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4 motivos para acreditar que a bolsa brasileira não subiu demais

A alta recente da bolsa brasileira não é um movimento isolado, nem um “acidente de narrativa”. O rali é global, consistente e sustentado por fundamentos que já estavam visíveis meses atrás para quem acompanha macroeconomia com seriedade. Em agosto de 2025, quando o Ibovespa rondava os 130 mil pontos, já era possível antecipar o que estava por vir e o que ainda está vindo.

Para entender por que a bolsa subiu tanto, é preciso olhar para o primeiro e mais importante motor desse ciclo: os juros nos Estados Unidos. O Federal Reserve iniciou sua trajetória de cortes ainda em 2025, reduzindo a taxa para 4% ao ano, após duas quedas consecutivas. Isso muda completamente o cenário global. Quando a renda fixa americana deixa de pagar tão bem, o capital internacional precisa correr para ativos de maior retorno e os emergentes entram imediatamente no radar. Esse foi o início do fluxo que reacendeu os mercados de ações no mundo todo.

O segundo pilar é a inflação brasileira, que vem mostrando queda consistente ao longo do ano. Em abril, o IPCA acumulado em 12 meses estava em 5,53%; em junho caiu para 5,35%; em agosto para 5,30%; e, em outubro, alcançou 4,68%, entrando na faixa de tolerância da meta. Inflação mais baixa significa uma coisa: o Banco Central perde justificativas para manter os juros elevados. Com a perspectiva de cortes na Selic, o mercado começa a antecipar a reprecificação dos ativos de risco. E foi exatamente isso que aconteceu.

Outro vetor crucial é a desvalorização global do dólar. No início de 2025, o DXY, índice que compara o dólar com uma cesta de moedas, estava em 110 pontos. Agora, caiu para 100. É uma queda expressiva, generalizada e estrutural. Esse enfraquecimento não ocorre apenas contra o real, mas contra o euro, libra, iene e diversas moedas de países desenvolvidos e emergentes. Um dólar mais fraco tende a reduzir pressões inflacionárias internas e a melhorar as condições financeiras globais, impulsionando os ativos de risco como um todo.

Mas há um componente adicional nesse movimento e ele é pouco discutido: a confiança nas moedas fiduciárias. Com o endividamento crescente de diversas nações, investidores têm buscado proteção em ativos alternativos, como ouro, que está em tendência de alta. Isso cria um ambiente em que ativos reais, como ações, tornam-se mais atrativos como proteção de longo prazo, reforçando o fluxo positivo para as bolsas.

Mesmo assim, o Brasil não foi o emergente que mais subiu no ano. Em dólar, o EWZ avançou 40%, mas países como a Colômbia subiram 62%, o Peru avançou 57% mesmo em meio a crises políticas, e o México registrou cerca de 45%. A diferença é simples: eles já estavam cortando juros. A Colômbia, por exemplo, reduziu sua taxa de 13% para 9,4%, e isso se refletiu diretamente em suas bolsas. O Brasil, apesar do atraso no ciclo, performou bem, mas ainda não colheu o impacto total da queda da Selic. Ou seja: há espaço. Muito espaço.

E isso nos leva ao ponto mais importante para o investidor local: a bolsa brasileira ainda está barata. Em um estudo do Deutsche Bank analisando 56 economias ao longo de 200 anos, dois fatores aparecem como os melhores preditores de ralis de ações:

  1. Preço/Lucro baixo
  2. Dividend Yield alto

O Brasil é destaque nos dois: 6º menor P/L do mundo e 3º maior Dividend Yield entre dezenas de economias analisadas. Isso significa que, mesmo com as altas recentes, estamos em patamares historicamente atrativos e geralmente é dessa combinação que surgem os ciclos mais longos e fortes de valorização.

Mas ainda há um quarto fator e talvez o mais ignorado pelo investidor pessoa física: o ano eleitoral de 2026. Em momentos de incerteza fiscal, qualquer sinal de mudança de postura econômica costuma ser fortemente recompensado. Durante o governo Temer, mesmo com crescimento baixo, a bolsa subiu 160%. Em um ambiente em que o déficit fiscal é elevado e o mercado questiona credibilidade, qualquer ajuste, mesmo marginal, pode ser suficiente para destravar múltiplos.

Somando tudo, juros globais caindo, inflação doméstica cedendo, dólar fraco, valuation historicamente baixo e a possibilidade de um gatilho fiscal-eleitoral, não é difícil visualizar projeções com Ibovespa acima de 200 mil pontos. Em cenários mais otimistas, com melhora fiscal e juros de longo prazo recuando para algo como IPCA +5% ou +5,5%, não é exagero projetar o índice chegando a 250 mil pontos. Não como euforia, mas como consequência.

Claro, renda variável varia. Então, teremos meses de queda, períodos laterais, correções inevitáveis. Mas isso não muda a direção estrutural do ciclo. Momentos como esse, quando fundamentos, fluxo, valuation e macro se alinham são raros. E, historicamente, quem perde esses movimentos são sempre as pessoas físicas: entram tarde, saem cedo, travam no medo e ignoram os sinais enquanto eles são mais óbvios.

O investidor estrangeiro já começou a comprar. Os indicadores macro já viraram. Os preços ainda não refletiram totalmente a realidade futura. A pergunta não é “por que a bolsa subiu tanto?”.
A pergunta é: será que não vale a pena ter um pedaço da carteira nessa assimetria?

Grande abraço,

João Pedro Mello

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