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COE: o cliente fica com o risco e a corretora com o lucro

Nos últimos anos, os Certificados de Operações Estruturadas (COEs) ganharam espaço nas prateleiras de bancos e corretoras. Vendidos como instrumentos inovadores, seguros e acessíveis, os COEs prometem ao investidor participar da alta de ativos de risco com “proteção de capital”. No entanto, sob esse verniz sofisticado, existe uma estrutura complexa, assimétrica e muitas vezes desfavorável para o investidor.

Um COE é um título emitido por uma instituição financeira que combina ativos de renda fixa com derivativos. A ideia é criar uma estrutura que permita ao investidor se expor a cenários de alta de determinados ativos (como ações, moedas ou índices internacionais), mas com proteção parcial ou total do capital investido. Existem dois tipos principais:

  • COE com capital protegido: o investidor recebe de volta o valor inicial no vencimento, mesmo que o cenário de mercado não se concretize.
  • COE com capital em risco: o investidor pode perder parte ou todo o capital, dependendo da performance dos ativos de referência.

Essa estrutura é criada por meio de uma aplicação em renda fixa (por exemplo, um CDB que vence no mesmo prazo do COE) e um pacote de derivativos (geralmente opções) que são comprados com o restante dos recursos.

COE na prática

Imagine um investidor aplicando R$ 100 mil em um COE com vencimento em 5 anos. O ativo de referência é o Ibovespa, e o banco oferece o seguinte cenário:

  • Se o Ibovespa subir até 50%, você ganha no máximo 30% de retorno bruto.
  • Se o Ibovespa subir menos que 50%, você pode receber apenas o valor investido.
  • Se o Ibovespa cair, você ainda recebe o capital de volta (caso seja do tipo com capital protegido).

Vamos aos cenários:

Cenário Ibovespa Valor Final (COE) Valor se tivesse aplicado no CDI (10% a.a.)
1 +70% R$ 130.000 R$ 161.000
2 +10% R$ 100.000 R$ 161.000
3 -20% R$ 100.000 R$ 161.000

Na prática, o investidor abre mão de retornos ilimitados e do CDI em troca de um ganho travado, condicionado a um cenário específico. A perda é invisível, mas está no custo de oportunidade: quem escolheu o COE, mesmo acertando o movimento de alta da bolsa, ganhou menos.

Os riscos ignorados na venda

Apesar de frequentemente vendidos como “seguros”, os COEs carregam riscos relevantes:

  • Risco de crédito: COEs não têm cobertura do FGC. Se o banco emissor quebrar, o investidor perde tudo.
  • Risco de mercado: o ganho depende de um cenário específico (normalmente difícil de atingir). Em 80% dos casos, o investidor sai apenas com o capital devolvido.
  • Risco de liquidez: não há mercado secundário estruturado. Se precisar do dinheiro antes do vencimento, o investidor pode receber bem menos.
  • Risco de estrutura: o investidor está comprando uma opção mal precificada, paga caro por algo que tem chance limitada de sucesso.

O investidor não percebe esses riscos porque o COE é desenhado de forma a parecer simples. Na verdade, ele é resultado de uma engenharia financeira sofisticada que transfere o risco e a assimetria ao investidor.

Conflito de interesses

Aqui está o ponto crítico: o COE é altamente rentável… para quem vende.

  • O assessor ou gerente recebe uma comissão no momento da aplicação, independente do que acontecer nos próximos anos.
  • O banco emissor lucra com a venda dos derivativos e com a aplicação em renda fixa.
  • O investidor, por sua vez, assume um risco assimétrico: pode não ganhar nada, mesmo que o mercado suba. E, se subir demais, o excesso de rentabilidade fica com o emissor.

O modelo de remuneração não está alinhado com o sucesso do cliente. O produto é vendido por sua atratividade estética e narrativa (“ganhe com a alta da bolsa sem risco”), não por sua eficácia em gerar retorno real.

O sucesso comercial dos COEs se explica por três fatores principais:

  1. Comissão alta para o distribuidor.
  2. Fácil de vender para um investidor inseguro, já que combina “bolsa” e “proteção”.
  3. Complexidade técnica que impede uma análise crítica por parte do investidor comum.

A prova disso está nas próprias plataformas: em 2024 o estoque de COEs no mercado brasileiro ultrapassava R$ 90 bilhões. Mesmo o produto virando alvo de investigações após denúncias de misselling (venda inadequada) e má transparência.

Conclusão

COEs não são fraudes, mas tampouco são o que parecem. Vendidos como inovação segura, são, na prática, instrumentos que limitam o potencial de ganho, escondem custos implícitos e transferem o risco para quem menos entende sua estrutura.

Na dúvida, lembre-se: se a estrutura parece boa demais para ser verdade, provavelmente beneficia mais o vendedor do que você.

A escolha por investir em um COE deve vir sempre acompanhada de uma compreensão técnica clara. E, acima de tudo, de uma pergunta honesta: quem está ganhando com essa estrutura, eu ou o banco?

Grande abraço,

João Pedro Mello

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