Analise: Tegma Gestão Logística (TGMA3)

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Nosso assunto mais uma vez gira em torno do mundo automotivo e da logística. O motivo? Eu gosto desses assuntos e vejo que existem muitas dúvidas a respeito da geração de valor desses negócios. Sendo assim, nas últimas semanas falamos sobre LEVE3, MPYK3, RUMO3, STPB3 entre outras. Os materiais estão disponíveis aqui no site aberto e também na área de assinantes, inclusive com precificação do nosso analista chefe, Daniel Nigri, e com podcasts falando sobre o processo de geração de valor.

Agora vamos nos concentrar na empresa de hoje:  Tegma Gestão Logística.

Primeira informação, que é importante nesse setor: para execução das operações, a empresa utiliza ativos alugados/contratados de terceiros, a maioria, e não a totalidade; a segunda, é que ela abriu capital no ano dos IPOs, 2007; e a terceira é que a empresa é a maior operadora da América Latina no ramo de transporte de veículos zero-quilômetro.

Então vamos conhecer o processo principal, o que mais gera valor:

A companhia atua na logística de veículos prontos para muitas das montadoras em território nacional e também trabalha para as principais importadoras. Mas como isso acontece na prática?

A Tegma efetua a coleta dos veículos na fábrica ou no porto, se for o caso, faz a gestão de pátios das montadoras (isso é muito importante no processo produtivo), além do armazenamento de veículos não faturados; ainda presta serviços de soluções e o transporte dos veículos até as concessionárias ou os portos. Obviamente a empresa executa esses serviços usando  controle tecnológico de rastreamento, ou seja, ela sabe exatamente o que está e onde está, desde os equipamentos nas estradas, localização dos veículos por chassi em pátios de até 8 mil veículos, usando KPIs nos processos  (Key Performance Indicator), aliás, já falei sobre a importância deles, lá na nossa área de podcast, mas caso você não os tenha ouvido, vamos resumir da seguinte maneira: KPIs são importantíssimos para o negócio conseguir aplicar as estratégia de melhoria nos processos, além de ser um indicativo de controle essencial para conseguir novos clientes e manter os que já existem, prospecção e retenção, afinal, sem clientes não existe negócio, principalmente em setores como o da Tegma, que opera por contratos.

Mas ela opera somente com montadoras?

Não, mas a maior parte do dinheiro vem desse setor. Porém, além de atuar como operador logístico na área industrial, fazendo o abastecimento de linha de produção e fazendo a armazenagem de bens de consumo, ela também atua prestando serviços para o setor de cuidado pessoal, vidreiros, faz transporte de matéria-prima até as fábricas e atua com o segmento de eletrodomésticos, através do gerenciando do fluxo de peças para as fábricas. Quando o assunto é armazenagem, ela opera por meio de 22 mil m² de armazéns em São Paulo e no Rio de Janeiro, faz a gestão de estoques, etiquetagem e separação de pedidos para clientes de diversos segmentos de atividade.

Resumindo as áreas de atuação:

  • Transporte Rodoviário (soluções logísticas diferenciadas e customizadas para transferências de cargas)
  • Armazenagem (armazenamento, gestão de estoques e expedição de produtos)
  • Gestão Logística (estoque, embalagem, transporte, in-house)

Na logística de Veículos:

  • Gestão de pátios (a Tegma recebe o veículo na saída da linha de produção das montadoras, realiza a armazenagem nos pátios, faz o controle de estoque)
  • Faz a transferência e distribuição dos veículos zero-quilômetro (envio para as concessionárias)
  • Nos importados ela opera o recebimento do estoque e a armazenagem para posterior distribuição acordada
  • Oferece serviços de PDI, ou pré-entrega (inspeção, preparação, instalação de componentes, aplicação de etiquetas de instruções e manuais em português, além de todos os itens e acessórios exigidos pela legislação brasileira nos veículos importados)

Para fins de informação, a Tegma adquiriu a empresa DIRECT, em 2011, para atuar no ramo de distribuição do e-commerce, e essa operação foi vendida para a B2W em 2014 por R$ 127 milhões. Hoje ela é a maior empresa de courier privado do Brasil.

Imagem retirada do ITR da companhia 1T2020

COVID-19 e Liquidez

A companhia citou, o que nós já sabemos, que houve interrupção da produção de veículos leves, comerciais leves e de eletrodomésticos por um período, porém, a fabricação de produtos essenciais, como no setor de químicos e nos serviços de armazenagem, está acontecendo. Em relação à saúde financeira da companhia e a capacidade de passar pela crise, ela comunica que está bem posicionada, visto que sua dívida líquida é quase zero, além de possuir um market share substancial que permite uma posição competitiva devido aos contratos de longo prazo, além de contar com um processo operacional enxuto e eficiente. Aqui entra a questão do funcionamento da operação ter uma base asset light, que diminui os impactos dos custos em momentos de queda dos volumes de operação (principalmente porque o principal setor continua sendo o automotivo, que teve as operações paradas – vimos os reflexos na LEVE3 e na MYPK3), ou seja, ela gerencia bem os custos variáveis, porém sente o mesmo impacto que o restante da cadeia.

Nos custos fixos, ela cita que tomou medidas para adequar a estrutura ao cenário. Entre as ações, estão coisas básicas, como suspensão das consultorias, renegociação de contratos de limpeza e vigilância, até providêncisa como devolução de pátios, além das medidas trabalhistas que foram amparadas pela medida provisória, como redução e suspensão de contratos de trabalho. E com esses ajustes, a empresa informa que acredita ser possível passar por esse momento de incertezas promovendo mais liquidez.

Em relação aos recebimentos dos clientes, a Tegma informa que no final do trimestre, em março, o saldo de clientes foi de R$ 154 milhões, e deste valor, 9% estavam vencidos, isso considerando os clientes que pararam produção. Ainda sobre a liquidez, a companhia informa que o caixa ao final do 1T2020 era de R$ 215,9 milhões, considerando os R$ 90 milhões que foram captados em abril. Sobre a dívida que vence nos próximos trimestres, são R$ 78,6 milhões, e segundo a companhia, a gestão está analisando os números para verificar a necessidade de rolar ou não os vencimentos.

Captação: R$ 50 milhões de Notas de Crédito de Exportação com Itaú, prazo de dois anos, taxa de CDI+3,8%, R$ 40 milhões com Santander na modalidade Res. 4.131, no prazo de um ano, a uma taxa de CDI+4%, uma operação sem risco cambial.

COVID-19 e Operação Automotiva

Os números no setor caíram, afinal, operação de produção para, logo a cadeia de sistemistas para com ela, e os recuos são significativos no trimestre, mesmo considerando que as paradas ocorreram a partir de março. Acompanhe os dados divulgados no ITR da companhia:

A produção de veículos comerciais leves recuou 16,8%; a queda na importação de veículos foi de 12,3%; as vendas de veículos no país caíram 8,2% na comparação com 1T2019; as vendas diretas aumentaram 4,1%, mas para o varejo a queda foi de 11,3%. Nas exportações o cenário não muda: recuo de 14,7% e os estoques aumentaram 10,1%, ou seja, é uma cadeia e o efeito é dominó.

E como a Tegma sentiu isso?

Na quantidade de veículos transportados, que recuou 12,6% em relação ao 1T2019; na exportação o recuo foi de 11,6% (mas o volume aqui é bem menor, cerca de 13,5%), e com isso veio a perda de market share, de 0,2 p.p.; ao final do trimestre a empresa detinha 25,7% do mercado, considerando as regiões onde atua. E com esse movimento, já era esperado que a distância média das viagens aumentasse, e foi o que ocorreu, um crescimento de 7,1% no período em relação a 2019. Já a distância média das exportações recuou 4,5% e a distância média total aumentou 6,7%. A quilometragem total, pelo menor volume operado, recuou 6,8% no mercado doméstico e 15,6% na exportação.

Acompanhe os resultados consolidados na imagem abaixo, retirada do ITR da companhia, referente ao 1T2020:

Imagem retirada do ITR da companhia 1T2020

A receita bruta consolidada recuou 5,9% no trimestre em relação ao 1T2019, a maior parte, como dito no início da nossa conversa, vem da receita do setor automotivo. Logo, o impacto da pandemia na cadeia alcançou a Tegma: a receita recuou 7,2% nesse segmento, e veja que 86,4% da receita está concentrada no setor e o restante na logística integrada, que aumentou a receita 2,7% em relação ao 1T2019. O Lucro Bruto recuou 5,9%, fechando o trimestre em R$ 58,9 milhões, e margem bruta de 21%, estável em relação ao 1T2019; já as despesas aumentaram 46,5%, encerrando o tri em R$ 32,1 milhões, segundo a empresa, devido a despesas advocatícias, de rescisão de executivos e também de provisão de contingências cíveis, além de despesas com troca de empresas que prestam serviços de auditoria.

O lucro operacional da companhia foi de R$ 26,8 milhões, número 34,2% menor que o apurado no 1T2020, com a margem caindo 1,4 p.p., para 9,6%, e adicionando na conta os não recorrentes, o lucro ajustado é de R$ 30,1 milhões, com margem de 10,7% no 1T2020.

No segmento automotivo a receita líquida foi de R$ 240,8 milhões, um recuo de 7% em relação ao 1T2019; o lucro bruto recuou 11,2%, finalizando o trimestre em R$ 50,2 milhões (85,2% do lucro bruto total); a margem bruta encerrou o trimestre em 20,8%, recuando 1 p.p em relação ao 1T2019, e isso ocorreu porque, afinal, com a queda nos volumes a receita diminui, mas os custos no trimestre não recuaram na mesma proporção, sendo que o recuo dos custos foi de  5,8%. A margem operacional foi de 7,6%, um recuo de 5,6 p.p., que ocorreu principalmente pelo volume menor, mas também pelo aumento das despesas citadas acima.

No segmento de Logística Integrada a receita bruta foi de R$ 46,8 milhões, a armazenagem aumentou 2,1%, representando R$ 8,7 milhões; a mais representativa é a logística industrial, com R$ 38,1 milhões de receita bruta, e aqui houve um aumento de 2,8% em relação ao 1T2019. A receita líquida foi de R$ 39 milhões, aumento de 3,2% em relação ao 1T2020, e o custo dos serviços prestados recuou 4,5%, finalizando o trimestre em R$ 30,3 milhões; o lucro bruto aumentou de R$ 6 milhões no 1T2019 para 8,7 milhões no 1T2020; a margem bruta subiu de 16% para 22,2% na mesma base comparativa. O lucro operacional aumentou de R$ 6,6 milhões para R$ 8,5 milhões, com a margem crescendo 4,5 p.p., para 21,9%, e o crescimento dos resultados, segundo a empresa, se deve ao setor de operações de químicos e eletrodomésticos.

O resultado financeiro da companhia foi negativo de R$ 2 milhões, contra negativo de R$ 1,9 milhão no 1T2019, lembrando que grande parte das empresas sentiram mudanças no resultado financeiro, pois estavam com mais caixa (para manter a liquidez), e também porque a SELIC baixou razoavelmente na comparação com 1T2019. Outro fator importante a ser considerado é que a alíquota efetiva de IR foi negativa (-26,2%) devido à exclusão da receita do crédito outorgado de ICMS da base de apuração do imposto e do pagamento, lembrando que a alíquota nominal é de 34%.

A dívida líquida da companhia encerrou o trimestre em R$ 7,6 milhões; a dívida líquida/ebitda ajustado de 0x contra 0,3 do 4T19.

Imagem retirada do ITR da companhia 1T2020

O lucro líquido apurado no trimestre foi de R$ 19,3 milhões, recuo de 27,6% em relação ao 1T 2019. O market cap da companhia, segundo ela cita no ITR, estava em R$ 1,2 bi, ou R$ 17,51 por ação.

Para finalizar nossa conversa, a essas alturas você já percebeu que a redução de receita no segmento de logística de veículos devido a pandemia, que fechou atividades ainda em março, impactou no resultado final, e os custos não acompanharam esse recuo, caíram menos que a receita. Logo, a diluição ficou comprometida e a margem sentiu a pressão, além de maiores despesas, ou seja, negócios não produzem resultado com mágica, em um estalar de dedos, redução de custos não são efetuadas do dia para a noite, não sem antes um estudo de viabilidade de execução da estratégia e dos retornos ou como ela irá amenizar os impactos.

A dependência do setor automotivo foi o ponto fraco dela, mesmo considerando que normalmente é um ponto forte, já que ela detém grande parte do market share do setor no qual ela atua, e com as montadoras voltando a operar a produção, a cadeia volta com ela, embora os volumes ainda precisem ser adequados à demanda pós-pandemia. Conhecer como o negócio gera valor facilita a decisão de investimento, pois assim a medida do risco fica mais clara.

Falando de forma geral: esses eventos que mexem com o cenário, que mudam as dinâmicas de demanda, são uma prova de que negócios são dinâmicos e que bons negócios são aqueles que conseguem se adaptar às novas realidades, têm projetos para o amanhã, afinal, como disse Peter Drucker “não podemos prever o futuro, mas podemos criá-lo”.

Fonte: Patricia Rossari

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