Quando eu olho para o Dica de Hoje hoje, com equipe, analistas, carteiras, produtos e milhares de pessoas acompanhando nosso trabalho, é curioso lembrar que nada disso começou com um grande plano de negócios. Na verdade, o Dica de Hoje surgiu muito mais da minha curiosidade pelo mercado e da vontade de compartilhar aquilo que eu vinha aprendendo ao longo dos anos.
Minha relação com dinheiro começou muito cedo. Eu cresci no Brasil da hiperinflação, das mudanças constantes de moeda e de um período em que era comum ver o dinheiro perder valor rapidamente. Quando criança, eu gostava de guardar notas e moedas das diferentes moedas que o Brasil teve. Depois, comecei a me interessar pela poupança. Eu tinha por volta de 9 ou 10 anos e pedia para o meu pai fazer depósitos em dias diferentes porque queria olhar o extrato e ver o dinheiro rendendo em várias datas. Naquela época eu não tinha conhecimento para explicar isso, mas já existia uma ideia na minha cabeça que continua comigo até hoje: o dinheiro precisa trabalhar para você.
Isso não significa, porém, que eu veja o dinheiro como o objetivo final. Nunca foi assim. Para mim, dinheiro é uma ferramenta. Ele serve para gerar liberdade, tranquilidade, experiências e capacidade de escolha. Serve para permitir que você passe mais tempo com sua família, viaje, conheça lugares, viva experiências e consiga tomar decisões sem estar o tempo inteiro pressionado pelo próximo boleto.
Foi em 1999 que eu comecei a investir de verdade. Primeiro em renda fixa e, pouco tempo depois, na Bolsa. Minha primeira compra direta de ações foi da Vale. A partir dali começou uma jornada que já dura mais de duas décadas e que, como qualquer trajetória longa, teve muitos acertos, mas também muitos erros.
Eu tentei estratégias que não funcionaram, vendi boas ações cedo demais, entrei em operações acreditando que tinha descoberto oportunidades que o mercado inteiro não estava enxergando e perdi dinheiro algumas vezes. Houve situações em que o prejuízo financeiro foi relevante, mas, olhando para trás, percebo que muitos dos maiores custos foram de tempo. Existem erros no mercado que custam dinheiro e existem erros que custam anos. Ambos fazem parte do processo, desde que você aprenda com eles.
Com o tempo, uma das conclusões mais importantes a que cheguei foi que investir bem não deveria ser uma atividade emocionante. Pelo contrário. Gosto da comparação de que ganhar dinheiro no longo prazo deveria ser quase como observar a grama crescer. No dia a dia parece que nada está acontecendo, mas, quando você olha depois de alguns anos, percebe uma diferença enorme.
Foi quando passei a enxergar o mercado dessa forma que minha maneira de investir mudou. Em vez de ficar concentrado apenas em quanto uma ação poderia subir, passei a observar com mais atenção a qualidade dos negócios. A empresa gera lucro de maneira consistente? Consegue crescer ao longo dos anos? Tem alguma vantagem competitiva? Consegue atravessar períodos ruins? O preço que estou pagando faz sentido em relação ao que aquele negócio entrega?
E existe uma pergunta que considero ainda mais importante hoje: quanto eu posso perder se estiver errado?
No começo, todo investidor está preocupado em saber quanto pode ganhar. Depois de muitos anos, você percebe que sobreviver aos próprios erros é tão importante quanto acertar. O investidor pode errar em uma posição, em uma empresa ou em uma análise. O que ele não pode fazer é transformar um erro em algo capaz de destruir tudo aquilo que construiu durante dez ou vinte anos.
É justamente por isso que diversificação sempre teve um papel importante na minha estratégia. Eu gosto de pensar a carteira em diferentes camadas. Existe um núcleo formado por empresas mais previsíveis, negócios consolidados e companhias com histórico longo de geração de resultados. Ao redor desse núcleo podem existir posições menores, com mais risco, mais incerteza e também maior possibilidade de retorno. Além disso, não vejo sentido em tratar ações como a única alternativa possível. Dependendo do momento, renda fixa, fundos imobiliários, investimentos no exterior ou até uma posição maior em caixa podem oferecer oportunidades interessantes.
O dinheiro está sempre concorrendo entre diferentes alternativas. O trabalho do investidor não é acertar todas as vezes, porque isso é impossível. O objetivo é entender onde estão as melhores relações entre risco e retorno e tentar colocar as probabilidades a seu favor.
Minha formação em Engenharia de Produção também teve bastante influência nessa maneira de olhar empresas. Quando você analisa uma companhia apenas pela planilha, enxerga números. Quando entende um pouco mais de operação, começa a perceber o que existe por trás deles. Uma empresa tem estoque, fornecedores, funcionários, logística, desperdício, gargalos, clientes, gestão e concorrência. Muitas vezes, aquilo que determina se uma empresa vai melhorar ou piorar está justamente nesses detalhes operacionais.
Por isso sempre gostei muito de análise fundamentalista. Para mim, investir em ações é também uma forma de empreender. Você consegue participar de grandes negócios sem precisar construí-los do zero. Mas, para fazer isso de maneira consciente, precisa entender onde está colocando o dinheiro e reconhecer os limites do próprio conhecimento.
Durante muitos anos, tudo isso era apenas uma parte da minha vida. Eu trabalhava no comércio com meu irmão e chegamos a ter oito lojas. Também investíamos em imóveis. Eu tinha minha retirada, meu pró-labore, e parte daquele dinheiro ia para os investimentos. Aos poucos, porém, comecei a perceber que aquele trabalho já não me desafiava da mesma maneira. O negócio funcionava, mas eu sentia que precisava experimentar algo diferente.
Foi nesse período que surgiu a mudança para Teresópolis. Eu reduzi meu ritmo de trabalho e comecei a produzir alguns vídeos sobre investimentos. No início, eu sequer aparecia. Eram vídeos simples, com captura de tela, apresentações e um áudio básico. Eu sempre fui bastante tímido e não imaginava que aquilo pudesse se transformar em alguma coisa maior.
Só que as pessoas começaram a assistir. Vieram os primeiros inscritos, os comentários e as perguntas.
Esse episódio foi importante porque mudou completamente o rumo daquilo que eu estava fazendo. Pouco tempo depois, o Dica de Hoje começou a ganhar forma de verdade.
Ele não nasceu com a ideia de se transformar em uma grande empresa. O objetivo inicial era muito mais simples: produzir o tipo de conteúdo que eu gostaria de consumir como investidor. Um conteúdo aprofundado, com análise, números e preocupação real em entender os negócios.
Essa continua sendo uma das bases do Dica de Hoje até hoje. Eu acredito que o conteúdo precisa vir antes do marketing. Marketing é importante para qualquer empresa, claro, mas eu quero que uma pessoa abra uma análise nossa e perceba que houve trabalho ali. Que alguém realmente estudou o balanço, entendeu o setor, analisou os riscos e questionou as premissas antes de chegar a uma conclusão.
Hoje temos uma equipe com vários analistas CNPI, diferentes estratégias, carteiras e produtos. Ainda assim, tento preservar a essência que existia no começo: profundidade, estudo e independência.
A independência, inclusive, é um ponto que considero fundamental. Quem analisa investimentos precisa ter liberdade para dizer que não gosta de um ativo, que considera um preço caro ou que prefere esperar. Quando existem interesses comerciais muito fortes por trás de uma análise, os conflitos nem sempre aparecem de maneira explícita. Muitas vezes a influência acontece até sem que a própria pessoa perceba.
Por isso, para mim, preservar a independência significa preservar a qualidade do trabalho e a confiança de quem acompanha o Dica de Hoje.
Ao longo desses anos também mudou muito a maneira como eu enxergo o papel do aporte. No início da construção de patrimônio, o aporte é fundamental. É o dinheiro do seu trabalho que alimenta a carteira. O investidor coloca R$ 500, R$ 1.000, R$ 2.000, e aquele valor tem um impacto enorme sobre o patrimônio.
Só que, depois de muitos anos, existe uma transformação. O próprio patrimônio começa a assumir uma parcela maior do trabalho. Os dividendos aumentam, os juros crescem e a valorização dos ativos passa a representar uma parte cada vez mais relevante da evolução da carteira.
Por isso eu costumo dizer que, depois de quinze ou vinte anos, o aporte pode deixar de ser o principal fator. Não porque ele deixou de ter valor, mas porque aquilo que foi construído começou a trabalhar por conta própria.
Só existe um elemento que não pode ser acelerado nesse processo: o tempo.
Construir leva tempo.
Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes que tento passar no Dica de Hoje. Não existe investimento mágico, ação milagrosa ou fórmula capaz de eliminar o risco e enriquecer alguém de maneira sustentável em poucos meses. Existe estudo, disciplina, adaptação, diversificação e tempo.
Eu comecei a investir em 1999 e, desde então, já vivi juros altíssimos, juros muito baixos, crises, períodos de euforia, impeachment, pandemia, guerras e diferentes ciclos de mercado. E, mesmo depois de tudo isso, continuo aprendendo.
Eu não quero pensar exatamente da mesma forma que pensava sete anos atrás. Muito menos da mesma forma que pensava vinte anos atrás. O mercado muda, as empresas mudam e nós também precisamos mudar. É preciso ter humildade para reconhecer erros, ajustar estratégias e continuar evoluindo.
No final, essa talvez seja a maior lição de todas: o investimento precisa servir à sua vida, e não o contrário.
Eu gosto de viajar, gosto de viver experiências e gosto de passar tempo com minha família. Hoje consigo olhar para muitas dessas coisas e perceber que elas também são resultado do patrimônio que fui construindo durante anos.
Existe uma diferença enorme entre simplesmente gastar dinheiro e conseguir viver experiências utilizando aquilo que o patrimônio gera. Para mim, esse é um dos significados mais importantes de liberdade financeira.
E é isso que eu espero que as pessoas encontrem quando chegam ao Dica de Hoje. Não apenas uma recomendação de ação ou uma análise de empresa, mas uma maneira mais consciente de enxergar o dinheiro e os investimentos.
Porque, no fim das contas, investir não deveria ser apenas sobre aumentar um número na tela. Deveria ser sobre construir patrimônio suficiente para ter mais opções, mais tranquilidade e mais liberdade para viver.
O Dica de Hoje começou quase por acaso, mas hoje eu sei muito bem por que continuo fazendo isso.
Porque conhecimento financeiro pode mudar a maneira como uma pessoa se relaciona com o dinheiro.
E porque, depois de mais de duas décadas de mercado, continuo acreditando na mesma ideia:
construir leva tempo — mas, quando você constrói direito, chega uma hora em que o tempo começa a trabalhar a seu favor.
Um abraço,
Daniel Nigri
Dica de Hoje