Pesquisar

Eleição, petróleo e dados de atividade disputam o mesmo ativo: o prêmio de risco.

Há manhãs em que o mercado parece um terminal Bloomberg possuído: uma pesquisa eleitoral move a Bolsa, uma guerra redesenha o preço do barril e um PMI tenta convencer o investidor de que “acima de 50” já é sinônimo de festa. Hoje, a tese é menos confortável  e justamente por isso mais útil.

Na quarta-feira, o Ibovespa subiu 3,05%, aos 185.205,09 pontos, em sua 11ª alta consecutiva. A Quaest estreitou a corrida presidencial e o chamado trade eleitoral comprimiu parte do prêmio de risco. A falácia do gatilho único, porém, continua à espreita: a Bolsa subir depois de uma pesquisa não transforma a pesquisa em causa suficiente de tudo. O mercado é um sistema de expectativas, liquidez e, às vezes, uma quantidade admirável de teatro.

O mercado ouviu a urna antes do sino

POLÍTICA → PRÊMIO DE RISCO

A nova pesquisa Quaest colocou Lula à frente, mas sem folga que permita ao investidor dormir sem deixar o terminal ligado:

  • Primeiro turno: Lula 37%, Flávio Bolsonaro 29% e Augusto Cury 10%.
  • Segundo turno Lula × Flávio: 42% a 41%, dentro de uma margem de erro de aproximadamente 2 pontos percentuais.
  • Ibovespa na quarta: alta de 3,05%, aos 185.205,09 pontos; o maior avanço diário desde março, segundo a leitura de mercado.

A divulgação do Datafolha estava prevista para hoje, após entrevistas realizadas de 1º a 3 de setembro: 2.002 eleitores e margem de erro de 2 pontos. A última leitura disponível, de 21 de agosto, mostrava Lula à frente de Flávio no segundo turno por 47% a 43%. Pesquisa é fotografia; Bolsa, como sabemos, prefere especular até sobre a moldura.

COMO LER O MOVIMENTO

Prêmio de risco menor não é risco eliminado. É apenas o preço de uma hipótese política que pareceu menos ameaçadora — até a próxima pesquisa, declaração ou vírgula constitucional.

“Ao vencedor, as batatas”; ao investidor, a volatilidade. Machado de Assis talvez não tivesse um home broker, mas entenderia perfeitamente a fila.

 

 

Painel de preços

FOTOGRAFIA · 07H59

IBOVESPA · FECHO 02/09  —  185.205,09   +3,05%

DÓLAR À VISTA · FECHO  —  R$ 5,1084   -0,92%

BRENT  —  US$ 95,26   -0,39%

WTI  —  US$ 90,71   -0,33%

BITCOIN  —  US$ 77.870,80   +0,86%

OURO  —  US$ 4.426,32   +0,83%

MINÉRIO · DALIAN  —  ¥ 726,50   +1,32% · US$ 108,12

Cotações intraday são a fotografia do material-base às 07h59 e podem mudar ao longo do pregão. O dólar e o Ibovespa estão indicados pelo fechamento de 2 de setembro.

O real caiu 0,92% e acumulava baixa de 1,38% nos dois primeiros pregões de setembro, depois de subir 2,16% em agosto. É uma melhora de câmbio — não uma certidão de alta estrutural.

 

Oriente Médio: o petróleo recua; o risco, nem tanto

GEOPOLÍTICA

A Arábia Saudita informou que um ataque iraniano contra um navio da Bahri, sua companhia nacional de transporte, matou dois tripulantes filipinos. O superpetroleiro Sidr, que carregava petróleo saudita e cruzava o Estreito de Ormuz, teria sido atingido na noite de segunda-feira.

Depois de três sessões de alta, os contratos recuaram quando Donald Trump disse que a nova ofensiva americana contra o Irã provavelmente seria curta e reiterou que os Estados Unidos controlam o Estreito de Ormuz. A Reuters registrou que apenas seis embarcações de commodities cruzaram o estreito na quarta-feira — antes do conflito, a rota respondia por cerca de 20% do fluxo global.

A queda do barril é, por enquanto, um desconto de curto prazo aplicado sobre uma cauda de risco que continua comprida. O preço pode respirar; a logística ainda está prendendo a respiração.

 

Agenda: a macroeconomia em horário de pico

HOJE

O dia combina trabalho, serviços e política doméstica. O detalhe importante é a combinação: atividade americana resiliente pode manter juros altos por mais tempo, enquanto o Brasil ainda tenta sair da zona de contração nos serviços.

04h55–05h30  PMIs de Alemanha, zona do euro e Reino Unido — O termômetro externo abre o dia antes da bateria americana.

06h30  Challenger · Estados Unidos — Indicador de cortes de vagas e primeiro sinal do mercado de trabalho.

09h30  Pedidos de seguro-desemprego e comércio americano — Consenso para pedidos iniciais: 205 mil, contra 203 mil na leitura anterior. Também saem produtividade, custo unitário do trabalho, déficit comercial e pedidos continuados.

10h00  PMI composto e de serviços do Brasil — Leituras anteriores: 48,8 e 49,7, respectivamente. A marca de 50 continua sendo aquele número pequeno com autoestima de protagonista.

10h45–11h00  Serviços dos EUA: S&P Global e ISM — Projeções: S&P serviços 56,8 e composto 56,0; ISM não industrial 54,2. Surpresa para cima tende a reprecificar juros e dólar.

Ao longo do dia  Balança comercial brasileira de julho — Mais um dado para medir a contribuição externa enquanto o mercado também monitora a política.

13h55  Câmara: MP da “taxa das blusinhas” — A MP 1.357/26 zera o imposto de importação para compras internacionais de até US$ 50; sem aprovação, perde validade em 8 de setembro.

15h00  Lula anuncia medidas para zerar a fila de serviços do INSS — O anúncio é político, mas a execução será fiscal, administrativa e — como quase tudo em Brasília — cobrada em parcelas.

Estados Unidos: Trump vai à estrada com 33% de aprovação

MIDTERMS

Donald Trump planeja uma agenda extensa em estados-pêndulo para apoiar cerca de 35 disputas-chave nas eleições legislativas de novembro. A viagem vem acompanhada de uma pesquisa Reuters/Ipsos com 33% de aprovação, o menor nível de sua presidência até aqui.

É a velha alquimia eleitoral: transformar presença física em recuperação de popularidade. Pode funcionar — campanhas são longas, eleitores são imprevisíveis e a memória política costuma ter a consistência de um gráfico de cinco minutos.

Para os mercados, a pergunta não é apenas quem ganha cadeiras. É se a aprovação baixa aumenta a agressividade fiscal, comercial e geopolítica antes da votação.

 

Brasil: política virou classe de ativo

REGULAÇÃO & COMÉRCIO

Exportações de origem animal: a União Europeia suspendeu, a partir de hoje, importações brasileiras de carne e outros produtos de origem animal por falta de garantias sobre padrões europeus de antimicrobianos. A medida alcança carne bovina, aves, ovos e animais vivos; o setor tenta voltar à lista europeia após as garantias apresentadas pelo Ministério da Agricultura. A retirada havia sido divulgada em maio.

Escala 6×1: a CCJ do Senado aprovou a proposta e o texto segue ao Plenário. A versão prevê duas folgas semanais remuneradas, redução gradual da jornada de 44 para 40 horas, sem corte salarial. O ponto decisivo ainda é político: quórum, transição e impacto sobre empresas e trabalhadores serão disputados na próxima etapa.

O QUE FICOU NO RADAR

  • EU: o problema não é só “carne”; é conformidade sanitária em toda a cadeia.
  • Câmara: o fim da isenção para compras de até US$ 50 pode voltar ao preço final do varejo transfronteiriço.
  • INSS: zerar fila exige capacidade de execução, não apenas uma boa coletiva.
  • Congresso: a pauta trabalhista retorna ao centro do prêmio de risco doméstico.

 

China melhora, mas sem euforia

ÁSIA

O PMI privado de serviços da China, medido pela RatingDog, subiu de 50,4 para 51,4 em agosto, acima da projeção de 50,6. Acima de 50, há expansão; abaixo disso, a estatística costuma usar palavras como “desaceleração” para não assustar ninguém.

O avanço foi o quarto mês consecutivo de crescimento do emprego no setor, mas ainda foi a segunda menor leitura em 14 meses. O PMI oficial, com amostra diferente, apontou contração: a divergência recomenda cautela, não comemoração. A demanda doméstica melhorou, mas a recuperação segue desigual.

Radar corporativo

FATOS QUE MEXEM NO PREÇO

PRIO3 · PETRÓLEO

Produção menor, manutenção explica o ruído

  • Produção média de agosto: 186,1 mil barris/dia, -5,2% ante julho.
  • Albacora Leste teve manutenção planejada; Bravo OGX-44HP parou temporariamente para reparo.
  • Peregrino C-16 voltou após falha no BCS; A-13 Isolado iniciou produção em 10 de agosto, com 6 mil barris/dia iniciais e 100% do ativo.
  • Vendas: 5,38 milhões de barris em agosto, contra 6,34 milhões em julho; a Repsol Sinopec comercializou 501,8 mil barris sob o JOA.

 

UNILEVER · CONSUMO

Anvisa suspende linhas em Vinhedo

A Anvisa determinou a suspensão preventiva da fabricação de sabão líquido para roupas e amaciante na unidade de Vinhedo (SP), envolvendo Omo, Brilhante, Comfort e Surf.

A agência informou que não havia contaminação microbiológica: produtos já no mercado podem ser vendidos e usados, sem recolhimento. A inspeção, de 24 a 28 de agosto, apontou necessidade de correções em documentação, monitoramento da água e controles internos.

 

EZTEC · ESCRITÓRIOS

Itaú negocia Esther Towers

As negociações avançaram para uma possível locação de aproximadamente 90–94 mil m² no Esther Towers, em São Paulo. O valor pedido, cerca de R$ 110/m², fica muito abaixo dos até R$ 400/m² praticados em trechos da Faria Lima.

O contrato ainda não estava fechado. Para a EZTC3, o caso ilustra a tese de retorno aos escritórios; para o Itaú, a tese é de custo — uma forma elegante de chamar eficiência imobiliária.

 

MAGALU · VAREJO DIGITAL

Mercado Livre vira vitrine adicional

Magazine Luiza, KaBuM! e Época Cosméticos passam a vender no Mercado Livre cerca de 27 mil SKUs 1P, com entrega pela Magalog. O acordo não é exclusivo e se soma a entendimentos semelhantes com outras plataformas.

MGLU3 fechou em alta de aproximadamente 16,9% e chegou a subir 24% no intraday. O mercado gostou da distribuição; agora resta verificar se a distribuição também gosta da margem.

 

TOTAL LINHAS AÉREAS · LOGÍSTICA

ANAC interrompe todas as operações

A ANAC suspendeu integralmente as operações da companhia que atende cargas dos Correios. A decisão, de 1º de setembro e publicada no dia seguinte, vale por prazo indeterminado até a correção de não conformidades críticas ou de alto risco ligadas à segurança, aeronavegabilidade e gestão de riscos.

Os Correios acionaram medidas de contingência. A burocracia, desta vez, veio com asa — e pousou sobre a logística.

 

STF · SEGURADORAS

Reservas técnicas fora do PIS/Cofins

Por 5 votos a 4, o STF afastou a incidência de PIS/Cofins sobre rendimentos de aplicações das reservas técnicas de seguradoras e entidades abertas de previdência privada.

As reservas são obrigatórias para honrar contratos e não foram tratadas como faturamento da atividade típica. A estimativa da União é de impacto de R$ 5,3 bilhões em cinco anos, segundo a LDO de 2026.

 

MINERAÇÃO · CONGRESSO

Senado aprova política para minerais críticos

O Senado aprovou o marco para minerais críticos e estratégicos, com foco em rastreabilidade, processamento, inovação e segurança de suprimento. O texto segue para sanção presidencial.

  • Até R$ 7 bilhões em incentivos.
  • FGAM de R$ 2 bilhões e R$ 5 bilhões para processamento e transformação.
  • Contribuição de 0,2% da receita bruta por seis anos e 0,3% para pesquisa; depois, 0,5% para P&D.
  • Projetos podem acessar debêntures incentivadas e um cadastro federal de iniciativas estratégicas.

 

Renda fixa: o IPCA roubou a cena em agosto

B3 · ÍNDICES

Os índices de inflação da B3 se destacaram no mês. A combinação é conhecida: carrego real atraente, mas também duração — e, portanto, sensibilidade à curva de juros. Rentabilidade passada de índice não é promessa de retorno individual; é só o mercado contando o que já aconteceu, com a habitual confiança retrospectiva.

A LEITURA DO INVESTIDOR

Longo prazo venceu no placar, mas não ganhou imunidade contra a marcação a mercado. Se a curva real subir, o mesmo duration que ajudou o índice pode amplificar a oscilação da cota.

O IPCA não é um botão “seguro”. É uma lente: mostra proteção contra inflação e, ao mesmo tempo, expõe o preço do tempo.

 

 

Leitura da manhã

  • Política: a pesquisa estreitou a corrida e comprimiu o prêmio de risco, mas a eleição continua aberta — e o Datafolha ainda pode trocar o humor do pregão.
  • Geopolítica: petróleo em queda não significa Ormuz normalizado; significa que o mercado escolheu, por algumas horas, acreditar na versão curta da guerra.
  • Macro: pedidos de seguro-desemprego, ISM e PMIs têm potencial para mexer em juros, dólar e Bolsa. A agenda está cheia; a convicção, nem tanto.
  • Empresas: Magalu ganhou escala, PRIO enfrentou paradas operacionais, Unilever recebeu suspensão preventiva e a Total ficou no chão. O risco idiossincrático segue cobrando atenção.

 

Fontes

Referências editoriais e institucionais consultadas para validação, contexto e acompanhamento de mercado:

  • Reuters — pesquisa Quaest e corrida presidencial.
  • Reuters — petróleo, Irã e Estreito de Ormuz.
  • Reuters — suspensão europeia de produtos de origem animal.
  • ADVFN — agenda econômica, cotações e fechamento das bolsas asiáticas.
  • B3 — desempenho de índices de renda fixa em agosto.
  • Valor Econômico — acompanhamento complementar de empresas e política econômica.
  • Bloomberg — acompanhamento complementar de mercados globais.
  • Banco Central do Brasil — referência cambial e macroeconômica.
  • Senado Federal e Câmara dos Deputados — tramitação legislativa e agenda doméstica.

Patricia Rossari

Conteúdo informativo e editorial. Não constitui recomendação de investimento.

 

 

 

Pesquisar