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A economia da solidão

Como a tecnologia criou um mercado para vender amizades

Peço licença hoje para falar de uma das formas mais curiosas de ganhar dinheiro do século XXI, ensinar pessoas a fazer aquilo que a humanidade fazia gratuitamente há milhares de anos, ter amigos.
Sim, chegamos ao ponto em que uma das maiores oportunidades de negócio da economia moderna é transformar convivência humana em produto, criar métodos, aplicativos e consultorias para explicar como conversar, encontrar pessoas e construir vínculos. É quase uma aula de eficiência capitalista, primeiro criamos tecnologias capazes de conectar bilhões de indivíduos em tempo real, depois percebemos que muitos deles esqueceram como conversar sem uma tela no meio.
O mercado, sempre atento às oportunidades, identificou o problema e fez o que sabe fazer melhor, colocou uma etiqueta de preço na solução. Afinal, se conseguimos vender cursos para ensinar produtividade, felicidade e como acordar às cinco da manhã, por que não vender também um manual para fazer amigos?
Talvez estejamos diante de um dos exemplos mais interessantes da economia moderna.
Uma das maiores ironias econômicas do século XXI está acontecendo diante dos nossos olhos. Durante praticamente toda a história da civilização, fazer amigos nunca foi um produto, era uma consequência natural da vida em sociedade.
As amizades surgiam na infância, eram fortalecidas na escola, amadureciam no trabalho, na vizinhança, na igreja, nos clubes, nas praças e até na fila da padaria. A proximidade física criava convivência, e a convivência construía confiança.
O economista e cientista político Robert Putnam chamou esse fenômeno de capital social, uma riqueza invisível formada por redes de relacionamento, confiança e cooperação entre indivíduos.
Então veio a revolução digital e ela trouxe ganhos extraordinários.
Nunca foi tão fácil conversar com alguém do outro lado do planeta, compartilhar conhecimento ou manter contato com familiares distantes. A internet eliminou barreiras geográficas e democratizou a comunicação, mas ela também alterou profundamente os incentivos.

As redes sociais não foram desenhadas para maximizar amizades profundas. Foram desenhadas para maximizar tempo de permanência na plataforma. Quanto maior o tempo de tela, maior a receita publicitária.

Nesse modelo, atenção virou moeda.
O resultado foi curioso, acumulamos seguidores, mas reduzimos encontros, multiplicamos grupos de conversa, mas diminuímos conversas significativas, recebemos centenas de notificações diariamente, enquanto milhões de pessoas relatam nunca ter se sentido tão sozinhas.

Não por acaso, em 2023, a solidão foi classificada como uma epidemia de saúde pública nos Estados Unidos. Na época aproximadamente metade dos adultos americanos relataram experimentar solidão em algum grau, associando o isolamento social ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade, demência e mortalidade precoce. Estudos citados mostram inclusive o impacto da solidão sobre a saúde pode ser comparável ao de fatores clássicos de risco, como o tabagismo.
Você pode acessar o PDF neste LINK.
Os números ajudam a compreender por que investidores começaram a enxergar uma oportunidade. Nos Estados Unidos surgem startups oferecendo clubes presenciais, encontros organizados, aplicativos para criar círculos sociais, consultorias de relacionamento e até cursos para ensinar adultos a fazer amigos.
Em outras palavras, nasceu uma nova indústria dedicada a vender aquilo que durante milhares de anos era produzido espontaneamente pela sociedade.
É difícil imaginar uma ironia econômica maior.
Primeiro, a economia digital cria plataformas que capturam nossa atenção, depois, surge um novo mercado tentando reparar os efeitos colaterais desse modelo.
É um ciclo conhecido, um setor produz externalidades, outro setor nasce para mitigá-las.
A lógica já aconteceu com alimentos ultraprocessados e a indústria fitness, com automóveis e aplicativos de mobilidade, com poluição e tecnologias ambientais. Agora, ocorre também com as relações humanas.
A questão vai além das redes sociais, o trabalho remoto reduziu encontros casuais entre colegas, as cidades cresceram, mas muitos espaços públicos perderam vitalidade. Clubes, associações de bairro, organizações comunitárias e grupos religiosos, historicamente responsáveis por criar vínculos sociais, perderam participação nas últimas décadas.
Curiosamente, a própria tecnologia parece reconhecer o problema. Empresas desenvolvem inteligência artificial para oferecer companhia, aconselhamento emocional e conversas personalizadas. Alguns estudos preliminares sugerem que esses sistemas podem aliviar sentimentos de solidão em determinados contextos, mas permanece uma pergunta difícil: uma conversa artificial substitui uma amizade construída ao longo dos anos?

Talvez a resposta seja negativa porque amizade nunca foi apenas comunicação, ela envolve reciprocidade, memória compartilhada, confiança, conflitos, tempo e presença.
São elementos difíceis de reproduzir por algoritmos.
Do ponto de vista econômico, o caso revela um padrão recorrente da inovação. Tecnologias resolvem problemas, mas frequentemente criam novos mercados para lidar com suas consequências.

A fotografia reduziu a pintura como registro da realidade, automóvel criou congestionamentos, smartphone criou produtividade e distração ao mesmo tempo, as redes sociais ampliaram nossa capacidade de conexão, mas também parecem ter reduzido parte da profundidade dessas conexões.
No fim, talvez estejamos descobrindo que nem todos os ativos escassos podem ser produzidos em escala. Atenção genuína, confiança e amizade continuam obedecendo às mesmas leis de milhares de anos atrás, exigem tempo, convivência, presença e talvez essa seja a maior ironia de todas.
Gastamos bilhões desenvolvendo tecnologias para aproximar pessoas, agora movimentamos bilhões tentando ensinar novamente aquilo que nossos avós aprendiam simplesmente vivendo.
E tem muita gente ganhando bilhões com tudo isso.

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