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Será que os analistas acertam ou só gostamos de acreditar em previsões do futuro?

Imagine a seguinte cena: você abre um relatório de uma grande corretora, dezenas de páginas, gráficos, modelos de valuation, fluxo de caixa descontado, EBITDA ajustado, e uma conclusão categórica: “Preço-alvo de R$ 47,00; potencial de valorização de 32%; recomendação: compra.”

Bonito, né? Mas aqui vai a pergunta que ninguém faz: essas projeções realmente acertam alguma coisa?

Ou pior: será que, no Brasil, os analistas são melhores que uma planilha de Excel com uma média móvel dos lucros passados?

Pois foi exatamente isso que três pesquisadores resolveram testar. O engenheiro Richard Saito, a analista Sonia Villalobos (a primeira brasileira a receber o título de CFA) e a pesquisadora Cristiane Benetti, todos ligados à FGV-SP, publicaram em 2008 um artigo que virou um pequeno clássico acadêmico: “Qualidade das projeções dos analistas sell-side: evidência empírica do mercado brasileiro.”

E o resultado, caro leitor, não é nada animador.

Os autores buscaram responder uma pergunta simples, mas crucial: Os analistas brasileiros realmente agregam valor às suas projeções de lucro?

Em teoria, sim. O analista sell-side, aquele que trabalha em corretoras e bancos, existe justamente para reduzir a assimetria de informação entre empresas e investidores. Ele coleta dados, conversa com gestores, interpreta balanços, estima o lucro por ação, e produz relatórios que orientam milhões de decisões no mercado.

E há boas razões para acreditar que isso deveria funcionar. Diversos estudos internacionais (Lang e Lundholm, 1996; Botosan, 1997; Chang et al., 2000) mostram que quanto melhor a qualidade das projeções dos analistas, maior tende a ser o valor de mercado das empresas e menor o seu custo de capital.

Mas essa relação sempre foi testada em mercados desenvolvidos, Estados Unidos, Europa, Japão, onde há estabilidade macroeconômica, padrões contábeis consolidados e previsibilidade.

E o Brasil, com seu histórico de juros estratosféricos, crises cambiais, mudanças contábeis e políticas imprevisíveis? A história, aqui, poderia ser bem diferente.

Entre 2000 e 2004, os autores analisaram 93 empresas brasileiras que tinham projeções de lucro feitas por analistas e disponíveis nos bancos de dados da Thomson I/B/E/S e da Economática.

A amostra gerou 306 observações (empresas x anos x horizontes de projeção).
Com esses dados, os autores construíram dois modelos estatísticos:

  1. Acurácia: o tamanho do erro da projeção, quanto o lucro estimado se desviou do lucro real.
  2. Viés: o sentido do erro, se o analista errou por otimismo (superestimando o lucro) ou pessimismo(subestimando).

A partir daí, testaram se esse erro estava relacionado a características das empresas, como:

  • Tamanho (ativos totais),
  • Endividamento,
  • Variabilidade dos lucros,
  • Presença de ADR (ações listadas no exterior),
  • Número de analistas que acompanham a empresa,
  • Convergência entre as projeções,
  • Setor de atuação,
  • Ano e horizonte da projeção (tempo até o balanço).

É um desenho estatístico robusto, inspirado em décadas de pesquisa internacional, mas aplicado, pela primeira vez, de forma sistemática ao mercado brasileiro.

Antes de olhar os resultados, vale entender o que eles esperavam encontrar. As hipóteses eram bem intuitivas:

  1. H1 — Quanto maior e mais acompanhada a empresa, menor o erro. Empresas grandes, com ADRs e muitos analistas deveriam ser mais previsíveis.
    Mais informação = menos incerteza.
  2. H2 — Quanto mais complexa e volátil a empresa, maior o erro. Endividamento alto, lucros variáveis e mudanças bruscas de resultado deveriam gerar mais imprecisão.
  3. H3 — O viés seria otimista. Os analistas tenderiam a superestimar lucros, especialmente em empresas com prejuízo, tanto por fatores comportamentais quanto por incentivos comerciais.

A parte mais interessante (e dolorosa) vem agora. Apesar das regressões estatísticas apresentarem bons níveis de explicação (R² de 0,38 para acurácia e 0,33 para viés), os fatores clássicos usados em pesquisas internacionais simplesmente não foram significativos no Brasil.

Em outras palavras: tamanho da empresa, endividamento, ADR, variabilidade de lucros, nada disso explicava o erro dos analistas brasileiros.

As únicas variáveis realmente relevantes foram:

  • Número de analistas: quanto mais analistas cobrindo a empresa, menor o erro médio, sinal de que o consenso coletivo reduz extremos individuais.
    (p-valor 0,021)
  • Prejuízo: empresas com resultado negativo apresentaram erros maiores e viés otimista, ou seja, os analistas insistiam em superestimar o lucro de quem dava prejuízo. (p-valor 0,0115 na acurácia e 0,0153 no viés)

Esses resultados sugerem que, no Brasil, os analistas projetam o futuro olhando o retrovisor.
A variável que mais explicava o erro de projeção era o resultado do ano anterior.

Se a empresa apresentava lucros estáveis, as projeções tendiam a acertar. Se os lucros eram voláteis, as previsões erravam feio. Ou seja, o analista não conseguia distinguir bem o que era tendência e o que era ruído, apenas extrapolava o passado.

Na prática, isso significa que um modelo simples de regressão estatística, baseado em séries históricas de lucro, teria desempenho parecido, ou até superior, às previsões humanas.

O que nos leva à pergunta central do artigo: Se o analista não acerta mais do que um modelo, onde está o valor agregado do seu trabalho?

As três possíveis explicações

Os autores levantam três hipóteses para explicar por que os resultados brasileiros destoam tanto dos estudos estrangeiros:

Falta de habilidade técnica

A primeira é direta: os analistas brasileiros do início dos anos 2000 ainda tinham pouca sofisticação técnica e ferramental. O mercado era menos desenvolvido, as corretoras investiam pouco em pesquisa, e boa parte dos relatórios se apoiava em análises qualitativas, não quantitativas.

Em outras palavras, o “modelo mental” do analista era mais intuição do que estatística.

Instabilidade macroeconômica

A segunda explicação é estrutural: o Brasil é um caos previsível. Durante o período analisado (2000–2004), o país enfrentou:

  • Crise cambial de 2002,
  • Transição política de FHC para Lula,
  • Juros reais acima de 10% ao ano,
  • E a forte volatilidade do câmbio e do PIB.

Com tantas variáveis fora do controle das empresas, até o melhor analista do mundo erraria. A incerteza macro “domina” todos os outros fatores.

Diferença de gestão de resultados

A terceira explicação é contábil: em mercados desenvolvidos, as empresas “administram” seus lucros com mais consistência, suavizam resultados, controlam provisões, reduzem volatilidade. No Brasil, os números corporativos são muito mais irregulares, o que torna a tarefa de previsão um jogo de adivinhação.

O viés otimista: o lado humano da análise

Um dos achados mais interessantes do estudo é o viés otimista, especialmente em empresas com prejuízo.

Há várias razões para isso:

  • Incentivos comerciais: analistas trabalham em corretoras que ganham com negociação e relacionamento com empresas. Publicar relatórios pessimistas pode “fechar portas”.
  • Pressão cognitiva: ninguém gosta de parecer “pessimista demais” num mercado dominado por narrativas otimistas.
  • Big bath: empresas tendem a concentrar todas as más notícias em um único exercício, tornando o prejuízo maior que o esperado.

Na prática, o analista prefere errar para o lado do otimismo, mesmo que isso signifique perder credibilidade de vez em quando. É o famoso viés do incentivo: quando o seu bônus depende da rotação da carteira, o “compra” é sempre mais confortável que o “venda”.

O estudo também analisou os efeitos por setor, ano e horizonte da projeção.

  • Setores: mostraram diferenças relevantes. Empresas de serviços públicos e indústria básica concentravam a maioria das observações e tinham erros estatisticamente diferentes dos demais.
  • Ano: extremamente significativo. Isso reforça a tese de que choques macroeconômicos (como crises, eleições e mudanças cambiais) afetavam todas as projeções.
  • Horizonte: não significativo, ou seja, projeções de curto e longo prazo erravam quase igual. Um achado curioso e preocupante.

O veredito final dos autores dói:

“Os fatores que mais influenciam o erro de projeção estão ligados aos resultados passados. A contribuição dos analistas é menor do que a esperada, pois modelos estatísticos apresentam resultados semelhantes.” — Saito, Villalobos & Benetti (2008)

Em outras palavras, os analistas brasileiros dos anos 2000 não conseguiam agregar valor real às suas previsões de lucro. Não por má-fé, mas porque o ambiente era (e em parte ainda é) caótico demais para permitir projeções precisas.

O estudo é de 2008, mas suas lições continuam atuais, talvez até mais relevantes hoje, num mercado saturado de opiniões e relatórios diários.

  1. Projeções não são verdades, são narrativas.
    Elas refletem um modelo mental, não um fato futuro.
  2. O “consenso de mercado” não é garantia de acerto.
    Mesmo dezenas de analistas erram juntos quando os fundamentos mudam abruptamente.
  3. Modelos quantitativos simples ainda são poderosos.
    Em muitos casos, uma regressão linear ou uma média histórica é tão eficiente quanto previsões cheias de adjetivos.
  4. O valor do analista está mais na interpretação do contexto do que no número projetado.
    O bom analista é aquele que entende o ciclo econômico, a cultura corporativa e os incentivos que moldam o resultado, não o que tenta prever o lucro com duas casas decimais.

O mercado brasileiro evoluiu muito desde 2004. Temos mais cobertura, mais analistas certificados, mais dados e softwares sofisticados. Mas a essência continua: o erro de projeção ainda é inevitável em economias voláteis.

Se o PIB, o câmbio e a Selic mudam três vezes por ano, a acurácia das projeções continuará limitada. E isso não é falha, é parte da natureza de um mercado emergente.

A diferença é que hoje o investidor tem acesso direto a ferramentas que antes eram exclusivas das corretoras: plataformas de dados, modelos abertos, planilhas e backtests permitem que qualquer pessoa teste suas próprias hipóteses.

O papel do analista, portanto, deixa de ser o de oráculo e passa a ser o de tradutor da complexidade, alguém que ajuda o investidor a entender o jogo, não a prever o placar.

Conclusão: #humildadesempre

O estudo da FGV é uma aula de humildade analítica. Ele mostra que, por trás de cada gráfico e projeção, há um ser humano sujeito a incentivos, vieses e incertezas.

Os analistas brasileiros dos anos 2000 não falharam por incompetência, falharam porque tentavam prever o imprevisível. E isso, convenhamos, é a essência do mercado financeiro.

O investidor que entende isso para de buscar certezas e passa a buscar probabilidades.
Em vez de perguntar “quanto vai estar a ação no fim do ano”, ele pergunta “quanto posso perder se estiver errado?”.

Em vez de buscar o analista com a melhor previsão, ele busca o que tem o raciocínio mais consistente. E aí sim, a análise volta a fazer sentido.

Referência: SAITO, R.; VILLALOBOS, S. J. S.; BENETTI, C. (2008). Qualidade das projeções dos analistas sell-side: evidência empírica do mercado brasileiro. Revista de Administração, São Paulo, v.43, n.4, p.356-369.

Grande abraço,

João Pedro Mello

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