Fim do Mundo: Ainda não foi dessa vez.

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O fim do mundo já foi anunciado algumas vezes. O último grande anúncio foi o de 2012, devido ao fim do calendário Maia, mas aqui estamos, ou seja, não acabou. O astrofísico Sebastian Von Hoerner usou parâmetros diversos em relação à atividade humana, isso em 1975, e com base nos cálculos o fim do mundo iria ocorrer entre 2020 e 2050, principalmente pela escassez de alimento em determinadas áreas e o aumento expressivo da população.

Mas calma, os cálculos foram refeitos e a nova estimativa é de que o fim ocorra entre 2300 e 2400, ou seja, também não será dessa vez.

Porém, existe a possibilidade de que a Terra colida com um asteroide – temos o famoso Apophis, descoberto em 2004, com 325 metros de diâmetro e que vai se aproximar da terra em 2029 a uma distância “pequena”, e embora o risco exista, astrofísicos afirmam que nos próximos 100 anos a chance de uma colisão ocorrer é de uma em nove milhões, ou seja, novamente nada de pânico.

E no meio dessa jornada, eis que surge a pandemia, que muda a forma de consumo, que escancara as fraquezas da maioria dos sistemas de saúde do mundo, que transforma as mídias em mensageiros do apocalipse, onde governos tentam estratégias em meio às incertezas e cercados pelos interesses diversos, os quais como estado precisa atender, orientar e auxiliar.

Ainda assim, o mundo não vai acabar. Ele não estava e continua não estando preparado para uma pandemia, mas não vai acabar.

Infelizmente, pessoas perdem suas vidas (o que é muito triste quando observamos as milhares de mortes), outras perdem o emprego, empresas fecham, falências entram em cena, novas modalidades de comercialização são utilizadas, pessoas se adaptam a novas rotinas de lazer, trabalho, atendimento de saúde, etc. E mesmo com tudo o que ocorreu existem pessoas que acreditam que tudo volta ao normal assim que a loja da esquina abre a porta para o cliente entrar. Sinto informar, mas não é bem assim que funciona.

A retomada ocorre por etapas. Algumas cadeias ainda apresentarão gargalos, outras empresas mais preparadas, com omnichannel funcionando de forma eficiente, poderão reduzir impactos; fábricas com demandas em setores distintos e de maior consumo terão seus turnos normalizados, mas independente de qual empresa estamos falando, o que define o resultado é o consumo do cliente final, e as possibilidades de mudanças na exigência dessas demandas são grandes.

Porém, assim como toda mudança, ela não acontece da mesma maneira para todos os negócios/setores. Alguns estão mais abertos e aptos a modificar a estrutura de atendimento, de relacionamento com os demais setores da cadeia; outros não possuem essas prerrogativas, além do que muitas gestões de negócio não concordariam com novos modelos, afinal, nem todas as empresas são de tecnologia, serviço – nem todas são Google.

Contextualizando: ROMI ainda vai precisar de operadores no chão de fábrica, uma clínica de serviços de saúde – Fleury – pode aumentar atendimento on-line.

Ou então poderíamos citar a cada vez mais importante e infelizmente negligenciada por muitos: responsabilidade ambiental e social – exemplos simples, como programas de redução de custos com energia elétrica, água e gerenciamento de resíduos gerados nos processos produtivos, buscando utilização de insumos de forma eficiente e menos agressiva ao meio ambiente.

Eu acredito em mudanças, sempre uso a frase: negócios são dinâmicos, e eu já vi grandes mudanças no mundo corporativo e no consumo ao longo dos meus 25 anos de estrada, mas elas não ocorrem do dia para a noite e principalmente elas não acontecem sem investimentos, ou seja, recursos, e esses estão escassos no momento. Então, os projetos, a partir de agora, serão baseados em modelos de consumo visando mudanças mais aceleradas, seja pelo susto ou seja pela oportunidade. Aquela velha máxima: tem quem chore na chuva e quem venda guarda-chuva.

Contextualizando: grandes indústrias que formam grandes cadeias de fornecimento possuem setores de inovação e tecnologia, e estes recebem parte da receita do negócio, e eles estão em constante movimento de adaptação às mudanças no consumo. Porém, essas mudanças de matriz não ocorrem do dia para a noite, como o mercado tem o hábito de precificar; otimismo excessivo no curto prazo e negativismo no longo prazo, com a famosa máxima: mas sempre foi assim, duvido que mude.

Veja o exemplo da LEVE. Ela trabalha com autopeças, fabricação e comercialização de componentes de motores à combustão interna e filtros automotivos, tanto nos segmentos OEM quanto aftermarket, nos mercados interno e externo, comercializa itens avulsos, sistemas completos, integrados e customizados, mas ela oferece também uma estrutura completa de pesquisa e desenvolvimento de motores e  componentes, seja através de soluções integradas com o desenvolvimento de projetos, programas de simulação completa de motores, simulações de componentes específicos, e também através de conhecimento e análise dos sistemas, e aqui entra a tão falada indústria 4.0, a possibilidade de que o cliente antecipe as falhas potenciais e ainda conte com sugestões de solução, ou seja, evolução da forma de produção e consciência da importância da experiência na aquisição do produto.

E a WEGE, usando apenas um exemplo: a solução de geração de energia a partir de gaseificação do lixo, com usinas dimensionadas para módulos de 2,5 MW ou 5MW, o que seria indicado para cidades pequenas e médias e, com isso, reduziria os aterros sanitários. E no que isso impacta?

Em muitas coisas que afetam o desenvolvimento urbano, a saúde pública, e com mudanças em relação à destinação de resíduos e consumo consciente. Poderíamos citar como isso afeta empresas de celulose, por exemplo. Se você acredita na redução do uso de plásticos e na utilização de materiais e insumos renováveis, celulose versus resinas fósseis, então seu pensamento é parecido com a base da estratégia das empresas que trabalham com esse produto. Isso significa que todo o resto desaparece amanhã? Não.

Para fins de informação, a meta da Suzano é de que os produtos de celulose substituam 10 milhões de toneladas de plásticos e derivados de petróleo até 2030.

Poderíamos usar também um exemplo de bullwhip (efeito chicote) em algumas empresas, o princípio da aceleração das cadeias mesmo com demanda normalmente regular, ou seja, ocorre uma variação grande dos pedidos, o que afeta desde quem fornece matéria-prima, embalagem, até o transporte (veja o caso dos fretes nos portos em abril, explicamos isso nos materiais da área de membros). Resumindo: quando a provisão de demanda não é ajustada com a realidade, ou quando existe um aumento (como ocorreu com álcool gel e papel higiênico no início da pandemia), ocorrem quebras na cadeia.

Isso significa dizer que em alguns pontos da cadeia pode existir falta de matéria-prima, insumos e na outra ponta sobras de estoque, e isso causa o que nas empresas?

  • Provisões são difíceis de estimar, pois os dados são comprometidos e com isso o planejamento de produção fica deficitário;
  • O custo de armazenagem em alguns casos pode aumentar bastante, inclusive de movimentação devido à realocação de materiais;
  • Capacidade ociosa tende a aumentar, e com ela o custo, que afeta a margem;
  • Em casos de falta de ajustes e necessidade de utilizar mais a capacidade, não existindo planejamento, a tendência é a empresa produzir mais, mas ser menos eficiente, como por exemplo, na distribuição (Todos têm pressa e a empresa não tem planejamento = mais custos);
  • Além das já conhecidas, pelo menos para quem é da área, compras em excesso (abastecimento de MP/insumos), imaginando que o consumo de papel higiênico (exemplo) de fato permaneceria assim por um tempo muito maior, alguns chamam isso de jogos de escassez (vimos isso durante a pandemia).

E qual a relação de tudo isso com o seu investimento?

Análise do negócio qualitativa, entender a geração de valor, acompanhar para estar ciente dos riscos, porém não torná-lo maior ou menor do que é, mas gerenciar conforme os eventos ocorrerem, no tempo em que eles acontecerem, afinal, estamos falando de cadeias integradas, de demandas globalizadas, de maior acesso à informação e infinitas possibilidades de escolha na maior parte dos consumos.

Então, se puder e quiser, estude mais o negócio antes de investir seu dinheiro nele com base em suposições, em possíveis turnarounds, ou porque já caiu tanto (cotação) que do chão não passa, então só pode melhorar (sabemos que isso não é verdade, afinal, em alguns negócios tem o poço, o fundo do poço e um alçapão para um buraco sem fundo). Conheça antes de confiar seu dinheiro, não pague mais do que é possível o negócio retornar com a estrutura e os investimentos que possui, afinal, negócios não são cartolas de mágicos com coelhos e moedas que aparecem e desaparecem, são processos gerenciados por pessoas e consumidos por clientes, e nesse sistema não tem mágica que faça o lucro aparecer, apenas informações certas, capital adequado e expertise de gestão, além, obviamente, de mercado consumidor.

E sobre acreditar em tudo que ouve e lê, vale para qualquer assunto. Porém, quando se trata de dinheiro, é preciso cuidado redobrado, afinal, no início do mês ninguém ajuda você a pagar suas contas.

Controle a única coisa que você pode: a sua reação diante da circunstância.

A pandemia vai passar, mas lições ficarão sobre ela, tanto em nível de consumo por parte do cliente final quanto nas estratégias e planos dos negócios, importância de planejamentos, investimentos mais estratégicos e direcionados, aproveitamento maior dos recursos e maior preocupação com as demandas que estão por vir.

Nada permanece exatamente igual após eventos tão traumáticos como esse. No curto prazo é mais difícil de enxergar, mas veremos ao longo dos anos os reflexos do que estamos vivendo hoje, pessoal e profissionalmente.

“Alguns usam a estatística como os bêbados usam postes: mais para apoio do que para iluminação.”

Andrew Lang

OBS.: nenhum dos ativos citados no texto é recomendação de compra ou de venda.

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