A estatística é a ferramenta que permite extrair dos dados a informação necessária para que possamos trabalhar com o mínimo de risco possível. Na administração, a análise estatística funciona como uma importante ferramenta para se diagnosticar problemas de gerenciamento em diferentes setores de uma empresa e para propor políticas de investimento, mas só a palavra “Estatística” já provoca reações de temor em muitas pessoas, e isso cria barreiras que dificultaram a aplicação correta nos ambientes de negócio.

Mas afinal de contas, estatística pra quê?

Porque os processos precisam ser medidos e projeções precisam ser feitas, e se a empresa não possui uma bola de cristal, vai precisar usar outros métodos. E a estatística oferece um conjunto de técnicas e métodos de pesquisa que, entre outras utilizações, envolve o planejamento do experimento a ser realizado, a coleta qualificada dos dados, a inferência, o processamento, a análise e a disseminação das informações. Na gestão de negócios, consiste na análise da informação disponível, sujeita a um determinado grau de incerteza para obtenção de resultados relevantes.

Um dos maiores problemas citados pelo mercado é encontrar profissionais capazes de tomar decisões no tempo certo e com resultados positivos, mas para que isso ocorra é preciso que o processo (na maioria das vezes) utilize métodos estatísticos que permitam o planejamento e a análise eficiente de dados. Somente assim a posterior tomada de decisão tem de fato possibilidades de sucesso, ou seja, análise de dados que forneçam suporte para a decisão.

Quer um exemplo para facilitar?

CEP, mas não o da tua rua. Estamos falando do Controle Estatístico de Processos, que é a técnica estatística aplicada à produção que possibilita redução sistemática da variabilidade nas características da qualidade de interesse, ou seja, amplia a melhoria da qualidade, produtividade, confiabilidade e do custo da produção em questão.

Ou seja, estamos falando de variação e dados. Na prática, é a medição que usamos para monitorar a produção, os controles dos processos, as análises. Isso inclui garantia de qualidade dos produtos, os níveis de qualidade nos processos de fabricação, padrões de metrologia/especificações do produto, e tudo isso influencia o custo, através de redução de desperdício, tempo/taxa de erros, defeitos e falhas que provocam a devolução e as perdas e assim por diante.

Obviamente que os métodos estatísticos se aplicam a praticamente todas as áreas do conhecimento, como por exemplo: no mercado financeiro são utilizados para prever taxas de juros e preços de diferentes bens, usados para traçar estratégias de investimentos monitorando risco/retorno, as variáveis de maior impacto, no varejo para previsão de demandas, ajuste de estoques.

E para os que pensam que estatística é coisa “nova no pedaço”, lá pelos anos 1900 o entendimento do pensamento estatístico começou a influenciar o desenvolvimento do pensamento moderno, mas a aplicação do pensamento estatístico na compreensão das variações nos processos industriais veio no século XX, graças a W. A. Shewhart. Ele foi um dos primeiros a usar as teorias de probabilidade e estatística nos processos industriais. Em 1950, a estatística já era utilizada como uma ferramenta útil no desempenho dos processos. Aí já estamos falando de W. E. Deming.

Então, calma, antes de criticar uma empresa de serviços ou varejo que está investindo mais em análise, tecnologia, inovação, informação. Aliás, para contextualizar, SNEE (1990, p.118) define pensamento estatístico em ambientes empresariais da seguinte maneira:

“… processo de raciocínio que reconhece que variação está em tudo ao nosso redor e presente em tudo que fazemos, que todo trabalho é uma série de processos interligados; e que identificar, caracterizar, quantificar, controlar e reduzir variação fornece oportunidades de melhoria”.

Lembre-se que os processos nas empresas são ligados, que variação existe em qualquer processo e que essa variação implica em aumento ou redução, e que ambos influenciam os negócios. A questão é que alguns positivamente, outros negativamente.

A lógica aqui está em entender essas variações para controlar, ou aumentar o controle.

Vale lembrar também que existe a estatística descritiva e indutiva/inferencial, sendo que a primeira descreve os dados. Aqui o foco é sintetizar uma série de valores de mesma natureza, assim teremos condições de analisar a variação dos valores. Exemplos para contextualizar: tabelas, gráficos e também as medidas descritivas. E a segunda é fundamentada na teoria das probabilidades, fazendo, então, a análise dos dados e, obviamente, a sua interpretação.

“Na verdade, o entendimento da abrangência do pensamento estatístico em níveis gerencial e estratégico dá maior impacto e racionalidade às ações do que propriamente o uso dos métodos estatísticos” (HARE et al., 1995).

Então, tudo são flores?

Não, obviamente.

Começando pelo fato de que estamos falando de métodos e eles são meios para promover a melhoria organizacional, mas é crucial a definição de quem define e executa, ou seja, os que gerenciam os processos definir quais os melhores meios e onde será aplicada a abordagem estatística.

E não apenas isso. Lembre-se que estamos falando de negócios compostos por pessoas, então falhas na implementação da estratégia existem. Não adianta tapar o sol com a peneira, não existe perfeição em negócios. E isso pode ocorrer por inúmeros motivos, seja por falta de compreensão, falta de alinhamento, sistema de informação, que não estão alinhados com a necessidade, sem falar nas já conhecidas medidas de desempenho pouco abrangentes (quem trabalha com indicadores vai me entender), e a mais clássica de todas: a resistência à mudança de cultura, o famoso “sempre foi assim”, “isso não vai dar em nada”, “complicar pra quê”, etc.

Escrevi tudo isso para chegar nesse ponto:

Imaginem uma empresa sem visão de processo. Os profissionais têm dificuldade de identificar o problema real, e se não existe identificação da causa verdadeira, não existe solução. Logo, o gerenciamento se torna ineficaz e, como consequência, a melhoria é lenta ou inexistente, e sem entender a variabilidade, será difícil separar as causas verdadeiras e as que não têm influência no processo, dificultando assim o entendimento do todo, impossibilitando a redução de perdas.

Sem medição não há observação, não há como avaliar o desempenho dos processos em relação às exigências dos clientes; não se percebe onde estão os pontos fortes ou fracos (oportunidades e ameaças), não há como coletar dados e, sem dados, todos acreditam saber o que está ocorrendo, mas não existem registros. Se não há análise, a melhoria não acontece, e sem os métodos estatísticos não há evidências registradas, somente impressões, onde os resultados são pouco consistentes e a argumentação gerencial e operacional é fraca, ou seja, vai dar problema.

Lembra da teoria de Schrödinger?

Um gato (escolhido propositalmente para atrair a empatia das pessoas, afinal, a maioria das pessoas gosta de gatos, ou pelo menos não os odeia) está trancado em uma câmara de aço/caixa e, com ele, há um frasco de veneno e uma pequena quantidade de substância radioativa (longe do gato) – essa substância era em pequena quantidade, então, a probabilidade, ao fim de uma hora, é que o veneno pode ou não ser aberto. Caso o átomo radioativo decaísse, um martelinho quebraria o veneno e bye bye gato (ou seja, a probabilidade estaria vinculada diretamente ao átomo cair ou não). Depois de uma hora, ao abrir a caixa, o gato poderia estar vivo ou morto. Enquanto a caixa estiver fechada, existe uma sobreposição de estados: vivo e morto ao mesmo tempo; mas, ao abrir a caixa, o resultado será um só, independentemente da vontade do gato.

Nos negócios, temos muitas caixas, muitos gatos e muitas substâncias nas caixas, muitas incertezas; testamos hipóteses, assim como os físicos testam seus princípios; nós analisamos projeções de resultados, buscamos padrões do passado para entender o que pode acontecer no futuro. E isso definitivamente não é uma questão de “eu acho”, “vamos na sorte”, “pega na mão de Deus e vai”, mas de métodos, de análise, e a estatística ajuda e muito no processo.

Então fique de olho nas estratégias da gestão, em como ela usa tudo o que tem a seu dispor para ser mais eficiente. Questione o RI, use o bom senso para avaliar os resultados, mas também a calculadora, e lembre-se que a estatística pode ser usada para impressionar. Então, busque informações que sustentem o que está sendo divulgado.

Encerro hoje com duas ótimas frases:

“O maior inimigo de um especulador é o tédio”. Jesse Livermore

“Nunca tive dinheiro para poder ter tédio à vontade”. Fernando Pessoa

Patricia Rossari

Meu nome é Patrícia Rossari, tenho 39 anos. Sou especialista em Gestão de Negócios MBA, pós graduada em Logística, vinte anos de experiência como analista e auditora.