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Por que o prefixado paga mais (e o que ninguém te conta sobre isso)

A discussão entre IPCA+ e prefixado normalmente começa no lugar errado.

A maioria das comparações para na superfície: de um lado IPCA+ 7%, do outro prefixado a 13% ou 14%. A conclusão intuitiva costuma ser simples, quase automática. “13% é maior que 7%, então o prefixado é melhor”.

Esse tipo de leitura ignora o principal: você não está comparando duas taxas, está comparando dois riscos completamente diferentes.

No IPCA+, você trava uma taxa real. O que vier de inflação ao longo do caminho será incorporado ao seu retorno. No prefixado, você trava uma taxa nominal. O valor final é conhecido, mas o poder de compra não. Se a inflação vier acima do esperado, o resultado real pode ser muito pior do que parecia no dia da aplicação.

É exatamente por isso que o prefixado paga mais, não é generosidade do mercado. É prêmio de risco.

A tentativa mais comum de organizar essa comparação é usar a chamada inflação implícita. Se um título prefixado paga 13,43% e o IPCA+ paga 7,54%, a conta sugere uma inflação implícita próxima de 5,48% ao ano. A lógica parece elegante: se você acredita que a inflação média futura será maior que isso, o IPCA+ deveria ser a melhor escolha. Se acredita que será menor, o prefixado deveria ganhar.

Na teoria, faz sentido. Na prática, não explicou quase nada.

Quando você olha para janelas móveis de 4 anos nos últimos anos, o resultado é contraintuitivo. Foram analisadas 329 janelas comparando prefixado contra IPCA+. No total, o prefixado venceu em 117 delas, cerca de 36% do tempo. Ou seja, na maior parte das janelas, o IPCA+ entregou resultado superior. Até aqui, tudo dentro do esperado.

O problema aparece quando você tenta usar a inflação implícita como critério de decisão. Quando a inflação implícita estava acima de 5%, o prefixado venceu 107 vezes em 223 janelas. Quando passou de 6%, venceu 54 em 136. Acima de 7%, venceu apenas 7 em 33.

Em outras palavras, quanto maior a inflação implícita, menor foi a taxa de vitória do prefixado nesse recorte. Exatamente o oposto do que o bom senso sugeriria.

Isso é relevante porque desmonta uma das heurísticas mais difundidas na renda fixa. A inflação implícita ajuda a estruturar o raciocínio, mas não foi o fator determinante para explicar o resultado.

O que explicou, de fato, foi algo mais simples e menos sofisticado: o nível absoluto da taxa prefixada no momento da compra.

Quando o prefixado foi adquirido com taxa acima de 10% ao ano, ele venceu o IPCA+ em 117 de 237 janelas, aproximadamente 49% das vezes. Acima de 12%, a taxa de vitória sobe para 52%. Até aqui, ainda é um jogo relativamente equilibrado.

Mas quando a taxa ultrapassa 14% ao ano, o cenário muda de forma relevante. Nesses casos, o prefixado venceu o IPCA+ em 84% das janelas analisadas.

Não é uma diferença marginal. É uma mudança de regime.

Isso muda a forma como a decisão deveria ser tomada. Não se trata mais de comparar “IPCA+ contra prefixado” de forma genérica. O ponto central passa a ser o preço de entrada. Taxas muito elevadas no prefixado aumentam a margem de erro. Você está sendo suficientemente bem pago para assumir aquele risco adicional.

No cenário mais recente analisado, com prefixados acima de 13% ao ano e inflação implícita acima de 5,5%, o prefixado venceu o IPCA+ em 65 de 116 janelas, cerca de 56% das vezes. Não é um resultado esmagador como no caso acima de 14%, mas já inclina a balança.

Esse é o tipo de nuance que a leitura superficial ignora. Não é que o prefixado “vai render mais”. É que, dado aquele nível de taxa, a probabilidade de ele superar o IPCA+ em prazos semelhantes aumenta.

Mas aqui entra o ponto que quase sempre é negligenciado: o risco que está embutido nessa escolha.

O prefixado carrega um risco de cauda. Não é o cenário base, não é o que o mercado projeta, mas é uma possibilidade real. Se houver uma deterioração relevante da moeda, seja por expansão monetária, desorganização fiscal ou perda de credibilidade, a inflação pode surpreender para cima de forma significativa. Nesse cenário, o prefixado cumpre o contrato nominal, mas entrega um resultado real ruim.

O IPCA+, por outro lado, existe exatamente para esse tipo de proteção. Ele não elimina todos os riscos, inclusive depende da qualidade do índice de inflação, mas reduz de forma relevante a incerteza sobre o poder de compra final.

Por isso, tratar a decisão como uma disputa de “qual título é melhor” é uma simplificação perigosa.

O que os dados mostram é outra coisa. Prefixados com taxas muito elevadas melhoram a relação risco-retorno e aumentam a probabilidade de superar o IPCA+ em prazos equivalentes. Mas fazem isso ao custo de carregar um risco específico: o de errar feio a trajetória de inflação.

No fim, a decisão não é sobre taxa. É sobre qual tipo de erro você aceita cometer.

Errar para menos, travando uma taxa real e abrindo mão de um possível ganho adicional, ou errar para mais, apostando em uma taxa nominal elevada e assumindo que o cenário de inflação não vai fugir muito do esperado.

Carteira não se constrói escolhendo o “melhor ativo”, se constrói equilibrando riscos que se comportam de forma diferente ao longo do tempo.

 

Grande abraço,

João Pedro Mello

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