Quando se fala em apostas, muita gente imagina um perfil específico. A realidade é diferente.
Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) em parceria com a AGP Pesquisas, o apostador brasileiro típico em 2024 tem entre 25 e 44 anos, pertence à classe B ou C — que concentra 87% dos usuários — e, na maioria dos casos, tem ensino médio completo.
Fonte: Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) / AGP Pesquisas, 2024.
É o vizinho. O colega de trabalho. Talvez alguém da sua família.
E o dado mais impactante: 64% dos apostadores utilizam o salário principal para financiar o hábito. Não o que sobra. Não uma renda extra. O salário que paga o aluguel, o mercado, a escola dos filhos.
Fonte: SBVC / AGP Pesquisas, 2024.
Quanto isso consome do orçamento familiar?
Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), utilizando dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE como base, estimam que as apostas online comprometem entre 1% e 2% do orçamento familiar total no Brasil — considerando toda a população adulta.
Fonte: estudo analítico UNIFESP com base em dados POF/IBGE 2017-2018, projeção aplicada ao cenário 2020-2024.
Parece pouco? Vamos colocar em perspectiva.
Dividindo o volume mensal de R$ 19,5 bilhões (média entre os valores registrados pelo Banco Central) pelo número de apostadores ativos — 25 milhões —, chega-se a um gasto médio de R$ 780 por mês por apostador. Com o salário médio do trabalhador brasileiro em torno de R$ 3.200 mensais (IBGE, 2024), isso representa cerca de 24% da renda mensal de quem aposta ativamente e usa o salário principal para isso.
Fonte: cálculo próprio com base em dados do Banco Central do Brasil e IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios — PNAD, 2024).
Para uma família que ganha R$ 3.200 e gasta R$ 780 em apostas: sobram R$ 2.420 para pagar aluguel, mercado, transporte, saúde e tudo mais. É o orçamento inteiro que desmorona.
O que para de ser comprado
O dinheiro que vai para as plataformas de apostas não some no ar. Ele deixa de ir para outro lugar. E o estudo da SBVC mapeou exatamente onde esses cortes estão acontecendo:
— 23% dos apostadores cortaram compras de vestuário e acessórios
— 19% reduziram as compras no supermercado
— 14% cortaram gastos com higiene e beleza
— 11% deixaram de comprar remédios ou adiar consultas médicas
— 11% admitiram não conseguir pagar contas básicas como água, luz e gás
Fonte: Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) / AGP Pesquisas, 2024.
Não são números abstratos. São o jantar que não foi comprado. O remédio que ficou para depois. A conta de luz que atrasou.
Nas classes C, D e E, o Instituto Locomotiva identificou que 52% dos apostadores redirecionaram para as plataformas o dinheiro que antes ia para a poupança. E 48% deixaram de frequentar bares, restaurantes e delivery — setores que empregam milhões de brasileiros.
Fonte: Instituto Locomotiva, pesquisa sobre comportamento financeiro nas classes C, D e E, 2024.
A armadilha matemática
Até aqui falamos do dinheiro apostado. Mas o rombo real é maior — porque ele não para na perda.
Quando o orçamento entra no vermelho por causa das apostas, a solução mais comum é o crédito rotativo: cartão de crédito, cheque especial. E aí a matemática se torna cruel.
Estudos da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostram que, enquanto as perdas diretas com apostas podem representar entre 0,6% e 1% da renda familiar inicial, as despesas subsequentes com juros e dívidas para cobrir esse rombo chegam a consumir uma fatia até 15 vezes maior do que a perda original.
Fonte: Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), estudo sobre inadimplência e apostas, com base na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) e dados do Banco Central, jan/2023 a mar/2026.
A mesma pesquisa da CNC estima que a inadimplência causada diretamente pelas bets subtraiu R$ 143 bilhões do faturamento do varejo brasileiro entre janeiro de 2023 e março de 2026 — valor equivalente à soma das vendas de dois natais consecutivos.
E que para cada aumento de 10% no volume apostado, a taxa de inadimplência sobe 0,12 ponto percentual. Não é coincidência. É causalidade.
A pergunta que vale levar para casa
Não estou aqui para dizer o que você deve ou não deve fazer com o seu dinheiro. Essa é uma decisão sua.
Mas como alguém que passa os dias ajudando famílias a organizar o orçamento, construir reservas e planejar o futuro, tenho uma pergunta simples para deixar:
Se você aposta — ou alguém na sua família aposta —, esse valor está registrado no orçamento? Você sabe exatamente quanto sai por mês? E sabe o que esse dinheiro poderia estar construindo se fosse direcionado de outra forma?
Uma família que economiza R$ 780 por mês, aplicados com rendimento de 1% ao mês, acumula mais de R$ 107.000 em 10 anos. Com os mesmos R$ 780.
A diferença entre construir e desconstruir patrimônio raramente está na renda. Está na direção que o dinheiro toma todo mês.
Na semana que vem, aprofundo o tema: como as plataformas foram projetadas para manter você dentro — e o que acontece com as famílias quando o entretenimento vira vício e o vício vira dívida.
Julia Bastos Chagas Priante
@julia.priante
Engenheira de Alimentos pela Universidade Federal de Viçosa, atua no mercado financeiro desde 2006. Com ampla experiência como Officer no Itaú Unibanco/Itaú BBA nos segmentos de Empresas, Nicho Imobiliário e Multinacionais. É Especialista em Investimentos (CEA) e Pós-graduada em Planejamento Financeiro. Auxilia famílias a alcançarem seus sonhos por meio de um planejamento financeiro estruturado e personalizado.