15 a 19 de junho de 2026

Há semanas em que a economia deixa de ser planilha e vira literatura russa: personagens em sofrimento difuso, causalidade opaca e um enredo em que todo mundo jura ter entendido só depois do último capítulo. Esta foi mais uma dessas semanas em que a única consistência foi a confusão.
Superquarta de 17 de junho, em que Brasil e Estados Unidos decidiram, em uníssono quase conjugal, que a única certeza da vida moderna é a incerteza compartilhada.
Capítulo I — O Copom e a arte do corte tímido
O Banco Central, fiel à sua vocação dostoievskiana de sofrer antes de agir, cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, levando a taxa a 14,25% ao ano. Antes que alguém abra a champanhe: isso ainda coloca o Brasil no topo do ranking mundial de juro real, como quem ganha a medalha de ouro numa modalidade que ninguém queria disputar.
A reunião deu continuidade ao ciclo de afrouxamento monetário, com corte de 0,25% na Selic, após outro corte de 0,25% na reunião de abril. Dois cortes tímidos, como dois suspiros de Raskólnikov antes de confessar, só que aqui ninguém confessa nada, e a culpa continua sendo sempre “do cenário externo”.
O comunicado do Copom, em seu habitual estilo “li Crime e Castigo, mas prefiro não comentar o veredito”, não sinalizou quais serão os próximos passos da política monetária, reforçando apenas os riscos inflacionários e o papel de vigilância do BC. Tradução livre: “voltem em julho”.
A próxima reunião do Copom ocorrerá nos dias 28 e 29 de julho, um mês de suspense digno de qualquer Noite Branca de São Petersburgo, só que com menos neve e mais Boletim Focus.
Capítulo II — Warsh, o novo czar de Washington
Do outro lado do Atlântico, Washington estreou seu próprio protagonista. A decisão ocorreu sob a sombra do acordo prévio entre EUA e Irã para cessar a guerra no Oriente Médio e abrir o Estreito de Ormuz, canal fundamental para o escoamento de petróleo no mercado global, e marcou a primeira decisão de juros com Kevin Warsh à frente da autoridade monetária americana.
Trump indicou Warsh para cortar juros, o comitê, em ato de fina ironia institucional, sinalizou o oposto, as autoridades indicaram um possível aumento da taxa ainda este ano para combater o recente pico da inflação ligado à guerra com o Irã.
É como mandar Pierre Bezukhov evitar uma batalha e ele voltar comandando uma carga de cavalaria, Tolstói aplaudiria a ironia situacional. Guerra e Paz nunca pareceram tão atual.
OBS: Pierre Bezukhov é um dos protagonistas de Guerra e Paz, de Liev Tolstói. Ele representa o intelectual dentro de sistemas grandes demais para ele, alguém que tenta entender a lógica do poder e da guerra, mas frequentemente é arrastado por decisões que não controla.
E os números são de uma poesia estatística admirável, nove dos 19 membros do comitê acreditam que será necessário aumentar a taxa básica ainda este ano, quando há apenas três meses nenhum deles compartilhava dessa opinião. Mudança de ideia mais rápida que a de Brás Cubas sobre o sentido da vida, só que aqui não há defunto-autor, há apenas o dot plot.
Capítulo III — O petróleo, esse personagem secundário que virou protagonista
A boa notícia da semana, sim existe uma, é que o petróleo recuou após o acordo entre Irã e Estados Unidos. A Agência Internacional de Energia projeta agora um excedente significativo de petróleo já em 2027, com a oferta global crescendo cerca de 8 milhões de barris por dia, superando com folga o avanço da demanda mundial.
Depois de meses anunciando o apocalipse energético, o mercado agora promete um Velho Chico de petróleo sobrando, Guimarães Rosa diria que “o sertão vai virar mar”, e aqui o mar é literalmente de barris.
E tudo ia bem, mas claro que tivemos uma reviravolta. Depois de uma semana vendendo a ideia de que a diplomacia finalmente estava ganhando da pólvora, as negociações entre Estados Unidos e Irã foram adiadas.
Mais uma vez, a realidade demonstrou que não acompanha o consenso
Capítulo IV — A inflação
Enquanto isso, em terras tupiniquins, o IPCA continua sendo aquele personagem machadiano cuja real intenção ninguém consegue decifrar. As expectativas de inflação para 2026 e 2027 permanecem acima da meta, em 5,30% e 4,10%, respectivamente, enquanto a projeção do próprio Copom para o quarto trimestre de 2027 está em 3,7%.
Ou seja, o Banco Central acredita em sua própria narrativa mais do que o mercado acredita nele, situação digna de um Bentinho duvidando da própria memória.
Do lado real da economia, ao menos, há um respiro: o PIB brasileiro avançou 1,1% no primeiro trimestre de 2026, acelerando em relação à alta de 0,3% do quarto trimestre de 2025.
Um Brasil que cresce modestamente, como convém à nossa tradição literária de finais em suspenso, sem grande epifania, só o “continua” do próximo capítulo.
A moral econômica da semana
Se Dostoiévski escreveu que o teste de uma inteligência de primeira classe é manter duas ideias opostas na cabeça ao mesmo tempo e ainda assim continuar funcionando, então o investidor brasileiro de 2026 é, oficialmente, genial.
Ele convive com Selic a 14,25%, inflação acima da meta, petróleo em queda, Fed em alerta de alta, Copom em modo cautela e PIB ainda em expansão. Um ambiente em que os sinais macro se contradizem como se fossem dados de modelos diferentes rodando ao mesmo tempo e ainda assim, na segunda-feira, ele volta ao básico: Tesouro Direto, liquidez diária e promessa de segurança nominal.
Como diria o velho ditado adaptado à brasilidade: investidor não perde o sono, perde, no máximo, o rendimento real.
E, nesta semana, ambos os hemisférios do globo decidiram, democraticamente, que a única certeza é mesmo a próxima reunião.
Patrícia Rossari