: A EUROPA ESTÁ COMPRANDO BRASIL.

As exportações brasileiras para a União Europeia cresceram impressionantes 60,1% em setembro, chegando a US$ 6,95 bilhões. As importações caíram 8,7%, para US$ 4,06 bilhões.

Resultado: superávit de US$ 2,89 bilhões.

No acumulado de janeiro a setembro, o superávit com a UE já chegou a US$ 6,10 bilhões.

O Brasil também vendeu mais para o mundo.

O MDIC reduziu a projeção de superávit comercial de 2026 de US$ 90 bilhões para US$ 84,4 bilhões.

Ainda assim, seria 24% acima dos US$ 68,1 bilhões de 2025.

Exportações projetadas: US$ 382,5 bilhões.

Importações: US$ 298,1 bilhões.

Não é detalhe macroeconômico. É entrada de dólares, composição cambial e amortecedor externo.

PARA QUEM TEM PRESSA

Brent: US$ 101,21 | +0,63%

WTI: US$ 89,66 | +0,25%

Bitcoin: US$ 86.404 | +1,15%

Ouro: US$ 4.155,58 | -1,15%

Treasury 10 anos: 5,319%

Bund 10 anos: 3,489%

 

Minério de ferro: China continental fechada. Reabre em 8/10.

Tesouro Nacional vendeu 750 mil LFTs, movimentando R$ 14,93 bilhões.

E hoje ainda temos a ata do Fed de setembro no radar.

 CONCLUINDO

O mercado está tentando precificar três coisas ao mesmo tempo: petróleo mais caro, juros globais mais altos e uma eleição brasileira que mudou rapidamente a distribuição de probabilidades.

O problema é que essas variáveis não trabalham isoladamente.

Petróleo acima de US$ 100 pressiona inflação.

Inflação pressiona juros.

Juros altos comprimem múltiplos.

Múltiplos menores pressionam ações.

E, no meio disso, o Brasil ainda precisa decidir quem vai governar, quanto vai gastar, quanto vai arrecadar e quanto o mercado estará disposto a cobrar pelo privilégio de financiar tudo isso.

Portanto, antes de comemorar qualquer rally, faça a pergunta menos popular da Bolsa:

quanto disso já está precificado?

Porque, no mercado, a notícia pode ser excelente.

O preço, nem sempre.

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