E se eu te dissesse que o mercado acionário americano transformou cada US$ 1 investido em mais de US$ 15 mil ao longo dos últimos 100 anos, mas que a maioria das empresas negociadas nesse mesmo mercado não conseguiu sequer superar o retorno dos títulos públicos de curto prazo? Parece contraditório. Afinal, estamos falando do mercado acionário mais bem-sucedido do mundo, responsável pela criação de aproximadamente US$ 91 trilhões de riqueza para seus acionistas ao longo de um século. Mas é justamente essa aparente contradição que ajuda a explicar uma das características mais importantes do investimento em ações: o retorno extraordinário do mercado não é produzido pela empresa média. Ele depende de um número extremamente pequeno de vencedores que multiplicam o capital por milhares de vezes e compensam o desempenho ruim de milhares de outras empresas.
Em um estudo publicado em 2026, Hendrik Bessembinder analisou os resultados de 29.754 ações emitidas por 29.081 empresas negociadas no mercado americano entre janeiro de 1926 e dezembro de 2025. Para medir os resultados dos investimentos, o autor utilizou duas abordagens diferentes. A primeira foi o retorno de uma estratégia de buy and hold, considerando o reinvestimento dos dividendos na própria ação. A segunda foi uma métrica chamada Shareholder Wealth Creation, ou SWC, que calcula quanto de riqueza cada empresa efetivamente criou para seus acionistas acima do que teria sido obtido caso o capital tivesse sido investido em Treasury Bills, os títulos públicos americanos de curtíssimo prazo utilizados como referência no estudo. Essa segunda medida considera não apenas a valorização das ações e os dividendos, mas também emissões de novas ações, recompras e outras movimentações de capital realizadas pelas empresas.
Quando observamos o mercado como um todo, os resultados são extraordinários. Ao longo dos 100 anos analisados, uma carteira ponderada pelo valor de mercado de todas as ações disponíveis na base de dados apresentou retorno acumulado de 1.504.057%. Na prática, cada US$ 1 investido teria se transformado em aproximadamente US$ 15.041, equivalente a uma rentabilidade composta de 10,1% ao ano. No mesmo período, um investimento em Treasury Bills teria transformado cada US$ 1 em apenas US$ 25,34, equivalente a uma rentabilidade composta de 3,3% ao ano. Isso significa que permanecer exposto ao mercado acionário americano durante o período completo produziu um prêmio de risco realizado de aproximadamente 6,81% ao ano.
O problema aparece quando deixamos de observar o mercado como um único investimento e passamos a analisar individualmente as empresas responsáveis por esse resultado. A rentabilidade acumulada média das ações foi de 30.621%, enquanto a rentabilidade mediana foi negativa em 6,87%. Essa diferença gigantesca entre média e mediana é uma das informações mais importantes do estudo. Apenas 48,22% das ações apresentaram retorno nominal positivo durante o período em que permaneceram listadas, somente 41,17% superaram os Treasury Bills e apenas 27,60% conseguiram superar o próprio mercado acionário americano durante os mesmos meses em que estiveram disponíveis para investimento. Em outras palavras, quase três em cada quatro ações ficaram atrás do mercado, mesmo que o mercado como um todo tenha produzido uma rentabilidade extraordinária.

A explicação está na assimetria positiva dos retornos das ações. Quando um investidor compra uma empresa, o máximo que pode perder é 100% do capital investido, porque o valor da ação não pode cair abaixo de zero. Por outro lado, não existe um limite equivalente para os ganhos. Uma empresa pode multiplicar o capital investido por 10, 100, 1.000 ou até milhões de vezes. Isso faz com que a distribuição dos retornos seja extremamente desigual. Muitas empresas apresentam resultados ruins, algumas entregam retornos razoáveis e um número muito pequeno apresenta resultados extraordinários capazes de compensar as perdas e o desempenho medíocre de milhares de outras empresas. Por isso, olhar apenas para o retorno médio das ações pode produzir uma interpretação equivocada. A média é puxada para cima pelos poucos vencedores extremos, enquanto a empresa localizada no meio da distribuição terminou sua trajetória com retorno negativo.
Essa característica fica ainda mais evidente quando analisamos as empresas com os maiores retornos acumulados do último século. Entre as 30 ações que mais multiplicaram o capital dos investidores, a rentabilidade anualizada média foi de aproximadamente 13% ao ano. Não estamos falando de empresas que entregaram 50%, 100% ou 200% ao ano durante décadas. O grande diferencial foi a capacidade de manter retornos moderadamente superiores durante períodos extraordinariamente longos. Em média, essas empresas permaneceram na base de dados por quase 94 anos. O maior exemplo é a Altria, que apresentou uma rentabilidade composta de 16,53% ao ano durante 100 anos e transformou cada US$ 1 investido em aproximadamente US$ 4,42 milhões. A Vulcan Materials, que também esteve presente durante todo o período, apresentou retorno composto de 14,03% ao ano e transformou cada US$ 1 em aproximadamente US$ 501 mil. Uma diferença de apenas 2,5 pontos percentuais por ano fez com que o patrimônio final produzido pela Altria fosse quase nove vezes maior. O resultado mostra como pequenas diferenças de rentabilidade podem produzir diferenças gigantescas quando acumuladas durante horizontes suficientemente longos.
Quando o autor muda a análise e procura as empresas com os maiores retornos anualizados durante períodos de pelo menos 20 anos, aparecem nomes completamente diferentes. A Nvidia ocupa a primeira posição, com uma rentabilidade composta de 37,04% ao ano entre janeiro de 1999 e dezembro de 2025, transformando cada US$ 1 investido em aproximadamente US$ 4.959. Depois aparecem Netflix, com 32,51% ao ano, Axon Enterprise, com 32,40%, e Amazon, com 31,10%. Entretanto, nenhuma das 30 empresas com os maiores retornos anualizados aparece entre as 30 empresas com os maiores retornos acumulados da história. Esse resultado mostra que retornos extraordinariamente elevados podem ser mantidos durante duas ou três décadas, mas se tornam cada vez mais difíceis de sustentar conforme o horizonte aumenta. Os maiores patrimônios acumulados da história não foram necessariamente produzidos pelas empresas que apresentaram as maiores rentabilidades anuais, mas pela combinação entre bons retornos e períodos extremamente longos de composição.
A análise da criação de riqueza para os acionistas torna a concentração dos resultados ainda mais evidente. Entre 1926 e 2025, as 29.081 empresas analisadas criaram aproximadamente US$ 90,96 trilhões de riqueza líquida acima do retorno que os investidores teriam obtido aplicando o capital em Treasury Bills. Entretanto, apenas 11.884 empresas, equivalentes a 40,87% da amostra, apresentaram criação positiva de riqueza. As outras 17.197 empresas, ou 59,13% do total, destruíram aproximadamente US$ 10,67 trilhões de riqueza em relação aos títulos públicos. Um segundo grupo formado por 10.802 empresas criou exatamente os US$ 10,67 trilhões necessários para compensar essa destruição. Isso significa que, consideradas conjuntamente, 27.999 empresas, equivalentes a 96,28% de todas as empresas analisadas, produziram criação líquida de riqueza igual a zero em relação aos Treasury Bills.
Toda a riqueza líquida criada pelo mercado acionário americano durante os últimos 100 anos veio das 1.082 empresas restantes. Apenas 3,72% das empresas analisadas foram responsáveis por 100% dos US$ 90,96 trilhões de riqueza líquida criada pelo mercado. Esse talvez seja o resultado mais importante do estudo, porque mostra que o desafio do investidor que seleciona ações individualmente não consiste apenas em evitar empresas ruins. É necessário também garantir que sua carteira esteja exposta às pouquíssimas empresas responsáveis pela maior parte da criação de riqueza. Em uma distribuição tão assimétrica, deixar de possuir alguns dos grandes vencedores pode produzir um impacto muito maior sobre o patrimônio final do que investir em várias empresas que apresentaram resultados ruins.
A concentração fica ainda mais impressionante quando observamos o topo da distribuição. Apenas 46 empresas foram responsáveis por metade de toda a riqueza criada pelo mercado acionário americano durante 100 anos. A Apple aparece na primeira posição, com aproximadamente US$ 5,02 trilhões de riqueza criada para seus acionistas, seguida pela Nvidia, com US$ 4,58 trilhões, Microsoft, com US$ 4,03 trilhões, Alphabet, com US$ 3,57 trilhões, e Amazon, com US$ 2,27 trilhões. Somente Apple e Nvidia responderam por 10,55% de toda a riqueza criada pelo mercado durante o século, enquanto as cinco maiores empresas responderam por 21,39% e as 30 maiores por 43,67%.
Mais importante do que o nível de concentração é perceber que esse fenômeno se intensificou nos últimos anos. No estudo anterior de Bessembinder, que analisava os resultados até 2016, eram necessárias 89 empresas para explicar metade da riqueza criada pelo mercado americano. Depois da inclusão dos resultados entre 2017 e 2025, esse número caiu para apenas 46 empresas. Nos nove anos mais recentes da amostra, as 30 maiores empresas foram responsáveis por 61,19% de toda a riqueza criada pelo mercado, e a Nvidia, sozinha, respondeu por 9,32% do total. Portanto, além de a criação de riqueza sempre ter dependido de um número relativamente pequeno de vencedores, os dados mais recentes indicam que essa concentração aumentou significativamente.
É justamente aqui que o estudo deixa de ser apenas uma análise histórica e passa a ter implicações práticas para qualquer investidor. Quando olhamos hoje para empresas como Apple, Nvidia, Microsoft, Amazon e Alphabet, parece evidente que elas deveriam estar presentes em uma carteira de investimentos. O problema é que essa análise é feita depois que os vencedores já foram conhecidos. O investidor de 1980 não sabia que a Apple se tornaria a maior criadora de riqueza da história do mercado americano. O investidor de 1999 não sabia que a Nvidia entregaria mais de 37% ao ano durante as quase três décadas seguintes. Ao mesmo tempo, milhares de empresas que pareciam promissoras nesses mesmos períodos desapareceram, faliram, foram adquiridas ou simplesmente apresentaram retornos inferiores aos títulos públicos.
Esse é um dos principais problemas da concentração excessiva e do stock picking. Para superar o mercado durante horizontes muito longos, não basta escolher empresas boas ou evitar empresas ruins. É necessário identificar antecipadamente os poucos vencedores extremos, comprar essas empresas antes que grande parte da valorização aconteça e, talvez mais difícil ainda, permanecer investido durante décadas apesar das crises, das quedas expressivas e das mudanças de narrativa. Como apenas 3,72% das empresas responderam por toda a criação líquida de riqueza dos últimos 100 anos, uma carteira concentrada que deixa de possuir algumas dessas grandes vencedoras pode ficar estruturalmente atrás do mercado.
Isso também ajuda a entender por que a diversificação funciona. Diversificar não significa apenas reduzir a volatilidade da carteira. Significa aumentar a probabilidade de participar dos poucos ativos responsáveis pela maior parte da criação de riqueza. Em uma distribuição positivamente assimétrica, possuir algumas empresas que terminam com resultados ruins pode ser o preço necessário para garantir exposição aos raros vencedores que multiplicam o capital milhares de vezes. Quando um investidor concentra excessivamente sua carteira, ele está implicitamente apostando que consegue identificar antecipadamente quais empresas estarão entre os poucos vencedores responsáveis pela criação de riqueza no futuro. A história dos últimos 100 anos mostra o tamanho dessa dificuldade.
O mercado acionário americano foi uma extraordinária máquina de criação de riqueza. Transformou cada US$ 1 investido em mais de US$ 15 mil e criou aproximadamente US$ 91 trilhões de riqueza líquida para os acionistas. Mas esse resultado não foi produzido pela empresa média. A maioria das empresas não superou os títulos públicos de curto prazo, quase três em cada quatro ações ficaram atrás do próprio mercado e apenas 3,72% das empresas foram responsáveis por toda a riqueza líquida criada acima dos Treasury Bills. O principal ensinamento do estudo, portanto, não é simplesmente que investir em ações funciona no longo prazo. É que os retornos do mercado dependem de poucos vencedores extraordinários e que identificar antecipadamente essas empresas é muito mais difícil do que parece. Para o investidor, perder dinheiro com algumas empresas ruins pode ser inevitável. O verdadeiro risco é construir uma carteira que fique de fora das poucas empresas responsáveis por quase toda a criação de riqueza do mercado.
Referência: BESSEMBINDER, Hendrik. One Hundred Years in the U.S. Stock Markets. W. P. Carey School of Business, Arizona State University, 21 mar. 2026.
Grande abraço,