Saraiva – Sled4: O fim das livrarias?

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Saraiva – Sled4: O fim das livrarias?

“Não há livro tão mau que não tenha algo de bom.” – Miguel de Cervantes

Mais uma vez trago a você leitor uma análise de varejo. Um negócio que já foi um modelo de êxito e hoje vê seu valor de mercado reduzir R$1,8 bilhões em menos de 10 anos e a cotação retrair mais de 95%. Mais uma prova de que nenhum ativo cresce e dá lucro eternamente, que mercados consumidores são dinâmicos e que as companhias precisam estar atentas a esses ciclos, além obviamente de evitar projetos desastrosos e sem retornos adequados que são capazes de afundar qualquer negócio.

E mais uma vez a retomada do negócio ocorre por meio da reestruturação da cadeia logística, ou seja, a logística é determinante no sucesso ou fracasso do negócio. E eu repetirei isso quantas vezes forem necessárias.

Para entender melhor o que ocorreu, entenda a empresa:

Foi em 1914 que um imigrante português, Joaquim Ignácio da Fonseca Saraiva, inaugurou uma loja de livros usados, a “Livraria Acadêmica”, próxima a uma universidade em São Paulo, logo tornou-se referência para professores e alunos que por ali circulavam. Antes de 1920 já existia a editora, o primeiro livro publicado foi “Casamento Civil”, o foco desse início, até pela demanda do público universitário, foi o segmento jurídico.

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Somente a partir da década de 70/80 ocorre a expansão da rede, com abertura de lojas em vários estados do país, na década de 90 a editora entra no ramo dos livros paradidáticos, primeiramente do ensino fundamental e médio e depois a nível universitário, e foi uma das primeiras redes de varejo a vender pela plataforma digital, em 1998.

Abertura de capital de Saraiva ocorreu na década de 70, mas na época as ações não tinham liquidez, isso porque estavam em posse de apenas dois  investidores, uma seguradora e o BNDES. Em 1996, as ações saíram dessa situação e o mercado então teve acesso a elas, o que triplicou o número de transações realizadas entre 1996 e 1997.

Em 2015, o grupo vende todos os serviços editoriais, focando no varejo físico e e-commerce. E, na semana passada anunciou que não irá mais comercializar nas lojas físicas produtos de tecnologia, esses serão vendidos apenas em regime Marktplace próprio.

Outro anúncio de Saraiva foi em relação ao fechamento de 19 lojas no país, ficando agora com 84 lojas em funcionamento, e deixando claro que pretende aumentar foco no e-commerce que corresponde hoje a quase 40% do faturamento da companhia.

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Como isso aconteceu?

Observe a imagem abaixo:

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Fonte: FIPE

Percebemos pela imagem acima que a Saraiva não é uma exceção no ramo, pelo contrário, a rede Cultura pediu Recuperação Judicial e em 2013 a rede de livrarias Laselva pediu recuperação judicial, mas infelizmente o plano não foi bem-sucedido e nesse ano a justiça decretou a falência da companhia.

Mas se engana quem pensa que a situação delas (saraiva e cultura) era tranquila a 5 anos atrás (2013). Na verdade, nos últimos anos a sobrevivência das empresas estava fortemente vinculada a empréstimos do BNDES e demais bancos para financiar uma expansão que não deu certo, por isso, nós do Dica de Hoje, insistimos tanto para que você preste atenção as estratégias adotadas pela gestão do ativo em que estas investindo seu dinheiro. Observe o movimento da cotação nos últimos anos:

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Em dezembro de 2010 o ativo estava cotado a R$ 45,50 o que significa que nos últimos 8 anos o preço cedeu 95,3%. O valor de mercado da companhia cedeu de R$ 1,8 bilhão topo apurado em janeiro de 2011 para 55.807.200 hoje dia 14/11.

Os números mais antigos indicavam crescimento constante:

De 1998 a 2007 um CAGR de  14,6% a.a

De 2003 a 2007 um CAGR de  15,1% a.a

De 2005 a 2007 um CAGR de   24,1% a.a

E abaixo os resultados de 2009 e 2010

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Fonte: ADVFN

Agora observe o movimento do resultado da empresa de 2012 a 2018:

 

Fonte: ADVFN

 

É nítida a deterioração dos números de Saraiva ao longo dos anos, lembrando que 2015 houve a venda dos negócios editoriais, o que foi um não recorrente, na tabela acima isso fica claro. E se você sabe analisar empresas, percebeu isso antes de ler essa parte do texto.

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Fonte: ADVFN

Agora, a estratégia se mostra mais clara: trabalhar com número de lojas reduzido e com espaços menores nas que ficarem abertas, foco total no negócio principal, ou seja, em livros, e a partir daí reencontrar o cliente, criando estratégias viáveis e reais e voltar a crescer.

Mas, os últimos resultados mostram a fragilidade do negócio e um risco elevado ao investidor, veja:

Segundo trimestre de 2018: prejuízo de R$ 37,6 milhões, número 126,5% maior que o prejuízo do mesmo tri de 2017, que foi de R$ 16,6 milhões, ainda no trimestre em questão a receita líquida totalizou R$ 364,5 milhões, sendo 62,5% nas lojas físicas, e 4,1% menor do que o mesmo tri de 2017 e 37,44% no e-commerce, número 3% menor que o ano anterior.

O faturamento foi próximo ao apurado ao de 2010, mas a margem bruta reduziu mais de 10%, saindo de 40,8% para 29,5%.

Terceiro trimestre de 2018: receita bruta diminuiu 19,4% e a receita liquida 17,1%, o e-commerce teve uma queda maior quando comparados com as lojas físicas, 26,1% versus 15,2% na física, prejuízo líquido de R$ 66,6 milhões, quase o dobro do prejuízo no terceiro trimestre de 2017.

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Estratégias de Recuperação

Com o fechamento das 11 lojas físicas da livraria e das 8 unidades da iTowns e com o corte de 700 funcionários a empresa prevê uma redução de custos operacionais, no terceiro trimestre a queda nos custos foi de 11,7%.

Nesse terceiro trimestre de 2018 o prazo médio de recebimento passou de 62 dias no 3º trimestre de 2017 para 55 dias no 3º trimestre de 2018, já o prazo médio de cobertura de estoques aumentou de 91 dias para 110 dias, e houve uma melhora no prazo de pagamento a fornecedores, agora são 126 dias versus 86 dias no 3º trimestre de 2017.

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Em relação as novas unidades para continuar a redução de custos, existe a proposta de loja ideal, sendo o investimento em capex/m², em torno de 25% menor que o modelo anterior, com o intuito de acelerar o payback.

Outra medida aplicada é a do Projeto Sortimento, onde os parâmetros do sistema (algoritmos de reabastecimento), buscam melhorar a assertividade e acuracidade dos estoques existentes em cada loja, para quem não entende a importância do impacto da gestão de estoques recomendo ler meu artigo –Custo de Estoque.

Ajuste logístico na distribuição com implantação de Transit Points (estratégia para atender clientes distantes dos CDs centrais, como uma instalação de passagem, que recebe a mercadoria consolidada e separa para entregas a clientes individuais, nessa modalidade os produtos que são recebidos já tem destino certo, ou seja, podem imediatamente ser distribuídos), com isso eles buscam reduzir custos de transporte e melhorar o lead time (tempo de ciclo) de entrega, seja para suprir a loja física da rede, ou para entregar os produtos vendidos pelo e-commerce.

 

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Essa nova estratégia logística de Saraiva vai o processo de suprimento das lojas, vai melhorar muito a competitividade do e-commerce, pois os produtos serão entregues mais rapidamente(redução do lead time de entregas), que hoje em relação a Amazon é muito grande, e então aumentar a eficiência operacional, tornar o processo que gera o valor para números positivos.

Expansão do Marktplace próprio, modelo onde lojas parceiras vendem na plataforma da rede. Para entender melhor o impacto dessa modalidade na receita das empresas, recomendo ler o material sobre MGLU3 e B2W – Lame4 : MGLU3 e B2W – Lame4.

Além de expandir as parcerias Marktplace, ou seja, vender os  produtos da rede em sites de outras empresas: Wal-Mart, Mercado Livre e B2W.

Confira abaixo os principais indicadores, retirados do release da empresa:

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E a Dívida?

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Fonte: Release da companhia

Nesse trimestre houve renegociação da dívida, devido a esse fato ocorreu a liberação de recebíveis em garantia no valor de R$ 20 milhões (Itaú), e R$ 20 milhões com o Banco do Brasil, devido a alteração do tipo de garantia oferecida.

Isso significa hoje uma dívida bruta/Patrimônio de 0,51x

Com um PL de -0,52

P/VPA 0,17

VPA 11,97

ROE negativo

Sem crescimento de receita.

Concluindo

A companhia é antiga e tem história, aliás uma bela história. Porém, negócios não sobrevivem apenas porque têm marca/nome e história no mercado. É preciso produzir, gerar riqueza, gerar valor com seu processo principal, entender a dinâmica de consumo do público, perceber a mudança antes que ela ocorra e principalmente não “dar o passo maior do que a perna”.

Ela fatura, mas está estagnada, está diminuindo custos com medidas de reestruturação no processo que gera maior valor, mas ainda tem prejuízo. Está flexibilizando os prazos de pagamento para ter mais tempo de ciclo, renegociando dívida e abandonando processos que não geravam retorno adequado (eletrônicos) e que demandavam um capital de giro quase igual ao segmento de livros.

Eu sou fã de livrarias, minhas filhas e eu visitamos a Saraiva e a Cultura semanalmente e esperamos que ambas consigam se reestruturar e surgir ainda mais fortes.

Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever – inclusive a sua própria história. Bill Gates

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Caso tenha alguma dúvida ou se quiser fazer um comentário, é só escrever na área de comentários abaixo desse artigo.

Até a próxima semana.

Patrícia Rossari.