Julho chegou ao fim, e como gosto de fazer todos os meses, paro para refletir sobre os aprendizados que tive com os atendimentos. Este mês, conversei com perfis bem diferentes de clientes — alguns avançando no plano de investimentos, outros revisitando suas metas para o segundo semestre. Mas foi um caso específico que me tocou profundamente.
Uma cliente chegou até mim com uma frase que ficou ecoando na minha cabeça:
“Eu achei que daria conta sozinha. Achei que investir em ajuda era me endividar ainda mais.”
Essa fala me fez pensar em quantas pessoas estão exatamente nesse lugar: tentando se equilibrar sozinhas numa corda bamba financeira, com medo de parecerem frágeis, com vergonha da situação e, principalmente, acreditando que pedir ajuda é um gasto — quando, na verdade, pode ser o início da virada.
O perfil de quem está endividado
Existe um estigma enorme em torno da dívida. A sociedade tende a olhar com julgamento, como se endividar fosse sempre fruto de descontrole ou irresponsabilidade. Mas a realidade é muito mais complexa. Muitas famílias estão endividadas por questões estruturais, emergências médicas, perda de renda, falta de educação financeira na base — e, sim, também por hábitos de consumo que foram se acumulando ao longo do tempo.
Essas pessoas não precisam de julgamento. Precisam de acolhimento, escuta e direcionamento.
Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mais de 78% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho de 2024, o maior índice desde o início da série histórica. Dentre essas famílias, um número crescente vive a angústia de não conseguir sair do cheque especial, usar o cartão de crédito para pagar o próprio cartão, ou ainda recorrer a empréstimos informais com juros abusivos.
E sabe o que tudo isso gera? Estresse, ansiedade, conflitos familiares e até depressão.
As finanças impactam diretamente a saúde física e mental. Não é só sobre dinheiro. É sobre qualidade de vida.
A importância do fluxo de caixa
Voltando à história da cliente, a primeira coisa que fizemos foi entender para onde o dinheiro estava indo. O diagnóstico financeiro, por mais simples que pareça, é transformador. A partir do momento em que colocamos todas as receitas e despesas no papel, conseguimos visualizar as causas do desequilíbrio.
Em seguida, construímos um fluxo de caixa projetado para os próximos meses. Isso trouxe clareza e permitiu tomar decisões com base em dados reais — não no medo, nem no achismo.
Foi aí que identificamos alternativas concretas para reorganizar o fluxo de caixa e dar o primeiro passo para o equilíbrio. Em alguns casos, um empréstimo pessoal com juros mais baixos pode ser, sim, uma solução positiva, especialmente quando comparado ao custo altíssimo do cheque especial — que pode ultrapassar 13% ao mês, segundo dados do Banco Central.
Mas essa não é a única saída. Para outros clientes, vender um bem — como um carro, uma moto ou um imóvel que já não faz mais sentido — pode ser o movimento necessário para retomar o controle. Cada decisão deve ser avaliada com base na realidade daquela família, sem fórmulas prontas ou julgamentos.
Já vi casos em que o financiamento de um veículo consumia mais de 50% da renda mensal do cliente. Nessas situações, manter esse custo se torna inviável e, muitas vezes, representa um ciclo de desequilíbrio permanente. A decisão de abrir mão de algo agora pode ser o que permitirá reconstruir a estabilidade no futuro.
O mais importante é entender que não existe solução mágica, mas sim estratégia, clareza e coragem para fazer escolhas conscientes.
Respeitar as decisões — mesmo quando o caminho é mais lento
Nem todos os atendimentos caminham da mesma forma. Já atendi famílias que, mesmo diante dos números, optaram por não fazer mudanças mais drásticas no padrão de vida. Preferiram ajustar o fluxo de caixa aos poucos, reduzir gastos com mais parcimônia e manter alguns hábitos de consumo que ainda traziam conforto emocional.
E tudo bem. O planejamento financeiro não é uma receita única. Cada família tem seu tempo, suas prioridades e seu processo de adaptação.
Meu papel, como planejadora financeira, é oferecer caminhos, mostrar consequências e apoiar o processo de tomada de decisão com empatia e respeito. Às vezes, o cliente precisa ouvir verdades difíceis, mas também precisa saber que não está sozinho. Que existe saída. Que é possível, sim, sair do vermelho — e voltar a sonhar.
Se você está lendo esse texto e sente que sua vida financeira está fora de controle, meu convite é: não espere a situação ficar insustentável. Pedir ajuda pode parecer caro, mas ignorar o problema pode custar muito mais.
Até a próxima!
Julia Bastos Chagas Priante – @julia.priante
Engenheira de Alimentos pela Universidade Federal de Viçosa, atua no mercado financeiro desde 2006. Com ampla experiência como Officer no Itaú Unibanco/Itaú BBA nos segmentos de Empresas, Nicho Imobiliário e Multinacionais. É Especialista em Investimentos (CEA) e Pós-graduada em Planejamento Financeiro. Auxilia famílias a alcançarem seus sonhos por meio de um planejamento financeiro estruturado e personalizado.
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