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Sobre mistérios convenientes, certezas mal testadas e o custo financeiro de pensar sem método

Por Patricia Rossari

O desconhecido sempre foi um terreno fértil para bobagens bem articuladas. Quando o que sabemos é pouco ou quando nos recusamos a estudar o cérebro entra em modo criativo. E criatividade sem método vira superstição com verniz intelectual é assim que sementes viram árvores gigantes no imaginário coletivo e que fenômenos banais ganham status de mistério insondável.

Não é difícil encontrar gente sinceramente fascinada por ímãs, pirâmides, Stonehenge ou qualquer coisa antiga o suficiente para parecer profunda. Há algo de sedutor em acreditar que certas respostas estão além da compreensão humana moderna. Confere charme, sensação de humildade cósmica e dispensa esforço analítico, o problema é que a ciência essa chata metódica já explicou boa parte do espetáculo, o universo externo e o interno, inclusive aquele que abriga nossas convicções mal testadas.

Isso frustra fãs do inexplicável, mas explica por que o entretenimento paranormal precisa exagerar no clima, na edição e na trilha sonora. Onde faltam evidências, sobra dramatização. No fundo, não é muito diferente do mercado financeiro quando a narrativa anda melhor que os números.

E aqui a coisa começa a ficar familiar ao investidor, fora da ciência, floresce uma indústria inteira dedicada a explorar nosso vício por padrões, cristais, ciclos místicos, indicadores alternativos, teorias que explicam tudo depois que tudo já aconteceu. Você busca causa e efeito, ótimo. Mas, quando a causa é incerta, comete o erro clássico de tratar qualquer explicação como igualmente válida, mas não são.

Esse erro tem nome e sobrenome, é decidir que algo é verdadeiro só porque você não conseguiu provar que é falso, não sei o que é, logo pode ser qualquer coisa. Talvez aquelas luzes sejam alienígenas, talvez aquele retorno absurdo seja talento puro, talvez aquela empresa sem lucro esteja apenas no começo da curva.  Você não sabe, então finge que todas as hipóteses têm a mesma probabilidade, mas não têm.

No mercado, essa falácia custa caro, estratégias sem base estatística viram inovadoras, gestores sem histórico consistente viram visionários incompreendidos. Ativos sem geração de caixa viram opções assimétricas. A ausência de prova contra vira argumento a favor, é intelectualmente preguiçoso e financeiramente perigoso.

Importante deixar claro, a falta de evidência não confirma nem refuta nada, não sabemos se há vida fora da Terra, mas isso não autoriza nem o delírio nem a negação dogmática. Do mesmo modo, não saber quando um ciclo econômico termina não transforma qualquer palpite em insight valioso, incerteza não é salvo-conduto para crença conveniente.

Mas atenção mente aberta demais também dá problema, há fatos suficientemente documentados que não merecem ceticismo performático. Questionar indefinidamente o que já foi amplamente demonstrado não é rigor, é teimosia travestida de prudência. No mercado, isso aparece quando alguém ignora balanços auditados, séries históricas longas ou consensos robustos porque sempre pode haver algo escondido.

A probabilidade importa.

O investidor adulto aprende a conviver com o desconforto de não saber sem recorrer à magia, ele separa mistério de risco mensurável, narrativa bonita de evidência concreta, intuição de viés cognitivo. Não precisa explicar tudo, precisa evitar explicações ruins.

No fim, não há nada de místico nisso, disciplina intelectual é pouco atraente, mas funciona. E o mercado, sejamos honestos, não pune quem admite ignorância, pune quem faz dela um método de decisão.

 

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