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Entre o recesso político e a realidade econômica

A história está repleta de boas ideias que foram levadas longe demais, o que faz com que sejam difíceis de distinguir das más ideias. A beleza da margem para imprevistos é que ela admite que a incerteza, a aleatoriedade e o acaso “o desconhecido”, são parte integrante da vida. A única forma de lidar com eles é reduzindo a distância entre o que você acha que vai acontecer e o que é possível que aconteça, sem, no entanto, perder o poder de ação. Psicologia Financeira.

Enquanto Brasília pendura a placa de “voltamos em agosto”, o mercado continua trabalhando. Afinal, títulos públicos não entram em férias, curvas de juros não respeitam feriados e investidores continuam descobrindo diariamente que ansiedade não paga dividendos.

A semana foi um daqueles capítulos em que o roteiro parece ter sido escrito por Machado de Assis, dirigido por Christopher Nolan e revisado por um contador do Tesouro Nacional.

De um lado, empresas anunciando recompras, cancelamentos de ações, captações bilionárias e novas parcerias. Do outro, o Congresso entrando em recesso e as reformas, medidas fiscais e discussões econômicas ficam estacionadas na garagem institucional do país.

O mercado continua olhando para a mesma variável: juros.

Existe uma ilusão recorrente de que a Bolsa sobe porque empresas ficam melhores. Na prática, muitas vezes a Bolsa sobe porque o dinheiro muda de endereço.

Imagine dois investimentos: um rende 15% praticamente sem risco e outro promete 18%, mas pode entregar -30%. A diferença de prêmio é de apenas três pontos percentuais.

Estatisticamente, isso significa que o investidor exige uma compensação pequena para assumir um risco enorme. É exatamente isso que a curva de juros mostra hoje.

Enquanto os vértices mais longos permanecem elevados, o mercado continua dizendo:

“Ainda não confio completamente na trajetória fiscal.”

E curvas de juros mentem muito menos que discursos.

Estatisticamente, o mercado está tentando aplicar a física quântica às finanças, quer volatilidade de montanha-russa com retorno de caderneta de poupança. Esquecem que, na assimetria de retornos, quando o risco é infinito, o Índice de Sharpe vira piada de mau gosto.

A matemática da paciência

Suponha um lucro de R$ 10 bilhões, com uma taxa de desconto de 10%, esse fluxo vale aproximadamente R$ 100 bilhões, agora aumente a taxa para 15%. O mesmo lucro passa a valer cerca de R$ 66 bilhões. Nada aconteceu com a empresa, nenhuma fábrica fechou, nenhum cliente desapareceu, o produto continua sendo vendido, apenas o preço do dinheiro mudou.

Resultado? Uma perda teórica próxima de 34% no valor presente.

É por isso que é mais importante passar mais tempo olhando DI Futuro do que manchetes de jornal e rede social

Enquanto isso, as empresas fazem exatamente o contrário da política.

A semana trouxe exemplos interessantes. Banco cancelando ações em tesouraria, seguradoras disputando novos contratos, empresas levantando centenas de milhões para crescer, outras reorganizando conselhos, o capital privado segue fazendo aquilo que sempre fez: alocar recursos. O capital político continua alocando entrevistas.

O investidor brasileiro sofre da síndrome da novela das nove.

O investidor brasileiro sofre da síndrome da novela das nove ou, pior, comporta-se como o Rubião de Quincas Borba, gasta toda a sua herança emocional no topo do mercado, fascinado pelo brilho da corte (as manchetes), para depois descobrir que a Bolsa, implacável, não perdoa os ingênuos. Ao vencedor, as batatas, ao ansioso, o prejuízo.

Toda semana existe:

  • o colapso definitivo
  • a recuperação histórica
  • o dólar que “agora dispara”
  • o petróleo que “nunca mais cai”
  • a Bolsa que “não tem mais teto”.

Na sexta-feira seguinte…tudo recomeça.

Hollywood também explica a Bolsa.

Em Titanic, quase todo mundo olha para o iceberg, poucos observam a velocidade do navio. No mercado fazemos igual.

Todos acompanham o fato, poucos observam a tendência. Existe uma diferença entre comprar notícias e comprar probabilidades.

A ironia dos juros

  • Quanto maior o medo, maior o retorno prometido pela renda fixa.
  • Quanto maior o retorno da renda fixa, menor o entusiasmo pela renda variável.
  • Quanto menor o entusiasmo, menores os múltiplos.
  • Quanto menores os múltiplos…maior o potencial de retorno futuro.

O melhor momento para comprar normalmente é quando ninguém quer comprar.

O humor involuntário da política econômica

Sempre que aparece algum problema estrutural, cria-se um grupo de trabalho. Se o problema persistir, cria-se outro grupo para acompanhar o primeiro. É a burocracia operando por fotossíntese, gera muita sombra, consome energia e não produz movimento. Enquanto isso, a curva DI que não tem filiação partidária nem precisa de quórum para votar continua precificando a realidade.

O investidor precisa aprender a ignorar o barulho.

Nas últimas semanas tivemos o cardápio habitual do apocalipse diário: tensões geopolíticas, ruídos de Brasília e projeções fiscais sendo revisadas pelo décimo boletim Focus seguido. A imprensa financeira opera em regime de plantão de UTI, se o dólar sobe dois centavos, o paciente está morrendo, se cai dois, a economia decolou. O investidor que opera com base no humor do meio-dia almoça ansiedade e janta arrependimento.

Parece muita coisa. Na realidade, grande parte desse ruído desaparece dentro de alguns meses.

Os balanços permanecem.

O fluxo de caixa permanece.

A geração de valor permanece.

A Bolsa nunca foi sobre emoção.

É sobre desconto de fluxo de caixa, sobre produtividade, sobre retorno sobre capital, sobre vantagem competitiva e sobre tempo. Tempo, aliás, continua sendo o único ativo que nenhum banco central consegue imprimir, talvez seja essa a maior lição da semana.

Enquanto o Congresso entra em recesso, enquanto manchetes brigam pela atenção do investidor e enquanto especialistas tentam descobrir o próximo grande movimento, empresas continuam produzindo, consumidores continuam comprando e juros continuam precificando expectativas.

A próxima semana trará novas manchetes, novos alarmes e, inevitavelmente, algum analista decretando o “fim” ou o “renascimento” da Bolsa. Como em “Feitiço do Tempo”, o roteiro muda de figurino, mas repete os mesmos conflitos. O mercado apenas troca os personagens, as leis da economia continuam as mesmas.

A maior vantagem competitiva raramente é, para o pequeno investidor, ter mais informação, mas conseguir permanecer racional quando todos os demais decidiram negociar emoções.

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