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Crédito consignado com garantia do FGTS: um jogo perigoso com o dinheiro do trabalhador

Hoje quero conversar com vocês sobre um tema que me incomodou profundamente nos últimos dias: a nova modalidade de empréstimo consignado com garantia do FGTS para trabalhadores CLT.

E já deixo claro desde o início: essa novidade merece atenção e muito cuidado. Pode até parecer uma oportunidade à primeira vista, mas na prática, coloca o trabalhador em uma posição vulnerável, justamente por envolver o uso de um recurso que deveria funcionar como rede de proteção — o FGTS — em troca de um crédito com taxas ainda elevadas. É mais um exemplo de como a falta de informação financeira pode levar a decisões que comprometem a segurança futura.

Mas, antes de entrar nos riscos reais dessa proposta, quero compartilhar com vocês um momento da minha própria jornada.

Meu primeiro contato com o crédito consignado foi ainda no início da carreira, meados dos anos 2006 , 2007, quando entrei no antigo Unibanco. Na época, usei o consignado de forma estratégica para alavancar meus investimentos: a taxa de juros do empréstimo era menor que o retorno dos investimentos disponíveis. Então eu tomava o crédito e aplicava, sempre com muito cálculo e consciência. Foi assim que dei meus primeiros passos como investidora. Um cenário que fazia sentido — e que exigia preparo.

Um pouco da história: o que é o crédito consignado?

O crédito consignado surgiu com foco em servidores públicos lá nos anos 1950, mas foi regulamentado em 2003 (Lei 10.820) para aposentados, pensionistas e trabalhadores da iniciativa privada. Segundo o estudo de Adriano Tôrres Figueiredo* e José Natanael Fontenele de Carvalho* (2020), entre 2004 e 2011, as operações de consignado cresceram quase 957% — puxadas pelo setor público, com mais de 85% dos contratos.

O motivo era claro: as taxas eram mais baixas do que outras linhas de crédito. Em 2004, por exemplo, o consignado tinha taxa média de 39,2% ao ano, enquanto o crédito pessoal batia os 77,3% ao ano (Fonte: Banco Central do Brasil, via Informe Econômico/UFPI). Ainda era caro, mas a diferença era brutal.

Essa modalidade sempre teve seu papel e pode ser uma alternativa válida, desde que usada com responsabilidade. Ela foi — e ainda é — uma opção para quem precisa substituir uma dívida mais cara por outra com juros mais baixos, especialmente em momentos emergenciais. Para aposentados, servidores e trabalhadores com renda mais estável, o consignado pode trazer algum alívio financeiro quando bem planejado.

E o FGTS, afinal, pra que serve?

O FGTS foi criado para proteger o trabalhador em momentos de vulnerabilidade — como demissão sem justa causa, doenças graves ou na compra da casa própria. Mesmo com uma rentabilidade baixa, ele ainda representa a única reserva financeira de muitos brasileiros.

O problema é que esse dinheiro não pode ser acessado livremente pelo trabalhador. Ele só pode ser usado em situações específicas, como nas janelas do saque-aniversário. Agora, com essa nova modalidade, ele não pode ser sacado, porém,  pode ser dado como garantia para o banco.

Agora pense comigo: faz sentido isso? Eu não posso acessar livremente o meu FGTS quando mais preciso — mas posso usar esse mesmo dinheiro como garantia de um empréstimo que vai me cobrar juros.

 

Ou seja, para ter acesso ao meu próprio recurso, sou incentivado a pagar por isso. A lógica está completamente invertida: o trabalhador não pode decidir o que fazer com o que é seu, mas o sistema financeiro pode.

Onde está o problema real?

De acordo com reportagem do Valor Investe (março/2025), essa nova linha de crédito já movimentou R$ 1,3 bilhão nos primeiros dias. Do outro lado da mesa, quem se beneficia dessa equação são os bancos. Com o FGTS como garantia, o risco de inadimplência é extremamente baixo — o que, em teoria, justificaria juros menores. Mas na prática, o retorno para as instituições financeiras continua alto, enquanto o trabalhador assume a maior parte do ônus. A CNN Brasil também destacou a fala do economista Marcelo d’Agosto, que resumiu bem a armadilha:

“Se você perde o emprego, o banco vai direto no seu FGTS e na multa rescisória para quitar o empréstimo. Ou seja, o trabalhador pode sair da empresa e ainda assim ficar sem nenhum recurso.”

Ou seja: no momento em que a pessoa mais precisa de apoio, ela corre o risco de ficar totalmente desamparada.

A quem isso realmente interessa?

Essa é a pergunta mais importante. Porque não é o trabalhador que sai ganhando — ele entrega sua única reserva de emergência e ainda paga caro por isso. Do outro lado da mesa, quem se beneficia dessa equação é o sistema financeiro. E aqui vale uma ressalva importante: sou defensora de que empresas, inclusive bancos (muito dos quais sou investidora) sejam bem remuneradas pelos serviços que oferecem. Vivemos em uma economia de mercado, e o lucro é legítimo. O problema é quando esse lucro ultrapassa o limite do razoável e passa a se sustentar sobre a vulnerabilidade de quem tem menos informação ou acesso.

No caso do consignado com garantia do FGTS, o risco para o banco é mínimo — afinal, ele tem uma garantia sólida — mas as taxas praticadas seguem elevadas. Resultado? Quem paga a conta é o trabalhador, e o sistema continua lucrando com soluções que, muitas vezes, só aprofundam o problema que se propõem a resolver.

É mais um exemplo de como a ausência de educação financeira transforma o que deveria ser proteção em risco.

Educação financeira: o caminho para sair do ciclo

Se esse texto fizer com que uma ou duas famílias pensem duas vezes antes de contratar esse tipo de crédito, já valeu a pena. Porque é isso que me move: levar consciência para as decisões que moldam o futuro financeiro das pessoas.

Antes de tomar qualquer crédito — ainda mais quando envolve o seu FGTS — faça essas perguntas:

  • Eu realmente preciso disso?
  • Estou trocando uma dívida cara por uma mais barata ou só estou adiando o problema?
  • Tenho alternativas mais seguras?
  • E, principalmente: vale a pena abrir mão da minha segurança futura por uma necessidade do presente?

Até a próxima, com mais reflexões sobre dinheiro, escolhas e liberdade.

*Segue link do artigo mencionado no texto: https://periodicos.ufpi.br/index.php/ie/article/view/1904

Julia Bastos Chagas Priante – @julia.priante

Engenheira de Alimentos pela Universidade Federal de Viçosa, atua no mercado financeiro desde 2006. Com ampla experiência como Officer no Itaú Unibanco/Itaú BBA nos segmentos de Empresas, Nicho Imobiliário e Multinacionais. É Especialista em Investimentos (CEA) e Pós-graduada em Planejamento Financeiro. Auxilia famílias a alcançarem seus sonhos por meio de um planejamento financeiro estruturado e personalizado.

 

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