Por Patrícia Rossari
Vivemos há alguns anos a era dos “youtubers”. Um ecossistema onde adolescentes fazem fortunas ensinando “como ganhar dinheiro dormindo” e desconhecidos tornam-se celebridades milionárias ensinando outros a também se tornarem… celebridades milionárias. É o capitalismo performático em sua melhor forma.
Há vídeos de tudo: como fazer um bolo de banana, plantar um coqueiro, consertar a máquina de lavar e, claro, os segredos mais cobiçados da humanidade:
“Fique milionário!”, “Permaneça jovem!”, “Aposente-se aos 30!”
Essas mensagens funcionam como lembretes subliminares de um mundo cruelmente comparativo:
“Você não é especial, se não for milionário e eternamente jovem.”
E quando o assunto é finanças, a criatividade chega ao nível de ficção científica. Há “métodos infalíveis”, “projetos visionários”, “gurus do algoritmo” que juram ter visto o futuro, sempre dez passos à frente de todos, inclusive da realidade.
A promessa é simples:
“Você não é rico porque não é suficientemente brilhante. Afinal, quem não consegue transformar R$ 1.000,00 em um milhão?”
Se você me acompanha, já entendeu o tom: ironia pura. Essas promessas são a versão digital dos antigos vendedores de elixir da imortalidade. É muito papo e pouca ação.
A genialidade retórica não substitui a competência prática. Vender ilusões é uma arte antiga, talvez a mais rentável da história. Desde os tempos das feiras medievais, sempre houve quem explorasse a esperança humana por atalhos.
E por que falar disso agora? Porque o final de um novo é o momento ideal para “cair na real”, especialmente para quem ainda acredita em promessas milagrosas de enriquecimento rápido.
Uma leitora me escreveu recentemente dizendo que se sentia “ineficaz”, pois todos os vídeos que via eram uma sequência de sucessos e riquezas. Pessoas sempre sorrindo, exibindo portfólios perfeitos, planilhas com lucros de três dígitos e aquela frase motivacional reciclada:
“Se eu consegui, você também consegue.”
Minha resposta foi simples, direta e sem emoji de foguinho:
- Não tente viver a vida de outra pessoa, é exatamente isso que eles querem.
- Não se deixe abalar por “vencedores brilhantes e majestosos” que prometem transformar centavos em milhões.
- Não acredite em milagres em investimentos. Rentabilidade constante e sem risco é ficção.
- Invista de acordo com a sua realidade e conhecimento.
- Questione. Sempre.
- E, principalmente, não entregue sua atenção, que é o ativo mais valioso da era digital, a quem lucra com a sua ilusão.
E você deve saber que o consumo de vídeos sobre “como investir” cresceu, mas você sabia que foi cerca de 220% no Brasil nos últimos três anos? E o termo “renda passiva” é buscado mais de 250 mil vezes por mês. A ironia? Enquanto os “gurus” multiplicam seguidores, a taxa média de endividamento das famílias brasileiras voltou a ultrapassar 78%, segundo dados do Banco Central.
Ou seja: quanto mais se fala em liberdade financeira, mais as pessoas se endividam tentando comprá-la.
A psicologia econômica explica. Daniel Kahneman já dizia em Rápido e Devagar que o ser humano tem um viés cognitivo que o leva a superestimar sua própria capacidade de prever o futuro e a subestimar o papel do acaso. É a arrogância do investidor iniciante, encantado pela própria sorte temporária.
Morgan Housel reforça a ideia em A Psicologia Financeira: “Ser rico é fazer dinheiro. Ser rico de verdade é conseguir manter o dinheiro.”
E manter exige o oposto daquilo que os vídeos mais populares vendem: paciência, consistência, tédio e humildade diante da incerteza.
Ninguém permanece jovem eternamente, nem fisicamente, nem financeiramente. Assim como não existe fórmula mágica para rentabilidades estratosféricas, contínuas e sem risco. Mas esses são desejos humanos universais, e por isso vendem tanto.
Se há oferta, é porque existe demanda, até por sonhos.
Eu não cultivo hábitos que remetam à ilusão. Prefiro a lucidez que protege. Ser realista e racional é imprescindível quando se trata de dinheiro. A menos, claro, que você seja um herdeiro bilionário, desses que podem comprar um tigre para criar como gato, tomar café com fios de ouro e sentar-se numa cadeira que custa o PIB de um país pequeno.
Mas se você, assim como 99,9% das pessoas, vive no mundo real, então abrace a verdade: popularidade não é sinônimo de sabedoria. Você talvez não vá “salvar o planeta”, mas pode salvar sua vida financeira e isso já é heroísmo suficiente.
Porque no fim das contas, riqueza não é o que você mostra no YouTube.
É o que você consegue manter quando a câmera está desligada.
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