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Errei o cálculo e o dinheiro acabou antes da hora

Fala, pessoal! Jorginho Guinle foi, por muito tempo, considerado o maior playboy do Brasil. Herdou o equivalente a US$ 1 bilhão — imóveis, ações, participação no Porto de Santos, o Hotel Copacabana Palace. Nunca trabalhou um dia sequer. Viveu entre festas, viagens e os nomes mais famosos do jet set internacional. E tinha, à sua maneira, um plano financeiro: gastar tudo antes de morrer.

O plano falhou. Não porque ele foi imprudente — mas porque ele não contou com viver mais do que o esperado. Em entrevista concedida em 2004, aos 87 anos, Guinle resumiu com uma frase que ficou para a história: “Achei que fosse morrer com uns 75 anos e estou com 87. Calculei mal e gastei tudo antes da hora.”

Guinle morreu pobre, morando de favor no Copacabana Palace — o mesmo hotel que um dia foi da sua família. O dinheiro acabou. A vida, não.

Essa história parece distante da realidade da maioria das pessoas. Mas o erro que Guinle cometeu — subestimar o próprio horizonte de vida — é um dos mais comuns e mais perigosos no planejamento da aposentadoria.

 

O risco que ninguém quer calcular

Longevidade é uma conquista da humanidade moderna. Também é um risco financeiro que poucos planejadores — e menos ainda investidores — levam a sério o suficiente.

A maioria das pessoas, quando pensa em aposentadoria, projeta mentalmente um horizonte até os 80 anos. Por instinto, por conservadorismo, ou simplesmente porque pensar além disso parece distante demais. O problema é que esse instinto está defasado em relação à realidade demográfica atual — e planejar até os 80 quando você pode viver até os 95 é o erro de cálculo de Guinle em versão cotidiana.

 

O que os núméros mostram

Segundo dados do IBGE e das tábuas atuariais utilizadas pela Previdência Social, quem chega aos 65 anos no Brasil tem expectativa média de viver mais 18 a 20 anos — ou seja, até os 83 a 85 anos. Mas média não é destino.

As tábuas atuariais mostram que aproximadamente 25% das pessoas que chegam aos 65 anos viveram até os 90 anos ou mais. Uma em cada quatro. E entre os que têm acesso a saúde de qualidade, alimentação adequada e condições econômicas favoráveis — exatamente o perfil de quem lê este artigo — essa probabilidade é ainda maior.

Planejar para a média é aceitar conscientemente uma chance relevante de ficar sem dinheiro nos anos mais vulneráveis da vida. Não é um risco abstrato — é um risco mensurável, com probabilidade real.

 

O custo dos anos extras

Os anos adicionais não são baratos. A curva de gastos na aposentadoria não é plana — ela tem um formato específico que os atuários chamam de “sorriso do aposentado”: os gastos começam altos nos primeiros anos de liberdade, caem um pouco na fase intermediária e voltam a subir com força nos anos finais.

Essa alta final tem um nome: custo de longevidade. Medicamentos de uso contínuo, planos de saúde com cobertura ampla, consultas especializadas frequentes, eventualmente cuidadores domiciliares ou assistência em instituições especializadas. Os gastos aumentam justamente quando a capacidade de gerar renda já se esgotou há muito tempo — e quando o patrimônio, se mal dimensionado, já está fraço.

Um plano de usufruto que funciona até os 80 pode quebrar completamente aos 85 se não tiver sido construído com margem para esse horizonte.

 

O que muda no planejamento

A boa notícia é que planejar para os 95 não significa necessariamente acumular muito mais. Significa, principalmente, calibrar a taxa de retirada para um horizonte mais longo.

Nos artigos anteriores desta série, discutimos que a regra dos 4% foi calibrada para um horizonte de 30 anos — de 65 a 95 anos, exatamente. Para quem se aposenta mais cedo, ou para quem quer uma margem de segurança maior, a taxa sustentável cai. Pesquisadores como Wade Pfau demonstraram que para horizontes de 40 ou 50 anos a taxa segura pode cair para 3% ou até menos, dependendo das condições de mercado no momento da aposentadoria.

A longevidade não é uma variável opcional no planejamento financeiro. É o horizonte sobre o qual todo o sistema de usufruto precisa ser construído. Ignorá-la é construir um plano sólido sobre uma premissa falsa.

 

Jorginho Guinle tinha um plano. Tinha uma filosofia. Tinha consistência na execução. O que ele não tinha era margem para o imprevisto mais previsível de todos: viver mais do que o esperado.

A pergunta que todo investidor deveria se fazer não é apenas “quanto preciso para me aposentar?” — é “quanto preciso para me aposentar e viver até os 95 com dignidade?” A diferença entre as duas respostas pode ser a diferença entre um plano que funciona e um erro de cálculo.

 

 

Julia Bastos Chagas Priante — @julia.priante

Engenheira de Alimentos pela Universidade Federal de Viçosa, atua no mercado financeiro desde 2006. Com ampla experiência como Officer no Itáu Unibanco/Itáu BBA nos segmentos de Empresas, Nicho Imobiliário e Multinacionais. É Especialista em Investimentos (CEA) e Pós-graduada em Planejamento Financeiro. Auxilia famílias a alcançarem seus sonhos por meio de um planejamento financeiro estruturado e personalizado.

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