Esse texto não é sobre análise, números ou teses, mas sobre narrativas.
Poucos meses atrás, o Bradesco (BBDC4) era o patinho feio dos bancões. Um dinossauro financeiro, na visão de muitos, que ficou para trás na corrida da inovação, da rentabilidade e da eficiência. Enquanto isso, o Banco do Brasil (BBAS3) desfilava como a estatal que até quem odeia estatais comprava com gosto. A queridinha dos dividendos, a exceção à regra, a joia rara que batia concorrentes privados sem pedir desculpa.
Agora, inverta os papéis. BBAS3 virou o patinho feio. E BBDC4 voltou a ser chamado de “assimétrico”.
Essa inversão de humor não levou anos. Aconteceu em poucos meses.
Em 2025, BBAS3 vinha subindo quase 30% até a divulgação de um único resultado trimestral que não agradou e pronto. Bastou um período ruim do agronegócio e um reajuste no guidance para que os mesmos que antes exaltavam a gestão técnica e eficiente agora levantassem dúvidas.
Enquanto isso, o Bradesco, que era considerado uma causa perdida, com manchetes do tipo “mercado abandonou o banco”, “ficou preso no passado”, “não consegue competir”, começou a respirar melhor. Bastou um trimestre em que os números pararam de piorar para que, de repente, BBDC4 voltasse aos holofotes. Agora é “potencial de recuperação”, “turnaround”, “tese de assimetria”.



É como se o mercado tivesse um relacionamento emocional com os ativos. Quando o humor é bom, tudo vira qualidade. Quando é ruim, tudo vira defeito.
Durante boa parte de 2023 e início de 2025, o Banco do Brasil parecia ter quebrado uma maldição: era estatal, sim, mas entregava como banco privado. E não era só entrega de resultado. Era entrega de narrativa: dividendos altos, lucros crescentes, ROE de dois dígitos e uma gestão “técnica” elogiada até por quem sempre torceu o nariz para estatais.
Tanto que virou quase um contrassenso elegante: “eu não invisto em estatal, só no BB”. Era a exceção que confirmava a regra. Quem tinha BBAS3 na carteira se sentia até superior. Afinal, era um papel que combinava os dois mundos: o risco controlado do setor bancário e o bônus do desconto por ser estatal.
Mas como o mercado é impaciente, bastou um tropeço contábil, uma safra decepcionante e uma pausa no guidance para a história azedar. A confiança derreteu com a mesma velocidade com que havia sido construída. O amor virou indiferença. A admiração virou cautela.
BBAS3 ainda é a mesma empresa, mas o mercado já está torcendo o nariz. Como se o deslize recente fosse permanente.
Enquanto isso, o Bradesco, que em 2023 era considerado quase uma Cielo 2.0, atolado em problemas internos, defasado frente aos concorrentes e perdendo espaço nos holofotes, voltou ao radar.
Durante meses, parecia que ninguém queria nem tocar no ticker BBDC4. O banco foi chamado de lento, ultrapassado, incapaz de reagir às mudanças do setor. O mercado já tinha etiquetado: “empresa que não aprende”. E a ação virou aquela figurinha repetida que ninguém mais quer no álbum.
Mas o tempo, e alguns bons ajustes operacionais, começaram a reverter a narrativa. O banco estancou o sangramento, reestruturou suas áreas críticas e, principalmente, deixou de ser uma aposta de fé e passou a ser uma aposta de melhora real.
Nada mudou drasticamente. Mas quando o mercado quer contar uma nova história, qualquer bom parágrafo vira enredo.
A verdade é que empresas como Bradesco e Banco do Brasil não se tornam excelentes ou péssimas de um trimestre para o outro. O que muda, na maioria das vezes, é o humor coletivo, essa construção feita de manchetes, comentários, relatórios e expectativas que se retroalimentam.
Quando todo mundo falava bem de BBAS3, a ação já tinha subido 60%. Quando todo mundo falava mal de BBDC4, ela já tinha caído tudo que tinha que cair. O investidor que se guia por esse efeito manada entra atrasado e sai desesperado.
Esse caso escancara uma das maiores armadilhas da bolsa: a crença de que os fundamentos mudam no mesmo ritmo das manchetes. Não mudam. O que muda é a lupa que o mercado escolhe usar.
No trimestre em que todos amam o Banco do Brasil, só se enxerga eficiência, disciplina, dividendos. Quando a maré vira, tudo vira risco: estatal, agro, crédito. Com o Bradesco, o oposto: quando o mercado desprezava, qualquer dado era prova de fraqueza estrutural. Agora, cada melhora marginal é interpretada como sinal de virada.
Narrativas são ótimas para ganhar clique, curtida e compartilhamento. Mas pra investir de verdade, o que conta são os fundamentos de longo prazo, o preço que você paga e a sua capacidade de ignorar o barulho.
Amanhã o mercado pode voltar a amar BBAS3. Ou odiar BBDC4 de novo. Isso não significa que você precise seguir junto com a multidão. Afinal, ações são pedaços de empresas, não personagens de novela.
Grande abraço,
João Pedro Mello
Experimente o Renda Total 12 dias