A inflação é um daqueles conceitos que parecem distantes quando apresentados em números agregados, como dizer que houve uma alta acumulada de 605%, mas que ganham uma dimensão completamente diferente quando trazidos para o cotidiano, especialmente quando usamos exemplos simples, quase triviais, como chocolates de Páscoa, porque é nesse tipo de comparação que fica evidente que o problema não está exatamente no preço subir, mas sim no quanto o dinheiro perde sua capacidade de compra ao longo do tempo, muitas vezes de forma silenciosa, gradual e praticamente imperceptível para quem não está prestando atenção.
Se voltarmos alguns anos, era perfeitamente possível entrar em um mercado e encontrar uma barra de chocolate de 200 gramas por R$ 1,19, enquanto versões um pouco maiores, de 240 gramas, custavam R$ 3,89, uma caixa de Bis saía por R$ 0,79 e até mesmo uma barra de meio quilo, daquelas utilizadas para fazer ovos de Páscoa caseiros, custava R$ 2,69, valores que hoje parecem irreais, mas que eram, à época, totalmente compatíveis com o poder de compra do dinheiro naquele período.

Quando aplicamos a inflação acumulada de 605%, o que estamos dizendo, na prática, é que esses preços deveriam ter sido multiplicados por aproximadamente 7,05, o que transformaria a barra de R$ 1,19 em algo próximo de R$ 8,39, a de R$ 3,89 em R$ 27,42, a caixa de Bis em R$ 5,57 e a barra de 500 gramas em R$ 18,96, números que, do ponto de vista matemático, fazem todo sentido e representam apenas a atualização do valor nominal desses produtos ao longo do tempo, sem considerar qualquer outro fator.
O problema começa a aparecer quando saímos da matemática e vamos para a prateleira do supermercado, porque ao fazer essa comparação com os preços atuais, percebemos que as barras equivalentes hoje estão frequentemente na faixa de R$ 15 a R$ 25, ou seja, acima do que seria explicado apenas pela inflação, enquanto a caixa de Bis aparece mais próxima do valor corrigido, girando em torno de R$ 5,99, e a barra de 500 gramas, dependendo da marca e do posicionamento, pode facilmente chegar a algo entre R$ 25 e R$ 40, indicando que, em muitos casos, houve não apenas reposição inflacionária, mas também aumento real de preço.
Esse efeito fica ainda mais evidente quando olhamos para um símbolo clássico da Páscoa, que é o ovo de chocolate, porque um ovo da Lacta que custava algo em torno de R$ 3,89 naquele período, ao ser ajustado pela inflação, deveria hoje estar na casa dos R$ 27, mas o que se observa na prática são preços próximos de R$ 50, e muitas vezes até superiores, o que evidencia que existe uma combinação de fatores atuando simultaneamente, incluindo não apenas a inflação, mas também aumento de margem, estratégias de marketing e, em alguns casos, alterações na própria composição ou tamanho dos produtos.

É justamente nesse ponto que fica claro que inflação não é simplesmente um fenômeno de preços subindo, mas sim um processo de deterioração do poder de compra, e essa diferença é fundamental, porque enquanto o preço é algo visível e imediato, a perda de poder de compra é gradual e muitas vezes ignorada, especialmente quando a renda das pessoas não acompanha essa mesma velocidade de ajuste.
Quando você traz essa comparação para o salário mínimo, o impacto fica ainda mais evidente, porque em 1995 o salário mínimo era de R$ 100, o que permitia comprar cerca de 84 barras de chocolate de 200 gramas, aproximadamente 25 barras de 240 gramas, algo próximo de 126 caixas de Bis e também cerca de 25 ovos de Páscoa, todos na faixa de R$ 3,89, enquanto hoje, com o salário mínimo em R$ 1.621, apesar do aumento nominal expressivo, esse valor compra aproximadamente 108 barras se elas estiverem na casa dos R$ 15, ou apenas 64 se estiverem mais próximas de R$ 25, cerca de 270 caixas de Bis a R$ 5,99 e apenas 32 ovos de Páscoa na faixa de R$ 50, o que mostra que, embora tenha havido ganho nominal relevante ao longo do tempo, esse ganho não se traduziu de forma uniforme em aumento de poder de compra, especialmente em produtos que sofreram não apenas inflação, mas também reajustes reais de preço.
A inflação é um daqueles conceitos que parecem distantes quando apresentados em números agregados, como dizer que houve uma alta acumulada de 605%, mas que ganham uma dimensão completamente diferente quando trazidos para o cotidiano, especialmente quando usamos exemplos simples, quase triviais, como chocolates de Páscoa, porque é nesse tipo de comparação que fica evidente que o problema não está exatamente no preço subir, mas sim no quanto o dinheiro perde sua capacidade de compra ao longo do tempo, muitas vezes de forma silenciosa, gradual e praticamente imperceptível para quem não está prestando atenção.
Se voltarmos alguns anos, era perfeitamente possível entrar em um mercado e encontrar uma barra de chocolate de 200 gramas por R$ 1,19, enquanto versões um pouco maiores, de 240 gramas, custavam R$ 3,89, uma caixa de Bis saía por R$ 0,79 e até mesmo uma barra de meio quilo, daquelas utilizadas para fazer ovos de Páscoa caseiros, custava R$ 2,69, valores que hoje parecem irreais, mas que eram, à época, totalmente compatíveis com o poder de compra do dinheiro naquele período.
Quando aplicamos a inflação acumulada de 605%, o que estamos dizendo, na prática, é que esses preços deveriam ter sido multiplicados por aproximadamente 7,05, o que transformaria a barra de R$ 1,19 em algo próximo de R$ 8,39, a de R$ 3,89 em R$ 27,42, a caixa de Bis em R$ 5,57 e a barra de 500 gramas em R$ 18,96, números que, do ponto de vista matemático, fazem todo sentido e representam apenas a atualização do valor nominal desses produtos ao longo do tempo, sem considerar qualquer outro fator.
O problema começa a aparecer quando saímos da matemática e vamos para a prateleira do supermercado, porque ao fazer essa comparação com os preços atuais, percebemos que as barras equivalentes hoje estão frequentemente na faixa de R$ 15 a R$ 25, ou seja, acima do que seria explicado apenas pela inflação, enquanto a caixa de Bis aparece mais próxima do valor corrigido, girando em torno de R$ 5,99, e a barra de 500 gramas, dependendo da marca e do posicionamento, pode facilmente chegar a algo entre R$ 25 e R$ 40, indicando que, em muitos casos, houve não apenas reposição inflacionária, mas também aumento real de preço.
Esse efeito fica ainda mais evidente quando olhamos para um símbolo clássico da Páscoa, que é o ovo de chocolate, porque um ovo da Lacta que custava algo em torno de R$ 3,89 naquele período, ao ser ajustado pela inflação, deveria hoje estar na casa dos R$ 27, mas o que se observa na prática são preços próximos de R$ 50, e muitas vezes até superiores, o que evidencia que existe uma combinação de fatores atuando simultaneamente, incluindo não apenas a inflação, mas também aumento de margem, estratégias de marketing e, em alguns casos, alterações na própria composição ou tamanho dos produtos.
É justamente nesse ponto que fica claro que inflação não é simplesmente um fenômeno de preços subindo, mas sim um processo de deterioração do poder de compra, e essa diferença é fundamental, porque enquanto o preço é algo visível e imediato, a perda de poder de compra é gradual e muitas vezes ignorada, especialmente quando a renda das pessoas não acompanha essa mesma velocidade de ajuste.
Quando você traz essa comparação para o salário mínimo, o impacto fica ainda mais evidente, porque em 1995 o salário mínimo era de R$ 100, o que permitia comprar cerca de 84 barras de chocolate de 200 gramas, aproximadamente 25 barras de 240 gramas, algo próximo de 126 caixas de Bis e também cerca de 25 ovos de Páscoa, todos na faixa de R$ 3,89, enquanto hoje, com o salário mínimo em R$ 1.621, apesar do aumento nominal expressivo, esse valor compra aproximadamente 108 barras se elas estiverem na casa dos R$ 15, ou apenas 64 se estiverem mais próximas de R$ 25, cerca de 270 caixas de Bis a R$ 5,99 e apenas 32 ovos de Páscoa na faixa de R$ 50, o que mostra que, embora tenha havido ganho nominal relevante ao longo do tempo, esse ganho não se traduziu de forma uniforme em aumento de poder de compra, especialmente em produtos que sofreram não apenas inflação, mas também reajustes reais de preço.

Se trouxermos isso para o campo da renda de forma mais ampla, o efeito se torna ainda mais evidente, porque uma pessoa que ganhava R$ 10 mil naquele período precisaria hoje receber algo próximo de R$ 70,5 mil apenas para manter exatamente o mesmo padrão de vida, enquanto alguém que ganhava R$ 15 mil precisaria estar na casa dos R$ 105 mil, quem ganhava R$ 20 mil deveria estar próximo de R$ 141 mil e quem tinha uma renda de R$ 30 mil precisaria hoje de algo em torno de R$ 211 mil para não perder poder de compra, números que deixam claro que, na prática, a grande maioria das pessoas não conseguiu acompanhar esse movimento, o que explica a sensação recorrente de que o dinheiro “rende menos” ou de que “antes era mais fácil viver”.
O ponto mais importante aqui é que essa perda não acontece de forma abrupta, não é um choque imediato, mas sim um processo contínuo e cumulativo, em que pequenas perdas anuais vão se somando até gerar um impacto relevante no longo prazo, fazendo com que as pessoas continuem vivendo, consumindo e mantendo seus hábitos, mas com um esforço progressivamente maior para sustentar o mesmo padrão, o que muitas vezes passa despercebido justamente por não haver um momento específico em que essa mudança se torna evidente.
E é nesse contexto que surge um dos erros mais comuns quando se fala em dinheiro, que é a ideia de que deixar recursos parados ou rendendo pouco não tem um custo relevante, quando na verdade esse custo existe e é significativo, porque sempre que o crescimento do patrimônio fica abaixo da inflação, o que está acontecendo, na prática, é uma redução do poder de compra, mesmo que o valor nominal esteja aumentando, o que cria uma falsa sensação de evolução patrimonial.
No fim das contas, riqueza não é o número que aparece no extrato, mas sim o que esse número é capaz de comprar ao longo do tempo, e quando se observa que um produto simples, como um ovo de Páscoa, saiu de menos de R$ 4 para algo próximo de R$ 50, fica evidente que o problema não está no chocolate em si, mas sim na forma como o valor do dinheiro foi sendo corroído ao longo dos anos, muitas vezes sem que isso fosse percebido com a devida clareza.
Grande abraço,
João Pedro Mello