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Uma semana em o mercado tentou precificar a humanidade

“A história não se repete, mas frequentemente rima.” Mark Twain

Se alguém tivesse passado a semana inteira isolado em uma cabana sem internet, sem televisão e sem acesso ao home broker, provavelmente estaria mais tranquilo, menos estressado e talvez até mais rico.

Porque o mercado passou os últimos dias tentando fazer algo que nunca conseguiu fazer direito: colocar preço em seres humanos. E seres humanos são complicados, principalmente quando possuem exércitos, bancos centrais, redes sociais e acesso a armas nucleares.

Brás Cubas dizia que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. O investidor, por sua vez, faz exatamente o contrário, transmite suas convicções, seus medos, seus excessos de confiança e suas previsões improváveis para a geração seguinte, que por sua vez repete quase tudo novamente.

Mudam os ativos.

Mudam os gráficos.

Mudam as manchetes.

Mas a natureza humana permanece notavelmente estável. Talvez por isso o mercado seja tão difícil de prever e tão fascinante de observar, afinal, por trás de cada cotação existe uma velha conhecida de Machado de Assis: a eterna capacidade humana de confundir esperança com certeza.

O petróleo voltou a lembrar quem manda

Durante anos ouvimos que o mundo estava migrando para energias renováveis, carros elétricos e uma nova era energética. Então bastou mais uma escalada geopolítica para o petróleo voltar ao centro do palco, como aquele tio inconveniente que ninguém convida para a festa, mas que aparece mesmo assim.

A realidade continua sendo:

  • Cerca de 80% da matriz energética mundial ainda depende de combustíveis fósseis.
  • Mais de 100 milhões de barris são consumidos diariamente no planeta.
  • Qualquer interrupção relevante na oferta provoca ondas de choque em toda a economia global.

Quando o petróleo sobe, não sobe apenas o petróleo.

Sobe o transporte.

Sobe o frete.

Sobe a indústria.

Sobe a inflação.

E, por consequência, sobe a dor de cabeça dos bancos centrais.

O investidor que acreditava estar comprando apenas uma ação de petroleira descobre, mais uma vez, que estava comprando uma posição geopolítica sem saber.

O mercado continua apaixonado por narrativas

Toda semana surge uma nova explicação definitiva para o comportamento dos preços.

Na segunda-feira era a inflação.

Na terça-feira era o petróleo.

Na quarta-feira era a China.

Na quinta-feira era feriado, mas continuava sendo os juros, o Banco Central, o Fed.

Na sexta-feira ninguém mais lembrava do que estava discutindo na segunda.

A velocidade com que as narrativas envelhecem no mercado rivaliza apenas com a validade de um pão francês. A diferença é que o pão costuma ser mais útil.

Cosan e a arte de transformar desconto em dúvida

Poucas empresas ilustraram tão bem a semana quanto a Cosan. O mercado continua tentando responder uma pergunta simples: quanto vale uma holding quando uma de suas principais participações está carregando uma dívida capaz de assustar até contador acostumado com recuperação judicial?

A situação da Raízen continua sendo o principal fator de preocupação. Não porque a empresa tenha deixado de possuir ativos relevantes, mas porque dívida excessiva tem uma característica curiosa, ela transforma o futuro em refém do presente.

Quando o endividamento cresce demais, o investidor para de discutir crescimento e começa a discutir sobrevivência. E essa conversa costuma ser muito menos divertida.

O investidor e sua eterna paixão por prever o imprevisível

Uma observação interessante desta semana, foi que milhares de investidores passaram horas tentando descobrir para onde vai o petróleo nos próximos 30 dias. Pouquíssimos gastaram cinco minutos analisando a qualidade das empresas que possuem pelos próximos dez anos.

É como comprar uma fazenda e passar o dia inteiro discutindo a previsão do tempo para quarta-feira, enquanto isso, ninguém olha a qualidade da terra.

A matemática continua derrotando as emoções

A estatística segue sendo uma das áreas mais maltratadas pelo mercado. Os investidores adoram histórias, maas retornos costumam vir dos números.

Ao longo da história:

  • Empresas lucrativas sobrevivem mais.
  • Empresas com dívida controlada quebram menos.
  • Empresas que geram caixa tendem a valer mais.
  • Empresas que dependem de milagres costumam entregar orações.

A fórmula parece simples, mas basta uma promessa de crescimento exponencial para que metade do mercado esqueça tudo isso.

O paradoxo da informação

Nunca tivemos tanto acesso a dados.

Nunca consumimos tantas notícias.

Nunca recebemos tantos alertas.

E, curiosamente, nunca pareceu tão difícil distinguir informação de ruído. Em média, um investidor recebe centenas de manchetes por semana e a maior parte delas não terá qualquer impacto relevante no valor de uma empresa daqui a cinco anos.

Mas produzir ansiedade sempre foi um negócio extremamente rentável.

O que realmente importou nesta semana?

Importaram os fundamentos.

Importou a geração de caixa.

Importou a alocação de capital.

Importou a disciplina financeira.

Importou a gestão de risco.

O resto foi apenas o mercado exercendo seu hobby favorito que é entrar em pânico por alguns dias e fingir normalidade na semana seguinte.

Se esta semana ensinou alguma coisa, foi uma lição antiga, que o mercado muda de humor diariamente e a economia muda de direção periodicamente, mas as os princípios permanecem surpreendentemente estáveis.

Empresas sólidas continuam criando valor.

Dívidas excessivas continuam sendo perigosas.

Caixa continua sendo rei.

E previsões continuam sendo uma atividade extraordinariamente popular entre pessoas que raramente acertam.

No fim, investir é menos sobre prever o futuro e mais sobre sobreviver tempo suficiente para encontrá-lo e isso, curiosamente, continua sendo uma das poucas vantagens competitivas que o investidor comum possui.

Patrícia Rossari

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