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Tarifas derrubam a Bolsa? Os dados mostram que o maior impacto aparece com o tempo

Quando uma nova tarifa é anunciada, a reação imediata do mercado costuma dominar as manchetes. A Bolsa cai, o dólar oscila, analistas revisam projeções e, poucos dias depois, o assunto pode parecer encerrado. Mas um estudo recente sugere que olhar apenas para a reação inicial pode esconder justamente a parte mais importante do problema: o impacto das tarifas sobre as ações tende a crescer com o passar do tempo.

O artigo U.S. Tariffs and Stock Prices, de Hakan Yilmazkuday, analisou dados mensais dos Estados Unidos entre 2015 e 2024 para medir como choques nas tarifas americanas e na incerteza sobre a política comercial afetaram três dos principais índices do país: S&P 500, Nasdaq Composite e Dow Jones. Para tentar isolar esse efeito, o modelo também controla variáveis como preço do petróleo, atividade econômica, inflação, câmbio e juros.

Os resultados mostram uma diferença importante entre o curto e o longo prazo. Um choque de um desvio-padrão nas tarifas praticamente não provoca uma queda relevante no primeiro mês. No S&P 500, a resposta estimada é de apenas -0,12%. No Nasdaq, -0,12%. No Dow Jones, -0,19%. Apenas a queda do Dow aparece como estatisticamente significativa nesse primeiro momento.

Mas a história muda rapidamente.

Depois de três meses, o impacto acumulado estimado passa para -0,71% no S&P 500, -0,82% no Nasdaq e -0,98% no Dow Jones. Em seis meses, as perdas chegam a -2,06%, -2,65% e -2,62%, respectivamente. Após um ano, o efeito acumulado sobe para -5,01% no S&P 500, -6,98% no Nasdaq e -6,16% no Dow Jones.

E depois de dois anos os números ficam ainda mais expressivos: o mesmo choque tarifário está associado a uma queda acumulada de 7,33% no S&P 500, 10,13% no Nasdaq e 9,06% no Dow Jones. Ou seja, o resultado mais relevante do estudo não é que tarifas provoquem necessariamente um grande colapso imediato na Bolsa. É que seus efeitos vão se acumulando à medida que chegam às empresas, às margens e à economia.

Isso faz sentido quando pensamos no mecanismo econômico por trás de uma tarifa. Uma empresa que depende de componentes importados pode passar a pagar mais pelos seus insumos. Se não conseguir repassar integralmente esse aumento ao consumidor, sua margem de lucro diminui. Se repassar, preços maiores podem reduzir a demanda. Além disso, tarifas podem provocar retaliações comerciais, prejudicando empresas exportadoras, e obrigar companhias a reorganizarem cadeias de suprimentos, muitas vezes a um custo elevado.

Em outras palavras, o verdadeiro impacto não precisa aparecer no dia do anúncio. Ele pode surgir progressivamente nos balanços.

Um dos resultados mais interessantes aparece no Nasdaq. Depois de apenas um mês, o impacto tarifário estimado é praticamente irrelevante, de -0,12%. Depois de um ano, chega a -6,98%. Em dois anos, -10,13%. O estudo, portanto, sugere que um investidor concentrado apenas na reação inicial do mercado poderia subestimar significativamente o efeito econômico de uma mudança persistente na política comercial.

Mas o artigo analisa um segundo problema: não é necessário que uma tarifa seja efetivamente implementada para que a política comercial prejudique o mercado.

A simples incerteza sobre o que acontecerá no futuro também possui consequências.

Para medir isso, o estudo utiliza um índice de incerteza de política comercial construído a partir da frequência de notícias que combinam termos relacionados a comércio, como tarifas, importações e barreiras comerciais, com expressões ligadas a risco e incerteza. O indicador é baseado em sete grandes jornais americanos e tenta capturar justamente os momentos em que empresas e investidores passam a ter menor previsibilidade sobre as regras do comércio.

Nesse caso, o efeito é ainda mais lento.

Após um mês, um choque de incerteza comercial está associado a uma variação de apenas -0,06% no S&P 500, -0,08% no Nasdaq e -0,10% no Dow Jones. Depois de três meses, as quedas estimadas continuam relativamente pequenas: -0,28%, -0,47% e -0,43%. Em seis meses, chegam a -1,44%, -2,21% e -1,40%, mas ainda sem significância estatística.

É depois de aproximadamente um ano que o impacto se torna relevante. Nesse horizonte, a queda acumulada estimada é de 5,23% no S&P 500, 7,69% no Nasdaq e 4,50% no Dow Jones. Depois de 18 meses, alcança 7,61%, 10,92% e 6,48%. E ao final de dois anos, permanece em -7,67% no S&P 500, -10,05% no Nasdaq e -6,57% no Dow Jones.

Isso ajuda a entender por que incerteza econômica pode ser tão prejudicial mesmo quando nenhuma medida extrema é imediatamente tomada. Uma empresa diante de regras imprevisíveis pode adiar uma fábrica, suspender uma contratação ou reduzir um investimento porque não consegue estimar com segurança quanto seus insumos custarão, onde poderá vender seus produtos ou quais tarifas estarão vigentes dali a alguns meses. Menos investimento hoje pode significar menor crescimento e menores lucros amanhã. Ao mesmo tempo, investidores podem exigir retornos maiores para aceitar esse risco, pressionando as avaliações das empresas para baixo.

O estudo também mostra que tarifas e incerteza comercial não são fatores pequenos dentro das oscilações da Bolsa.

Depois de dois anos, os choques tarifários explicam aproximadamente 3,3% da volatilidade do S&P 500, 3,3% da volatilidade do Nasdaq e 5,8% da volatilidade do Dow Jones. Já a incerteza comercial responde por outros 4,6%, 4,9% e 4,1%, respectivamente.

Considerados conjuntamente, esses dois fatores chegam a explicar 7,9% da variância do S&P 500, 8,2% da do Nasdaq e 9,9% da do Dow Jones. Em outras palavras, quase 10% da variabilidade projetada do Dow Jones no horizonte analisado pelo modelo pode estar associada apenas a tarifas e incerteza sobre política comercial.

O Dow Jones também apresenta uma característica particular. O impacto das tarifas sobre sua volatilidade é maior do que nos outros dois índices: 5,8% contra 3,3% no S&P 500 e no Nasdaq após dois anos. A explicação sugerida pelo autor está na própria composição do índice. O Dow possui maior presença de empresas industriais e manufatureiras, justamente as companhias que tendem a estar mais expostas a cadeias internacionais de produção, insumos importados e possíveis tarifas retaliatórias sobre exportações.

Há ainda um ponto importante sobre a robustez dos resultados. Quando o autor modifica a ordem das variáveis utilizada no modelo, os números continuam bastante próximos. Em uma das especificações alternativas, por exemplo, um choque tarifário resulta, depois de dois anos, em quedas estimadas de 7,51% no S&P 500, 10,29% no Nasdaq e 9,57% no Dow Jones, contra 7,33%, 10,13% e 9,06% no modelo principal.

No fim, talvez a principal conclusão para o investidor seja simples: o mercado financeiro pode reagir rapidamente às notícias, mas a economia real não funciona na mesma velocidade.

No primeiro mês após um choque tarifário, o impacto estimado sobre os grandes índices americanos ficou próximo de zero. Um ano depois, as perdas já estavam entre aproximadamente 5% e 7%. Em dois anos, chegaram a 10% no Nasdaq.

A ameaça de tarifas apresenta dinâmica semelhante. Quase nenhum efeito estatisticamente relevante aparece nos primeiros meses, mas depois de dois anos o impacto estimado alcança -7,67% no S&P 500 e -10,05% no Nasdaq.

Por isso, quando uma guerra comercial começa, talvez o maior erro seja olhar apenas para o que a Bolsa fez naquele dia. O preço de uma tarifa pode aparecer na tela imediatamente, mas o custo econômico dela pode levar anos para chegar completamente às ações.

Referência: YILMAZKUDAY, Hakan. U.S. Tariffs and Stock Prices. Florida International University, 28 maio 2025.

Grande abraço,

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