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The Oscar Goes To…

Por Patrícia Rossari

“Não existe nada mais perigoso do que a combinação entre ignorância e convicção.”

Fim de ano na bolsa é praticamente o Oscar do mercado financeiro. As manchetes vêm embaladas por trilhas sonoras imaginárias:

As ações que mais subiram.
As ações que mais caíram.
As melhores ações do ano, and the Oscar goes to…
As promessas para o próximo ano.
“A próxima MGLU3.”
“Se você tivesse comprado BTC em 2010…”

E, claro, a categoria mais fantasiosa: Melhor Turnaround com enredo improvável, protagonizado por aquele investidor que compra uma promessa sem entender nada do negócio, só porque “não tem como piorar”. Se der certo, ele se autoproclama visionário, se der errado vira filósofo com direito a “quem me conhece sabe”. Ou, no mínimo, ganha material para thread no Twitter.

Mas tudo isso tem um ponto em comum que é a celebração do resultado, não do processo. Querem construir patrimônio, mas esquecem que não sendo herdeiro o processo é que vai definir o resultado, com um percentual de sorte e circunstância envolvidos.

Mas no fim do ano ninguém quer saber como você fez, que risco correu, quanto tempo ficou exposto, se dormiu tranquilo ou se foi pura sorte. Só querem saber se a carteira “bateu o Ibovespa”. É a glamourização da performance e a romantização do retorno improvável.

Nessas horas, vale lembrar a velha pergunta:
Por que o retrovisor é menor que o para-brisa?
Porque olhar para trás é importante, mas viver dirigido por ele é desastre anunciado.

E junto com essas manchetes sempre aparece alguém dizendo que “só não investe quem não quer”, que “a crise é a melhor oportunidade”, ou que você só está perdendo dinheiro porque “não sabe investir certo”.

Esse tipo de mantra dá conforto, mas não dá resultado.

Howard Marks martela isso com elegância: “Ser um investidor superior não requer ser capaz de prever o futuro. Requer a capacidade de lidar com o desconhecido.”

E o desconhecido não está no gráfico, está na cabeça do investidor.

Mas o mercado adora rankings e o ser humano também. Mas rankings escondem o que realmente importa, o motivo de cada desempenho.

O que subiu, subiu por quê? Margens melhores? Redução de dívida? Crescimento orgânico? Tese macro bem posicionada? Reprecificação de risco? Ou puro hype?

Morgan Housel resume isso perfeitamente: “Resultados ruins não significam decisões ruins, resultados bons não significam decisões boas.”

No mercado, até o erro rende, até o acerto engana. Então cuidado.

A verdade inconveniente é que não existe inteligência no resultado isolado. Só existe inteligência na decisão.

E quando as coisas não saem como no vídeo otimista do YouTube? Então surgem os clássicos:

  1. O que foi que eu fiz?
  2. Cadê o meu dinheiro?
  3. Vou desistir disso!
  4. Será que estou fazendo a coisa certa?

Warren Buffett já avisou: “O mercado é um dispositivo para transferir dinheiro dos impacientes para os pacientes.”

Mas sempre vai ter alguém pra te dizer: “eu já sabia”.

Spoiler: ele não sabia, na maioria das vezes.

Daniel Kahneman explica: “Ser racional é evitar decisões motivadas por emoções intensas ou vieses imediatos.” Simples e difícil, mas é exatamente o jogo.

Empresa não é “ticker”. Empresa é organismo.

Cotação segue resultado, mas não imediatamente. No curto prazo, preço é voto no longo prazo, é valor (Benjamin Graham).

Empresa só cresce se conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo, planejar e executar. A coordenação interna, a cultura de processos, a alocação de capital, tudo isso influencia diretamente o lucro que gera riqueza, que sustenta a tese de investimento.

O release aceita tudo, o balanço também aceita muita coisa. Mas o negócio não aceita improviso.

Por isso, antes de buscar “a ação do momento”, pergunte primeiro:
Entendo o negócio, ou estou só procurando uma justificativa para acreditar na minha esperança?

Porque investimento não é loteria ilustrada. É um exercício contínuo de reflexão sobre o negócio e sobre nós mesmos, um espelho, um exercício de raciocínio, paciência e autoconhecimento. E se tivesse um Oscar para isso, aí sim valeria a pena ganhar.

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