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O aluguel que você paga sem saber

Fala, pessoal! “Vale mais a pena comprar ou alugar?” É, sem exagero, uma das perguntas que mais escuto nos meus atendimentos. E ela sempre me dá um prazer enorme de aprofundar com o cliente, porque a resposta certa quase nunca é a intuitiva. Vou abrir aqui, ao longo das próximas semanas, o raciocínio que uso nessas análises — sem planilha, mas com a lógica por trás dela.

Toda escolha fecha uma porta

Antes de falar de imóvel, pensa numa coisa simples: todo sábado à tarde, você escolhe entre descansar ou fazer uma hora extra de trabalho. Escolher uma coisa significa, automaticamente, abrir mão da outra. Você não pode ter as duas ao mesmo tempo.

Isso, no mundo das finanças, tem nome: custo de oportunidade. É o valor daquilo que você deixou de ganhar ao escolher uma alternativa em vez de outra. Simples assim — mas é um dos conceitos mais poderosos (e mais ignorados) quando o assunto é dinheiro.

Um exemplo pequeno, antes do grande

Imagina que você tem R$ 10 mil parados na poupança, rendendo pouco, quando poderia estar num CDB de banco médio rendendo bem mais. A diferença entre o que a poupança te dá e o que o CDB te daria — essa diferença é o seu custo de oportunidade daquela escolha. Ninguém te cobra essa diferença numa fatura. Mas ela existe, mês a mês, silenciosa.

Agora aplica essa mesma lógica para a maior compra da vida de muita gente: a casa.

O aluguel que você paga a si mesmo

Aqui está o ponto que mais surpreende meus clientes: mesmo quem comprou o imóvel à vista, sem financiamento, sem dívida nenhuma, está pagando um custo todo mês — só que ele é invisível, porque não vem em boleto.

Vamos a números. Imagine um imóvel de R$ 800 mil, comprado à vista. Se esse capital estivesse investido a uma taxa real conservadora de 6% ao ano, renderia R$ 48 mil por ano — R$ 4.000 por mês. Esse é o “aluguel” que a pessoa paga a si mesma, todo mês, para morar no que já é dela. Só que, como não existe boleto de “aluguel para mim mesmo”, ninguém enxerga essa conta.

E se o imóvel foi financiado? A lógica continua, só que em duas camadas. Pegando o mesmo imóvel de R$ 800 mil, com entrada de R$ 200 mil e o restante financiado: os R$ 200 mil da entrada também deixam de render — a 6% ao ano, isso é R$ 12 mil por ano, ou R$ 1.000 por mês, só de custo de oportunidade da entrada. Some a isso os juros do financiamento, que nos primeiros anos representam a maior fatia da parcela, e o custo real de “ter” aquele imóvel fica bem mais alto do que o valor da prestação sozinha sugere.

Isso não é para nunca comprar

É para comprar sabendo o preço completo da decisão — inclusive a parte que não vem no boleto. Muita gente decide entre alugar e comprar olhando só para a prestação versus o aluguel do mês, e essa é a comparação errada. A conta certa também leva em conta o que aquele capital, parado no tijolo, deixou de render em outro lugar.

Mas dinheiro não é só matemática

E aqui eu preciso ser honesta com vocês: diga essa conta para alguém, e a pessoa vai concordar com a matemática. Mas decisão financeira não é só matemática — é vida.

Ter a casa própria carrega uma segurança emocional que nenhuma planilha capta: não depender da decisão de um terceiro para continuar morando ali, poder reformar do jeito que quiser, criar raiz num bairro, matricular os filhos na mesma escola por anos sem medo de mudança forçada. Isso tem valor. Só não tem número.

O papel do custo de oportunidade não é decidir por você. É garantir que, quando você escolher pagar por essa segurança emocional, seja uma escolha consciente — e não um número que você nunca parou para calcular.

Fica a pergunta para esta semana: você já calculou quanto está pagando, todo mês, para morar onde mora — mesmo que já tenha o imóvel quitado?

 

Julia Bastos Chagas Priante

@julia.priante

Engenheira de Alimentos pela Universidade Federal de Viçosa, atua no mercado financeiro desde 2006. Com ampla experiência como Officer no Itaú Unibanco/Itaú BBA nos segmentos de Empresas, Nicho Imobiliário e Multinacionais. É Especialista em Investimentos (CEA) e Pós-graduada em Planejamento Financeiro. Auxilia famílias a alcançarem seus sonhos por meio de um planejamento financeiro estruturado e personalizado.

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