Fala, pessoal!
Ontem encerrei um ciclo de consultoria com um casal jovem. Ao longo de quatro meses, acompanhei de perto a vida financeira deles — receitas, despesas, sonhos, contradições. E quando a reunião terminou, fiquei um tempo pensando. Não neles, mas em mim. Em quem eu era quando tinha a idade deles.
Porque a verdade é que eu já fui esse casal.
11 de setembro de 2006
Tem datas que a gente não esquece. Para o mundo, o 11 de setembro tem um significado. Para mim, tem outro também: foi o dia em que comecei a trabalhar no Unibanco — saudoso Unibanco — e o mesmo dia em que meu marido, José Carlos, entrou na empresa onde trabalha até hoje.
Dois jovens, no mesmo dia, começando suas histórias profissionais. Eu com um salário de R$ 2.700 por mês. Ele com R$ 3.200.
Corrijo pelo IPCA: em valores de hoje, seriam aproximadamente R$ 7.900 e R$ 9.300, respectivamente. Somados, pouco mais de R$ 17.000 mensais para dois. Não era pouco. Mas também não era muito para quem tinha pressa de construir.
E nós tínhamos muita pressa.
A kitnet do Largo da Batata
Morávamos numa kitnet na Rua Butantã, bem no coração do Largo da Batata. Barulho infernal, um cheirinho particular do Rio Pinheiros, e o nosso Palio branco. Eram os primeiros meses de vida a dois, e havia uma decisão simbólica que tomamos logo no início:
Vendemos o carro dele para ficar com um único veículo.
Parece pequeno, mas não era. Era uma declaração de intenção. Dissemos: não vamos nos acomodar no que temos — vamos usar o que temos para construir o que queremos. O dinheiro da venda foi direto para a poupança.
Já tínhamos poupança antes mesmo de nos conhecer. Eu dava aulas de balé. Ele trabalhava em projetos de pesquisa na universidade. Nenhum de nós dois esperou ter renda grande para começar a guardar. A disciplina estava nos nossos hábitos antes de estar nos nossos salários.
O primeiro imóvel — e a estratégia por trás dele
Por volta de 2008 ou 2009, compramos nosso primeiro apartamento. Dois quartos — uma escolha deliberada, para poder receber minha família quando viessem nos visitar. Ficava na Vila Polópolis, em São Paulo.
Vendemos em 2012. Compramos por volta de R$ 180 mil e vendemos por R$ 300 mil. Pegamos o boom imobiliário da época e transformamos aquele primeiro passo em alavanca.
Com o lucro, demos entrada em um apartamento maior, mais bem localizado — perto do trabalho, perto de onde queríamos que ficassem as escolas dos nossos filhos. As escolhas sempre foram racionais, pensadas com calma, sempre dentro da nossa capacidade financeira real. Nunca demos um passo maior que a perna.
Usamos estrategicamente o FGTS para amortizar. Aproveitei as taxas subsidiadas que tinha como funcionária de banco — condições que o mercado comum não oferecia. E quitamos o financiamento com bastante antecedência ao prazo original.
O segundo apartamento — e o mesmo método
Em 2012 compramos o segundo. Por volta de R$ 580 mil. Moramos lá até nos mudarmos para a França. Quando saímos, colocamos para alugar com opção de compra — e durante a pandemia, os inquilinos exerceram essa opção.
Vendemos por R$ 1 milhão.
Oito anos. Uma valorização de mais de 70%. Não foi sorte — foi escolha de localização, cuidado com o imóvel, timing bem pensado. E o mesmo princípio que guiou o primeiro: quitar antes do prazo, não deixar o financiamento trabalhar contra nós.
O que eu diria para a Julia de 2006
Pensando no casal que acompanhei esses últimos meses — jovens, inteligentes, com potencial enorme — me pego querendo dizer a eles exatamente o que diria para mim mesma em 2006:
Você está no melhor momento. Não porque tem tudo — porque ainda não tem nada a perder. A energia que você tem agora é o seu maior ativo. Use-a para crescer, para estudar, para ir atrás.
Não acomode. Não aceite o teto que o mercado quer te impor. Quando as empresas virem o seu valor, vão corresponder para não te perder. Isso aconteceu com a gente, mais de uma vez.
Viva sempre abaixo da sua renda. Não como castigo — como estratégia. O padrão de vida que você constrói agora cria o teto do que você vai conseguir poupar daqui para frente. Crescer a renda sem crescer o gasto é o segredo mais simples e menos praticado das finanças pessoais.
E cuide de com quem você anda. Tem uma frase que carrego comigo:
“Diga com quem andas e te direi quem és.” Isso vale para o dinheiro também. Se as pessoas ao seu redor normalizam dívida, consumo impulsivo e desorganização financeira — isso vai parecer normal para você também. Cerque-se de quem constrói.
Eu sempre fui a responsável pelo controle do nosso orçamento. Desde o início, assumi essa função em casa. Não porque sou financeira — mas porque alguém tinha que fazer, e decidi que seria eu. Disciplina não é talento. É decisão.
Você não precisa começar grande
A Julia de 2006 não sabia o que construiria nos anos seguintes. Não sabia dos apartamentos, dos filhos, da empresa, da França. Ela só sabia — ou melhor, só sentia — que era preciso ser cuidadosa com o que tinha.
E foi o suficiente para começar.
Se você está lendo isso e está no início da sua jornada profissional: não espere ganhar mais para organizar. Não espere o momento certo para começar a poupar.
O momento certo é o que você tem agora.
Na semana que vem, continuo essa conversa com números concretos: quanto tempo leva para construir uma reserva de emergência dependendo das suas escolhas? Os cenários são mais reveladores do que você imagina.
Julia Bastos Chagas Priante
@julia.priante
Engenheira de Alimentos pela Universidade Federal de Viçosa, atua no mercado financeiro desde 2006. Com ampla experiência como Officer no Itaú Unibanco/Itaú BBA nos segmentos de Empresas, Nicho Imobiliário e Multinacionais. É Especialista em Investimentos (CEA) e Pós-graduada em Planejamento Financeiro. Auxilia famílias a alcançarem seus sonhos por meio de um planejamento financeiro estruturado e personalizado.