Existe uma ilusão que acompanha investidores desde os primeiros dias do mercado financeiro: a ideia de que uma ação que caiu “ficou barata” e uma ação que subiu “ficou cara”.
Esse pensamento, repetido como mantra, é responsável por decisões ruins, compras precipitadas, vendas emocionadas e, principalmente, por ignorar aquilo que realmente determina o valor de uma empresa: o lucro que ela gera. Preço é apenas o reflexo atrasado desse lucro. Nada mais.
Em 2025, dois casos emblemáticos deixaram essa verdade impossível de ignorar: Banco do Brasil (BBAS3) e Bradesco (BBDC4). Dois gigantes do mesmo setor, operando sob o mesmo cenário macro, com a mesma regulação, a mesma moeda e a mesma base de clientes. E, ainda assim, foram precificados pelo mercado como se estivessem vivendo realidades completamente opostas às dos seus próprios resultados.
O Banco do Brasil é o exemplo perfeito do equívoco de olhar para o preço antes de olhar para lucro. Nos últimos doze meses, seu lucro despencou mais de 60%. Um tombo dessa magnitude não é ruído; é uma mudança estrutural. Bancos não sofrem quedas tão profundas quando tudo está funcionando bem. Queda de lucro significa aumento de provisões, compressão de margem, deterioração operacional ou algum risco sistêmico de difícil reversão.

Mesmo assim, enquanto o lucro derretia, o múltiplo do Banco do Brasil subia. Hoje, o BBAS3 negocia a 9,83 vezes lucro, acima da média dos bancões (8,73x) e muito acima da sua média histórica dos últimos dez anos (6,04x).

Isso significa que o mercado está assumindo, de maneira explícita, que o lucro vai se recuperar rapidamente. Não só recuperar: melhorar o suficiente para justificar um múltiplo mais alto que o normal, apesar de o banco ter entregue seu pior resultado entre os grandes. Em outras palavras, quem compra Banco do Brasil hoje não está comprando o que ele é; está comprando o que espera que ele volte a ser. E isso é sempre mais arriscado do que parece.
O investidor que olha apenas o preço vê uma ação que caiu e acredita estar barata. O investidor que olha o lucro percebe que, na verdade, a ação ficou mais cara, porque o lucro caiu muito mais do que o preço. Quando o denominador encolhe e o preço não acompanha, o múltiplo se expande. E quando o múltiplo se expande sem fundamento, ele se transforma numa armadilha. Recuperações bancárias levam de dois a três anos, mesmo quando são bem feitas. O preço do Banco do Brasil não está refletindo esse ciclo; está ignorando.

Do outro lado, temos o Bradesco, justamente o oposto. Enquanto o Banco do Brasil deteriorava, o Bradesco reconstruía. Depois de anos difíceis, ajustes profundos, reorganização interna e limpeza de balanço, o Bradesco voltou a entregar aquilo que sempre caracterizou seus melhores ciclos: eficiência crescente, inadimplência sob controle, provisões menores e margens mais saudáveis. O lucro do banco voltou ao patamar recorde de 2019, na prática, voltou ao seu auge operacional.

E o preço da ação não acompanhou. Não voltou ao topo. Não se aproximou dos níveis que o lucro atual justificaria. Ao contrário: ficou para trás. Enquanto o resultado do banco voltou ao melhor nível da história, o mercado continuou tratando o Bradesco como se estivesse estagnado, frágil ou atrasado. A desconexão entre preço e lucro aqui é tão grande quanto no caso do Banco do Brasil, só que invertida.
Se no BBAS3 o mercado paga caro por um lucro em queda, no Bradesco paga barato por um lucro em alta. É o cenário clássico em que o investidor que olha o gráfico não vê nada, mas o investidor que olha o lucro vê tudo. O gráfico mostra que o Bradesco “não anda”. O balanço mostra que ele voltou a ser uma máquina de gerar caixa. Em ciclos de queda de juros, bancos privados eficientes tendem a se beneficiar antes dos públicos, ainda mais quando já corrigiram seus maiores problemas operacionais. Se há uma assimetria clara no setor, ela está aqui.

E é justamente nesses contrastes que mora a lição mais importante: você não compra o preço, você compra o lucro. Preço é apenas um múltiplo aplicado ao lucro. Ele sobe quando o mercado acredita que o lucro vai crescer. Cai quando acredita que o lucro vai encolher. E distorce quando o mercado acredita em narrativas que os números ainda não confirmaram.
No Banco do Brasil, quem olha o preço acredita estar vendo uma oportunidade, quando, na verdade, está pagando por um futuro otimista que talvez nem aconteça. No Bradesco, quem olha o preço acredita estar vendo estagnação, quando, na verdade, está diante de uma empresa cujo lucro voltou ao topo e cujo valor ainda não foi reconhecido pelo mercado.
É aqui que separam-se os amadores dos profissionais. O investidor amador pergunta: “Quanto a ação caiu?” O investidor profissional pergunta: “Quanto lucro eu estou comprando por real investido?”
O primeiro reage ao preço. O segundo reage à capacidade da empresa de gerar resultado. E quando você muda esse eixo mental, muda tudo: muda sua forma de analisar ativos, muda sua forma de montar carteira e, principalmente, muda sua paciência com o tempo.
Obs: Todos os gráficos foram retirados do site www.investidor10.com.br
Grande abraço,
João Pedro Mello
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