Fala, pessoal! Na semana passada falei sobre o aluguel invisível que a gente paga até no imóvel já quitado — o custo de oportunidade escondido em qualquer decisão de morar. Antes de mostrar como calcular isso na prática, quero fazer uma pausa e apresentar a vocês a pessoa por trás de uma das regras que muitas vezes preciso usar em meus atendimentos.
Eu sou engenheira, e isso muda como eu decido
Uma coisa que carrego da minha formação em Engenharia de Alimentos para as finanças é que eu nunca consigo fazer nada — do mais simples ao mais complexo — sem entender a conta por trás. Foi assim que aprendi a operar opções: só comecei depois de entender, na ponta do lápis, exatamente quanto eu podia ganhar e, principalmente, quanto eu podia perder. O mesmo valeu para avaliar um COE (Certificado de Operações Estruturadas): quando você faz a conta de verdade, muitas vezes vê que o custo de oportunidade não compensa. E você só enxerga isso porque sabe fazer a conta.
Foi esse mesmo hábito que me levou a pesquisar quem estava por trás da “Regra dos 5%”, que uso há anos para ajudar clientes a decidir entre comprar e alugar. Antes de ensinar a conta, quero apresentar quem a criou — porque entender de onde vem uma regra muda a confiança que você deposita nela.
Quem é Ben Felix
Ben Felix é gestor de portfólio e Head of Research na PWL Capital, uma gestora de patrimônio canadense. Ele ganhou destaque internacional não só pela atuação institucional, mas principalmente como educador financeiro — é conhecido por traduzir pesquisa acadêmica densa sobre finanças para uma linguagem acessível ao investidor comum.
Ele comunica isso por dois canais principais. No YouTube, o canal “Common Sense Investing” desconstrói mitos do mercado financeiro e explica as bases matemáticas da construção de carteiras. E no podcast “The Rational Reminder, discute finanças pessoais e tomada de decisão racional.
A filosofia por trás das regras dele
A abordagem de Ben Felix foge de previsão de mercado e aposta em ativo individual. Ele defende que tentar escolher a ação certa ou prever o próximo grande movimento é um jogo perdedor para a maioria — a estratégia mais racional é investir em fundos de índice globais, de baixo custo, capturando o retorno do mercado como um todo. Ele também mantém uma postura cética com criptomoedas e ouro, argumentando que ativos sem geração de fluxo de caixa não carregam um retorno esperado sustentado por risco sistêmico — são especulação, não investimento produtivo.
Uma das teses mais conhecidas dele, e que costuma chocar quem vem da cultura de “carteira de dividendos”, é que dividendo não é dinheiro grátis. Ele demonstra, apoiado na teoria de irrelevância dos dividendos, que focar só em empresas pagadoras reduz a diversificação da carteira sem oferecer vantagem real de retorno ajustado ao risco.
De onde nasce a Regra dos 5%
É dentro dessa mesma lógica — decisão baseada em evidência, não em crença popular — que nasce a Regra dos 5%. Ela existe para combater diretamente o mito de que “alugar é jogar dinheiro fora”. Ben Felix decompôs os custos reais e irrecuperáveis de ter um imóvel — custo de oportunidade do capital, manutenção, impostos — para compará-los de forma justa com o custo do aluguel. O resultado, muitas vezes, é que alugar e investir a diferença é uma decisão financeira mais eficiente do que a intuição popular sugere.
O que mais me chama atenção no trabalho dele não é a promessa de enriquecer rápido — porque não existe nenhuma. É o oposto: o foco está inteiramente no que o investidor pode controlar. Redução de taxas, diversificação, eficiência tributária, e principalmente controle comportamental. Regras como essa não substituem a análise completa de um caso, mas evitam que a gente decida no escuro, movido só pelo que todo mundo diz.
Na próxima semana, vou mostrar como aplicar essa regra na prática — com números, passo a passo — junto com uma segunda conta que uso em conjunto com ela. Fica o convite: antes de qualquer decisão grande, você sabe explicar o raciocínio por trás do número que está usando, ou está confiando no que ouviu de alguém?
Julia Bastos Chagas Priante
@julia.priante