“Que país é esse?” Renato Russo, 1987.
Ainda sem resposta.

Ao vencedor, as batatas, ao consumidor, o preço delas.
Machado de Assis, em seu Quincas Borba, apresentou ao mundo a filosofia do Humanitismo, segundo a qual “ao vencedor, as batatas.” Nunca, em toda a história do pensamento ocidental, um sistema filosófico foi tão fielmente aplicado a uma política monetária. Essa semana, o Brasil continuou entregando batatas.
O problema é o preço das batatas.
O Boletim Focus: um documento de fé
Toda segunda-feira, o Banco Central convoca os economistas do país, pessoas de formação rigorosa, com doutorados em instituições de prestígio e gravatas que custam mais do que o salário mínimo, para que expressem suas esperanças.
O resultado é o Boletim Focus, que, tecnicamente, é uma pesquisa de expectativas e na prática, é um diário coletivo do otimismo em retirada.
Nesta semana, o documento sagrado revelou que a projeção para a Selic ao fim de 2026 subiu de 13,25% para 13,50% ao ano, a primeira alta após uma semana de estabilidade, como se o mercado tivesse respirado fundo antes de piorar mais um pouco. Para 2027, a estimativa avançou de 11,25% para 11,50%. É o que os economistas chamam de “ajuste fino”. Os leigos chamam de “um passo de cada vez rumo ao normal, em câmera lenta.”
A projeção para o IPCA de 2026 subiu de 5,09% para 5,11%, marcando a décima terceira elevação semanal consecutiva, treze semanas seguidas.
Um número suficientemente poético para que Dostoiévski o usasse como título de capítulo em Crime e Castigo, que afinal é o subtítulo não oficial da nossa política fiscal.
A Selic
Essa velha conhecida, encontra-se atualmente em 14,5% ao ano, após dois cortes tímidos de 0,25 ponto percentual cada. Antes disso, ficou estacionada em 15% ao ano de junho de 2025 a março de 2026, o maior nível em quase duas décadas.
Para contexto, na última vez que os juros estiveram tão altos, o iPhone não existia, o Twitter era ficção científica e Lula estava no primeiro mandato.
O próximo encontro do Copom acontece nos dias 16 e 17 de junho e o mercado projeta a Selic em 14,25%, o que sugere, com a sobriedade de quem apostou todas as fichas em um animal que já tropeçou três vezes, uma nova redução de 0,25 ponto. Mas a mesma pesquisa que projeta o corte de agora prevê que a Selic termine 2026 em 13,5%.
Ou seja, cortamos hoje para subir amanhã. Hemingway chamaria isso de gradual e de repente, nós chamamos de política monetária.
Para o consumidor, a mensagem é clara, a queda dos juros, se vier, não será rápida. Exatamente como todas as outras coisas boas neste país.
O PIB: crescimento com dignidade mínima
O Brasil cresceu 2,3% em 2025, puxado pela agropecuária, nosso eterno cavaleiro da esperança. Foi o quinto ano consecutivo de crescimento, número que soa impressionante até você perceber que é o equivalente econômico de uma pessoa que está bem, mas poderia estar melhor, mas prefere não se comprometer.
No primeiro trimestre de 2026, a economia cresceu apenas 1,1% em comparação ao trimestre anterior.
O Banco Mundial revisou sua projeção para o Brasil de 2% para 1,6% de crescimento em 2026, colocando o país na 22ª posição entre os 29 países latino-americanos e caribenhos analisados. A Guiana, nosso pequeno vizinho ao norte que descobriu petróleo há pouco tempo, deve crescer 16,3%. Dezesseis vírgula três.
O Brasil, com toda sua história, Carnaval, Petrobras e Copa do Mundo, projeta 1,9% segundo o FMI, depois de uma revisão para cima, por sinal.
Tolstói escreveu que todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira.
A economia brasileira tem sido criativa na sua maneira de ser insatisfatória.
O Petróleo e a Arte da Guerra
Se o cenário doméstico já oferece material farto para reflexão, o mundo lá fora foi generoso em fornecer ainda mais. A guerra entre Israel e Irã com ataques à infraestrutura energética e interrupções no Estreito de Ormuz, desencadeou o que o Banco Mundial descreveu, com toda a sobriedade da linguagem institucional, como “o maior choque de oferta de petróleo jamais registrado”: uma redução inicial de cerca de 10 milhões de barris por dia.
O barril do tipo Brent, que custava US$ 70 na semana anterior ao conflito, chegou a ser cotado a mais de US$ 120. Hoje, após alguma acomodação, a projeção é de uma média de US$ 86 por barril em 2026 um aumento de 25% em relação aos US$ 69 de 2025.
O FMI, que raramente usa linguagem dramática, alertou que num cenário adverso, com o petróleo acima de US$ 100 por barril até 2027, o mundo poderia se aproximar de uma recessão. Num cenário mais severo, com preços chegando a US$ 110 em 2026 e US$ 125 em 2027, a inflação global ultrapassaria 6%, exigindo novos apertos monetários.
O mercado global voltou a ser lembrado, como escreveu um analista com rara lucidez esta semana, “de uma verdade simples, mas frequentemente esquecida nos momentos de euforia: tecnologia, inteligência artificial e lucros corporativos importam muito, mas energia ainda é a base física da economia.”
O capital simbólico, por enquanto, ainda não move navios-tanque.
O paradoxo brasileiro se revela em toda sua beleza irônica, somos um exportador líquido de energia, o que, segundo o FMI, nos torna menos afetados que economias da Ásia, Europa e África e pode até nos beneficiar no curto prazo.
Enquanto o mundo paga mais caro pelo combustível, o Brasil sorri, levemente, com a cara de quem encontrou dinheiro no bolso do casaco de inverno. Mas o sorriso é contido, afinal a inflação de alimentos pressionou o IPCA de abril para 0,67% no mês, com acumulado em 12 meses de 4,39%, ainda dentro do teto da meta de 4,5%, mas escalando a cerca de 5,11% nas projeções para o fim do ano.
A inflação, dizia Graciliano Ramos por outros meios em Vidas Secas, é uma seca que não se vê chegar, mas se sente no pão.
Copa do Mundo
Historicamente, a Copa tem efeito ambíguo sobre os índices de confiança do consumidor, a produtividade e o volume de negócios. Os economistas debatem se o impacto é positivo ou negativo. O brasileiro já decidiu que o impacto é emocional, e que isso é suficiente.
A B3 informa que haverá pregão normalmente durante os jogos.
A racionalidade dos mercados é, de fato, uma das grandes ficções do século XX.
Para o Investidor: O que fazer?
- Scott Fitzgerald escreveu que o teste de uma inteligência de primeira classe é a capacidade de manter duas ideias opostas na cabeça ao mesmo tempo e ainda assim continuar funcionando.
Bem-vindo ao Brasil de junho de 2026. De um lado, juros ainda altos em 14,5%, renda fixa rendendo acima da inflação, Tesouro Direto como porto seguro. De outro a inflação projetada acima da meta, Copa do Mundo, petróleo instável e o Oriente Médio decidindo o custo do seu combustível.
As projeções para o dólar caíram, ligeiramente, para R$ 5,15 ao fim de 2026, terceira queda consecutiva. O câmbio, ao contrário de quase tudo nesta análise, deu uma notícia que soa a alívio. O PIB cresce, devagar, a inflação cede, lentamente, os juros caem, timidamente.
Há um padrão aqui que qualquer leitor de Machado de Assis reconheceria: o Brasil sempre chega, só demora um pouco mais do que o previsto.
Talvez essa seja a grande característica da economia brasileira, nunca é uma tragédia grega, porque sempre sobra espaço para a comédia, nunca é uma comédia completa, porque a conta sempre chega e entre uma coisa e outra, seguimos em frente. Afinal, a vida não é exatamente uma ópera mas às vezes desafina com notável consistência.