O maior risco pode ser acreditar demais na própria certeza.
Quanto mais complexa fica a informação, mais fácil esquecer o básico e mais provável perder dinheiro.
O mundo corporativo e o mercado financeiro estão repletos de gente que decide que alguma coisa é verdadeira simplesmente porque ainda não conseguiu provar que é falsa.
É o famoso: “não sei o que é, logo pode ser qualquer coisa”.
E, a partir daí, todas as hipóteses passam a parecer igualmente prováveis.
Só que não são.
Esse pequeno detalhe aparentemente banal é responsável por uma quantidade impressionante de decisões ruins no mercado. Porque investir não é apenas reunir informações. É saber atribuir pesos diferentes às hipóteses, calcular probabilidades, estimar cenários e, principalmente, entender o que pode dar errado.
Não existe algoritmo que burle matemática financeira.
Pode existir inteligência artificial, machine learning, big data, robô, gráfico de cinco minutos, guru de mercado e até uma planilha com 37 abas. No fim, um múltiplo insustentável continua sendo um múltiplo insustentável.
Se uma empresa negocia a um P/L extremamente elevado, mas não consegue transformar crescimento em geração de caixa, algum problema existe na equação. O mercado pode continuar pagando caro por algum tempo. Pode até pagar muito mais caro.
Mas tempo e preço não transformam uma tese ruim em uma tese boa. No máximo, transformam uma tese ruim em uma tese que demorou mais para dar errado.
A grande falácia do investidor
Talvez o problema mais recorrente seja outro: as pessoas não sabem que não sabem. E isso é particularmente perigoso em finanças.
A grande falácia do investidor é acreditar que sentir o mercado é a mesma coisa que estar certo. Não é.
Intuição é excelente para escolher um restaurante. Para construir patrimônio o mais importante é fluxo de caixa, valuation, estatística, probabilidade e uma boa dose de desconfiança.
O investidor que diz “eu sinto que vai subir” não apresentou uma tese, apresentou um sentimento, e sentimentos não entram no modelo de DCF.
Podem até influenciar o comportamento do investidor, e influenciam muito, mas não alteram o valor presente dos fluxos de caixa de uma empresa. É justamente aí que entra uma das maiores confusões do mercado: confundir convicção com evidência.
Ter convicção não aumenta a probabilidade de uma hipótese estar correta. Às vezes, apenas aumenta a dificuldade de admitir que ela estava errada.
Diversificação não é contar ativos
Outra falácia bastante popular é acreditar que uma carteira é diversificada porque possui muitos ativos. Não necessariamente.
Diversificação verdadeira nasce da correlação, não da quantidade.Uma carteira com 12 ativos altamente correlacionados pode ser apenas um ETF mal montado.
Se dez empresas dependem do mesmo ciclo econômico, do mesmo preço de commodity, da mesma curva de juros ou do mesmo comportamento do consumidor, possuir todas elas não significa necessariamente distribuir o risco.
Significa, muitas vezes, distribuir o mesmo risco em vários CNPJs e isso faz diferença.
O investidor precisa olhar não apenas para o retorno esperado de cada ativo, mas para a forma como esses ativos se comportam juntos, porque calcular retorno esperado é a parte fácil. A fórmula parece até uma pegadinha de tão simples:
Retorno esperado da carteira = média ponderada dos retornos esperados dos ativos.
Pronto. Rápido, limpo e elegante, a matemática financeira agradece, mas a maldade mora na linha de baixo.
Quando entramos no risco, a média ponderada deixa de ser suficiente. O risco de uma carteira depende também da covariância e da correlação entre os ativos.
É como tentar medir a força de um furacão usando apenas a temperatura do vento. A variável existe. Só não responde à pergunta que você realmente deveria estar fazendo.
O investidor que acertou seis vezes
Nada é mais perigoso do que um investidor com meia dúzia de acertos, um gráfico bonito e nenhuma noção de distribuição estatística. É assim que nasce uma tese e, às vezes, morre um patrimônio.
Acertar seis operações consecutivas pode significar habilidade.
Também pode significar variância. A diferença é que o cérebro humano adora transformar uma sequência de resultados favoráveis em narrativa. E narrativa é uma droga particularmente eficiente para investidores.
Depois de alguns acertos, surge a sensação de domínio, a pessoa passa a acreditar que descobriu um padrão. Depois começa a acreditar que entende o mercado e, finalmente, começa a acreditar que o mercado deveria obedecê-la.
Normalmente, é nesse ponto que chega a conta.
A habilidade mais rara em finanças não é prever o próximo choque, é aceitar que o próximo choque pode ser diferente de tudo que já vimos. Para pior, para melhor, ou para os dois ao mesmo tempo.
Mercados não têm obrigação de respeitar nossas séries históricas.
A autoridade também erra
Existe ainda outra armadilha: a credencial.
Investidores frequentemente confundem autoridade com verdade. O currículo do emissor afeta a percepção da mensagem, é compreensível.
Se alguém passou 30 anos no mercado, administrou bilhões e publicou livros, é natural que sua opinião tenha mais peso do que a de alguém que descobriu a Bolsa ontem. Mas mais peso não significa verdade.
Mas também é verdade que nem todo especialista está tentando enganar você. Aliás, muitos acreditam sinceramente no que dizem, e esse é justamente o problema.
Uma pessoa pode ser extremamente competente e, ainda assim, estar errada, pode ter um excelente histórico e estar errada, pode ter acertado durante 20 anos e estar errada amanhã.
Quando muitas vozes autorizadas concordam, o sinal parece ficar cada vez mais forte. Até que não fica mais.
Porque consenso também pode ser apenas consenso. E o mercado tem uma maneira particularmente eficiente de lembrar isso aos investidores.
Vivemos em uma época em que patrimônio virou conteúdo:
Print de operação.
Carro.
Relógio.
Viagem.
Gráfico com seta para cima.
Frase sobre liberdade financeira.
E, eventualmente, uma promessa implícita de que existe alguém que descobriu o caminho que você ainda não descobriu. O problema não é acompanhar pessoas que falam sobre investimentos, o problema é transformar admiração em terceirização de pensamento.
A armadilha está em ter uma admiração exagerada por pessoas que “fizeram e aconteceram”. Ou que dizem que fizeram e aconteceram.
Uma fotografia não é demonstração financeira, um depoimento não é auditoria, uma sequência de acertos não é necessariamente uma estratégia e um patrimônio exibido nas redes sociais não revela o risco assumido para construí-lo.
Não sabemos a distribuição dos resultados.
Não sabemos o drawdown.
Não sabemos o capital inicial.
Não sabemos o que ficou de fora da história.
E, principalmente, não sabemos quantas tentativas fracassaram antes daquela que virou conteúdo.
É o velho problema do viés de sobrevivência usando ring light.
O mercado não precisa concordar com você
Investir exige uma habilidade desconfortável: trabalhar com incerteza. Você não precisa saber exatamente o que vai acontecer, precisa saber o que pode acontecer, quanto cada cenário vale, qual é a probabilidade aproximada de cada um e, principalmente, quanto você perde se estiver errado.
Essa última pergunta costuma ser esquecida.
Talvez porque seja muito menos agradável do que perguntar quanto podemos ganhar.
Mas patrimônio é construído também pela capacidade de sobreviver às próprias previsões.
No fim, o investidor não precisa eliminar a incerteza, precisa precificá-la e talvez essa seja uma das diferenças mais importantes entre investir e simplesmente apostar com uma narrativa sofisticada.
No cassino, você pode torcer para a probabilidade mudar, na análise de investimentos, você deveria começar justamente pela probabilidade.
E quando não souber, tudo bem.
O problema não é não saber, o problema é não saber que não sabe.
10 anos de Dica de Hoje
Este mês, o Dica de Hoje completa 10 anos.
Dez anos acompanhando mercados, empresas, ciclos econômicos, crises, euforias, juros, commodities, valuation, resultados e, principalmente, o comportamento dos investidores diante de tudo isso.
Foram dez anos de trabalho, análise e parceria.
Daniel Nigri e toda a equipe do Dica de Hoje agradecem a cada leitor, assinante e investidor que esteve conosco nessa trajetória.
O mercado mudou muito nesses dez anos.
A necessidade de pensar criticamente sobre ele continua exatamente a mesma.
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E se já está conosco, nosso muito obrigado. Dez anos só existem porque existe uma comunidade do outro lado.
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Patricia Rossari
Analista de Negócios