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Por que você é mais dolarizado do que pensa

Quando o dólar sobe, muita gente pensa: “Isso não me afeta, eu não viajo, não compro iPhone todo ano e não tenho dívidas em moeda estrangeira”. Parece lógico, mas está errado. A verdade é que o câmbio influencia o seu custo de vida mesmo que você nunca tenha pisado em Miami, nunca tenha comprado no AliExpress e viva à base de arroz, feijão e pão francês.

O estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que a moeda americana e, por tabela, outras moedas fortes, está infiltrada na sua cesta de consumo, nos preços que você paga e até na sua aposentadoria futura. E a conclusão foi que ignorar a diversificação internacional é como deixar a porta aberta durante um temporal e torcer para a chuva não entrar.

O Brasil é campeão mundial no viés doméstico

No jargão financeiro, viés doméstico é a mania que investidores têm de concentrar a carteira no próprio país. É um fenômeno mundial, mas, segundo dados da Anbima, o Brasil está no pódio, e não é pelo motivo que gostaríamos.

  • Em renda fixa, apenas 1,11% dos recursos estão investidos no exterior.
  • Nos fundos de ações, 1,97%.
  • Em multimercados, um pouco melhor: 7,71%.
  • Ponderando tudo, chegamos a 1,56% do patrimônio dos fundos brasileiros exposto lá fora.

Ou seja, a imensa maioria dos investidores brasileiros está concentrada em ativos domésticos, ignorando riscos políticos, econômicos e cambiais que afetam justamente o nosso poder de compra.

O câmbio está na sua vida, queira ou não

O Brasil importa, em média, 10,1% de tudo o que consome. Parece pouco? Lembre-se de que:

  • A maioria dos eletrônicos vendidos aqui é importada ou tem peças importadas.
  • Combustíveis são sensíveis ao câmbio, mesmo com produção interna.
  • Medicamentos dependem de insumos externos.
  • Veículos e autopeças importadas encarecem o transporte.
  • Até alimentos como trigo são dolarizados.

E não é só o produto final que importa. Mesmo algo “100% nacional” pode ter insumos importados: da máquina que processa o alimento ao software que roda no caixa do mercado. O efeito indireto é poderoso: o estudo estima que entre 10% e 25% da sua cesta de consumo é afetada direta ou indiretamente pelo câmbio.

IPCA+ não te protege

Há quem ache que títulos como o Tesouro IPCA+ são um escudo contra a alta do dólar. Afinal, se o IPCA mede a inflação e a inflação sobe quando o câmbio dispara, a lógica parece funcionar. Mas o estudo da FGV desmonta essa crença:

Nos últimos 10 anos, a variação do dólar foi quase o dobro da rentabilidade do Tesouro IPCA+ 2040. Em outras palavras: o IPCA+ protege contra inflação interna, mas não contra a desvalorização da moeda frente a outras economias.

O trabalho dos professores Claudia Emiko Yoshinaga, Francisco Henrique Figueiredo de Castro Junior, Ricardo Ratner Rochman e William Eid Junior usou uma metodologia chamada Análise de Estilo (Returns-Based Style Analysis). O objetivo: quantificar quanto da inflação sentida por cada faixa de renda no Brasil vem, direta ou indiretamente, de variações cambiais.

O passo a passo simplificado foi:

  1. Mapear a cesta de consumo por faixa de renda (dados do IPEA).
  2. Separar os itens em categorias como alimentos, transporte, saúde, educação etc.
  3. Retirar o efeito cambial já embutido nos preços (ortogonalização).
  4. Medir quanto da inflação é explicada pelo câmbio atual e por defasagens (lags), já que o repasse não é imediato — leva meses para chegar ao consumidor.
  5. Incluir gastos no exterior (viagens, educação) e volatilidade cambial para refinar a recomendação.

O que o estudo encontrou?

  • Mesmo depois de remover efeitos indiretos, o câmbio responde por 11% a 14% da inflação da cesta de consumo dos brasileiros, dependendo da faixa de renda.
  • Rendas mais baixas sofrem mais: impacto de até 13,93%, porque gastam mais em itens básicos sensíveis ao dólar (alimentos, combustíveis).
  • Rendas mais altas têm impacto menor, mas gastam no exterior, o que aumenta sua exposição.
  • Considerando a volatilidade histórica do câmbio (coeficiente de variação de 22,6%), o percentual mínimo recomendado de investimentos no exterior sobe para 16% a 18% da carteira, apenas para proteger o poder de compra.

Por que 16% a 18% não é “exagero”

Esses números não são uma recomendação de diversificação completa, são o piso para neutralizar o risco cambial. Em uma estratégia de investimento mais ampla, que busque oportunidades fora do Brasil e reduza riscos políticos e setoriais, esse percentual tende a ser bem maior.

Além disso, diversificar internacionalmente não serve só para fugir da inflação importada:

  • Permite acesso a setores pouco representados no Brasil, como tecnologia, biotecnologia e semicondutores.
  • Reduz a correlação da carteira com o ciclo econômico e político local.
  • Aumenta a estabilidade de longo prazo do patrimônio.

O estudo da FGV deixa pouco espaço para dúvidas: o investidor brasileiro está mais exposto ao dólar do que pensa. Ignorar essa realidade é abrir mão de uma das proteções mais básicas contra perda de poder de compra. E não se trata de apostar contra o Brasil, é apenas reconhecer que a economia é global, que nossa moeda é volátil e que, como mostrou a história, crises internas e externas podem disparar o câmbio em pouco tempo.

Se proteger não é pessimismo. É como andar de guarda-chuva num dia nublado: pode não chover, mas se chover, você agradece ter levado.

Referência: Yoshinaga, C. E., Castro Junior, F. H. F., Rochman, R. R., & Eid Junior, W. (2024). O impacto cambial no consumo dos brasileiros e a necessidade de diversificação internacional. Fundação Getulio Vargas – FGV EAESP, Centro de Estudos em Finanças (FGVcef). Outubro de 2024.

Até logo,

Karol Weber.

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