Fala, pessoal!
É impossível abrir o noticiário hoje e não sentir um aperto no peito. Antes de falarmos de números ou asset allocation, eu preciso dizer: meu coração está com as famílias que vivem o horror desses conflitos. Como planejadora financeira, lido com sonhos; as guerras, infelizmente, lidam com a interrupção deles. É uma realidade dura que não podemos ignorar.
No entanto, como consultora, meu papel é manter o pé no chão. Enquanto o medo tenta assumir o controle e o pânico toma conta do mercado, eu prefiro olhar para os fatos e dados.
O que a história nos ensina sobre o caos?
Para entender o impacto de conflitos, o mercado utiliza métricas como o Geopolitical Risk Index (GPR). Desenvolvido pelos pesquisadores Dario Caldara e Matteo Lacoviello, este índice quantifica as tensões globais analisando a frequência de notícias sobre ameaças de guerra, terrorismo e escaladas militares em jornais de circulação mundial desde 1900.
O que o GPR nos mostra é que picos monumentais de risco — como os vistos nas Guerras Mundiais, no 11 de Setembro ou na invasão da Ucrânia em 2022 — costumam provocar quedas imediatas e severas. Isso ocorre devido ao fenômeno chamado flight to safety (fuga para a segurança), onde investidores retiram capital de ativos variáveis e buscam refúgio no Dólar, Ouro e títulos do Tesouro Americano.
Contudo, a análise histórica revela que essa volatilidade inicial raramente se traduz em destruição permanente de patrimônio a longo prazo. O fator determinante que dita a trajetória dos preços após o choque inicial é a capacidade da economia global de manter seus fundamentos e o crescimento dos resultados das empresas.
O Comportamento do S&P 500 em Números
Ao analisarmos os principais choques geopolíticos do último século, observamos um padrão de queda rápida e recuperação consistente:

*A queda de 2022 foi intensificada pelo cenário de inflação global e ajuste de juros nos EUA.
Na média de 20 grandes eventos geopolíticos, o mercado levou cerca de 22 dias úteis para atingir o seu ponto mais baixo. A recuperação ao patamar anterior ao conflito ocorreu, em média, em 47 dias.
O Desafio da Inflação e dos Juros
Um ponto crucial que precisamos observar é que as quedas mais duradouras nas bolsas durante períodos de guerra não costumam ser causadas apenas pelos combates, mas pelos desequilíbrios econômicos que eles geram.
Em 2022, por exemplo, o conflito no Leste Europeu pressionou os preços de energia e alimentos. Essa pressão inflacionária forçou os Bancos Centrais, especialmente o Federal Reserve (Fed), a elevar as taxas de juros de forma mais agressiva. No mercado financeiro, juros mais altos elevam o custo de capital das empresas, o que impacta diretamente o valor das ações. Portanto, o investidor precisa separar o “ruído” do conflito do impacto real nas taxas de juros e na inflação.
O Valor do Planejamento
Como engenheira e consultora, vejo que drawdowns (quedas a partir do topo) são partes intrínsecas do processo de investimento. Manter a disciplina durante esses períodos de incerteza é o que diferencia um planejamento bem estruturado de uma decisão emocional. Se a sua estratégia de alocação de ativos respeita o seu perfil e horizonte de tempo, o “caos” geopolítico torna-se um evento a ser monitorado, mas não necessariamente um motivo para alterar o seu plano de vida.
No próximo artigo, abordaremos as diferenças de impacto entre os mercados da Europa e do Brasil, analisando quais setores apresentam maior resiliência em cenários de estresse global.
Abraços,
Julia Bastos Chagas Priante – @julia.priante
Engenheira de Alimentos pela Universidade Federal de Viçosa, atua no mercado financeiro desde 2006. Com ampla experiência como Officer no Itaú Unibanco/Itaú BBA nos segmentos de Empresas, Nicho Imobiliário e Multinacionais. É Especialista em Investimentos (CEA) e Pós-graduada em Planejamento Financeiro. Auxilia famílias a alcançarem seus sonhos por meio de um planejamento financeiro estruturado e personalizado.