Crises não se resolvem no grito, e não existe previsão com 100% de acerto.

De Olho na Gestão Nº7

“Na estratégia, decisiva é a aplicação.

Napoleão Bonaparte”

A crise financeira também derrubou o mito que cresceu em meio ao mandato de Greenspan, de que o Federal Reserve poderia ajustar a economia e eliminar o ciclo econômico. Entretanto, embora não tenha percebido a fermentação da crise, o Federal Reserve agiu rapidamente para garantir a liquidez e evitar que a recessão se tornasse bem mais grave do que se revelou.

A crise financeira de 2008 é bem explicada pela seguinte analogia: não há dúvida de que os avanços da engenharia tornaram os carros de passeio bem mais seguros do que eles eram há 50 anos. Mas isso não quer dizer que o automóvel é seguro em qualquer velocidade. Hoje, uma pequena irregularidade na estrada pode atirar para o ar o automóvel mais avançado a uma velocidade de 190 km/h com a mesma certeza que um modelo mais antigo a 130 km/h. Durante a Grande Moderação, os riscos eram de fato menores e as empresas financeiras alavancaram racionalmente seu balanço patrimonial em virtude disso. Contudo, essa alavancagem tornou-se extremamente grande e bastou um aumento imprevisto no índice de inadimplência em hipotecas subprime – a “irregularidade na estrada” – para arremessar a economia em uma crise.”

Alguns livros são clássicos, ajudam muito na jornada do empreendedor e/ou investidor do mercado financeiro. E um deles é: Investindo em ações no longo prazo, escrito por Jeremy Siegel, do qual retirei o trecho acima.

E então, o que podemos aprender com as crises?

Em uma frase, eu diria: nunca subestime a capacidade do mercado projetar resultados que dificilmente irão se realizar.

O que isso significa para você que quer empreender, que quer investir seu dinheiro?

Que um negócio deve ser avaliado de forma qualitativa e quantitativa, levando em consideração:

  • Indicadores macroeconômicos que influenciam direta e indiretamente o negócio.
  • Taxa de risco, que é calculada de acordo com a análise qualitativa, pois leva em consideração o quanto dos resultados projetados podem ocorrer de fato. Aqui entra a análise setorial e conhecimento de como o negócio gera valor, seus pontos fortes e fracos, afinal, o que caracteriza a competência de um negócio são a integração e a coordenação de um conjunto de habilidades, conhecimento e atitudes, que na sua manifestação produzem uma atuação diferenciada. Essas ações são estratégias e têm como objetivo traçar ações que minimizem o efeito da competição e maximizem seus próprios resultados, e análise qualitativa busca encontrar no mercado um posicionamento estratégico que permite estar à frente de seus pares. Assim se constroem empresas de sucesso.
  • Taxa de retorno esperada naquele investimento, para ajuste do seu objetivo com o que de fato é passível de ocorrer em determinadas situações de mercado.

Oi? O quê?

Tu realmente achas que modelar se baseia apenas em uma possibilidade de cenário?

Não é assim que funciona. Precisamos estimar cenários para prever como seria possível manter a existência do negócio, ou seja, saber o que fazer e se seríamos capazes (R$) de fazer.

Crises irão ocorrer independentemente da vontade do gestor ou do investidor; o que vai determinar o resultado é como ambos se preparam e como reagem a elas quando ocorrem. E antes que você pense – “sobreviver a crises? Isso é uma questão de sorte” – lembre-se que parte da estratégia de crescimento que permitiu a inovação da Renner ao longo das décadas, ocorreu através da absorção dos pontos que antes eram da Mesbla e do Mappin, as massas falidas. Ou seja, o sucesso do negócio e o retorno que ele gera estão ligados à capacidade de se adequar à evolução do mercado consumidor, à inovação, não fechar os olhos para a concorrência, ao fato de aceitar que nenhuma empresa, por mais essencial que seja seu produto ou serviço, é imune ao cenário externo somente pelo fato de que possui uma “marca forte”.

Podemos usar também outro exemplo clássico, a teoria do economista Hyman Minsk, para você entender melhor esse movimento dinâmico, onde ele demonstra a relação entre investimento e poupança e como isso pode originar ciclos econômicos, além do fato de que a estabilidade produz a instabilidade. Isso significa que os investidores otimistas com o mercado e suas projeções têm uma tendência de exagerar na precificação dos ativos, e acabam assumindo mais riscos, e quando as projeções não se confirmam, ou são menores que o esperado, ocorre uma instabilidade no sistema.

Usando a crise de 2008, ou nossa recente recessão de 2015-2016, ou o ano da pandemia – 2020, observe como o mercado é dinâmico: em 2008, após atingir o ponto crítico índice abaixo dos 38 mil pontos, vimos a estabilidade do pós-recessão, com otimismo e o índice rompendo 85 mil pontos. Porém o PIB não reagiu da forma esperada e então uma nova instabilidade na dinâmica do mercado surgia: recessão, impeachment, índice cai vertiginosamente e as taxas dos títulos do governo sobem com força, sem dó. E então o vice assume e o mercado vê luz no fim do túnel, afinal, a economia e a política são casadas, em comunhão total de bens, diga-se de passagem.

O vice, que então se tornou presidente, renova as esperanças, mas não faz milagres, isso porque ninguém vence o sistema, ninguém tem mais força que a máquina. Ela engole e cospe quem ela quiser: a grande empresa, a pequena empresa, o agricultor. Tudo o que movimenta a economia é gerido de acordo com as cartas que o sistema dá.

Mudam os jogadores, mas não as cartas. Então vem a eleição e a força das redes sociais dá o tom da conversa e inaugura-se uma nova forma de poder da informação descentralizada, e sabemos que as preocupações com as informações estão na pauta dos conflitos internacionais, “os dados são o novo petróleo”.

A eleição de 2018 agradou o mercado, as reformas entraram nas rodas de discussão, o risco país entrou em modo “vamos virar a mão”, falava-se em privatizações, desonerações, etc. E eis que surge a visita indesejada, aquela que ninguém gosta de receber: a pandemia.

E aqui reservo um espaço para, mais uma vez, falar o óbvio: as projeções de resultados precisam ser baseadas na capacidade de assumir as demandas do mercado consumidor, seja em qualidade, quantidade, preço ou inovação, e essas projeções são baseadas na capacidade de repetir e melhorar o desempenho do passado, o que significa dizer que no longo prazo a consistência e a rentabilidade de um negócio dependem da curva de demanda e oferta e todas as suas variáveis (cadeia).

Voltando para a teoria de Minsk e seus estágios:

  • Mudança: um exemplo disso é quando taxa de juros está em queda e a inflação sob controle – passamos por isso nos últimos anos.
  • Apogeu: quando existe a expectativa de lucro crescente em percentuais elevados, afinal, com taxas menores os investimentos são maiores, desde que o risco-país colabore com a festa. Com um custo de capital menor e menos insegurança em relação ao Estado, é natural que a economia cresça de forma orgânica.

OBS: Aqui vale lembrar que um negócio só agrega valor quando proporciona uma expectativa/projeção de retorno superior a seu custo de capital. Sempre que a empresa adota medidas que elevam a taxa de reinvestimento, acaba produzindo fluxos de caixa disponíveis menores, mas a variável aqui é se o retorno do capital reinvestido é maior do que a remuneração mínima exigida no investimento, isso porque a empresa terá um aumento de valor.

  • Euforia: as projeções são de lucros em crescimento perpétuo, tudo é ruptura, vale a pena empreender em quase tudo, vamos captar via IPO, vamos vender negócios inteiros ou partes, vamos fazer modelagens coloridas para mostrar aos donos do dinheiro que somos uma oportunidade imperdível, sem riscos (contém ironia).

OBS: Quando a taxa de juros aumenta, o custo ponderado de capital será maior. Isso significa que somente projetos com retornos maiores são viabilizados (quando existe alta de juros, o WACC desacelera a economia; quando os juros estão em baixa, ele faz a economia crescer).

  • Realização dos lucros: está na hora de acordar Alice. Esse movimento altera o viés, dando início à reversão, onde os resultados não acompanham as estimativas que serviram como previsão para definir o “valor” dos negócios.
  • Pânico: aqui entra em cena a irracionalidade que surge nas crises, onde o financiador do negócio percebe que nem tudo são flores, que no mundo dos negócios somente é perpétua a incerteza/dinamismo dos mercados.

Setores atravessam crises; sobrevivem os melhores negócios, os que conseguem fazer uma gestão eficiente dos recursos, mesmo em cenários onde os juros e a inflação, que determinam os ciclos de investimentos, não são os mais favoráveis. Afinal, como citado no início da nossa conversa, basta a “irregularidade na estrada” para arremessar a economia em uma crise.

“Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir.

Winston Churchill

 

Patrícia Rossari.

Gestão & Logística.

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Patricia Rossari

Meu nome é Patrícia Rossari, tenho 39 anos. Sou especialista em Gestão de Negócios MBA, pós graduada em Logística, vinte anos de experiência como analista e auditora.