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O investidor adora vender quando cai muito e quando sobe pouco

Existe uma regra muito conhecida no mercado financeiro que parece simples de entender, mas extremamente difícil de aplicar na prática. Corte os prejuízos rapidamente e deixe os lucros correrem. Essa lógica parece intuitiva, mas quando observamos o comportamento real dos investidores, os dados mostram exatamente o contrário. Um estudo acadêmico que analisou o comportamento de investidores brasileiros identificou que, na prática, as pessoas tendem a vender ações que estão subindo e manter por mais tempo aquelas que estão caindo. Esse comportamento é conhecido na literatura de finanças comportamentais como efeito disposição.

O estudo analisou dados reais de negociação de 274 investidores pessoa física, com registros de mais de 20 mil operações de compra e venda realizadas entre 2014 e 2020, obtidos a partir de uma corretora de valores. Esse tipo de base é particularmente relevante porque reflete decisões reais de investimento e não simulações ou experimentos. Em média, cada investidor realizou 94 operações de compra e 66 operações de venda ao longo do período analisado, o que indica um nível razoável de atividade no mercado. Mesmo assim, o comportamento observado apresentou forte evidência de vieses comportamentais.

Para identificar o efeito disposição, o estudo compara duas métricas. A primeira é a proporção de ganhos realizados, chamada de PGR, que mede com que frequência investidores vendem posições que estão em lucro. A segunda é a proporção de perdas realizadas, chamada de PLR, que mede com que frequência investidores realizam prejuízos. Se investidores fossem plenamente racionais, esperaríamos que perdas fossem realizadas com frequência semelhante ou até maior que ganhos. No entanto, os resultados mostram o contrário.

No conjunto de dados analisado entre 2014 e 2020, a proporção de ganhos realizados foi de 0,1976, enquanto a proporção de perdas realizadas foi de 0,1513. A diferença entre essas duas proporções foi estatisticamente significativa, indicando que investidores têm maior tendência a vender ativos com lucro do que ativos com prejuízo. Em termos práticos, os resultados indicam que uma ação que estava no lucro tinha cerca de 31% mais chance de ser vendida do que uma ação que estava no prejuízo. Esse resultado confirma a presença do efeito disposição entre investidores brasileiros.

O estudo também analisou separadamente o comportamento dos investidores em 2020, um ano marcado por grande volatilidade nos mercados devido à pandemia de Covid-19. Nesse período, foram registrados 1188 ganhos realizados e 971 perdas realizadas, além de 5170 ganhos não realizados e 4386 perdas não realizadas nas carteiras dos investidores. Mesmo em um ambiente de forte incerteza, o padrão geral de comportamento continuou consistente com o efeito disposição.

No entanto, uma exceção interessante apareceu quando os dados foram analisados mês a mês. Em março de 2020, momento em que a Organização Mundial da Saúde declarou oficialmente a pandemia e os mercados globais sofreram fortes quedas, o efeito disposição praticamente desapareceu. Nesse mês, a proporção de ganhos realizados foi de 0,2346, enquanto a proporção de perdas realizadas foi de 0,2335, diferença praticamente nula. Esse resultado sugere que, em momentos de estresse extremo no mercado, investidores passam a agir de forma diferente, buscando limitar perdas independentemente de a posição estar em lucro ou prejuízo.

Outro período em que o efeito disposição não aparece de forma significativa é dezembro. Nesse mês, a diferença entre as proporções de ganhos e perdas realizadas não é estatisticamente relevante. Uma explicação possível está relacionada à tributação, já que investidores podem realizar prejuízos no final do ano para compensar ganhos e reduzir o imposto devido em operações com ações.

O estudo também separou os investidores entre os 10% mais ativos em número de operações e os demais 90%, observando que o efeito disposição continua presente em ambos os grupos. Entretanto, ele é um pouco menor entre os investidores mais ativos, possivelmente porque esses investidores utilizam estratégias mais estruturadas, como regras de stop loss, que reduzem a influência de fatores emocionais nas decisões de venda.

De forma geral, os resultados mostram que investidores brasileiros apresentam forte propensão ao efeito disposição, comportamento que já foi identificado em diversos mercados ao redor do mundo. Isso significa que, na prática, muitos investidores acabam vendendo cedo demais os ativos que estão performando bem e mantendo por mais tempo aqueles que estão gerando prejuízo. Esse padrão pode prejudicar a performance das carteiras no longo prazo, pois tende a concentrar o portfólio justamente nos ativos de pior desempenho.

Referência

BARRETO, Pedro Lucas de Albuquerque; BARBEDO, Claudio Henrique da Silveira; CAMILO-DA-SILVA, Eduardo. Disposition Effect: Brazilian Investors’ Behavior during the Covid-19 Pandemic. Brazilian Business Review, v. 20, n. 1, 2023.

Grande abraço,

João Pedro Mello

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