Qual a variável mais relevante do modelo hoje?
O custo do dinheiro. Mas, como de costume, boa parte dos investidores está ocupada demais discutindo qual ação vai subir.
O que, tecnicamente, tem a mesma utilidade de discutir margem EBITDA enquanto o custo de capital está explodindo. Seria como, como ajustar o acabamento da casa enquanto o alicerce está cedendo, ou escolher a cor da cortina com o incêndio já começando na sala.
Em outras palavras, há um desalinhamento completo entre o que está sendo discutido e o que, de fato, move preço.
A ilusão do afrouxamento
Após um dos ciclos de aperto monetário mais longos das últimas décadas, o Brasil entra em 2026 com uma narrativa confortável: os juros estão caindo.
Correto, mas cuidado, afinal o que importa não é a taxa nominal, mas a taxa real.
Com Selic projetada em 12% e inflação ao redor de 4%, o juro real permanece na faixa de 7-8%. Em qualquer estrutura racional de valuation, isso não é afrouxamento, mas restrição com marketing melhor.
Porém o mercado adora narrativas simples. E queda de juros vende mais do que custo de capital ainda restritivo e fica mais fácil fazer preço antecipadamente.
Pense assim, não importa se a empresa fez um investimento questionável, ela vai reduzir o custo da dívida e consequentemente os múltiplos serão revisados, o risco muda, o operacional fica para depois.
OBS: 12% com sorte, afinal temos uma guerra em andamento (na verdade várias, mas o mundo é seletivo no grau de importância delas e o mercado mais ainda), o que acabará afetando inflação ao redor do mundo e consequentemente a política monetária.
Vamos entender melhor:
Pelo CAPM, a elevação da taxa livre de risco desloca para cima toda a estrutura de retorno exigido. Pelo modelo de Gordon, pequenas variações na taxa de desconto têm efeito exponencial sobre o preço dos ativos.
Ou seja, o valuation não reage gentilmente a juros altos, ele reage de forma desproporcional.
Historicamente, ciclos de queda da Selic estiveram associados a valorizações relevantes do mercado acionário brasileiro, com o Ibovespa frequentemente registrando retornos na faixa de 20% a 30%, enquanto small caps tendem a amplificar esse movimento, superando 40% em média, especialmente em janelas mais longas.
Agora o ponto que deveria ser óbvio, mas não é, a maior parte desse retorno não vem de lucro, vem de múltiplo.
Ou seja, o mercado sobe não porque as empresas ficaram melhores, mas porque o desconto aplicado aos fluxos caiu. É matemática financeira básica
Vamos separar por classes de ativos:
Com juro real de 7–8%, a renda fixa brasileira entrega algo estatisticamente raro:
- retorno real elevado
- volatilidade controlada
- previsibilidade de fluxo
Em termos técnicos, estamos falando de uma classe de ativos com alto Sharpe, baixo drawdown e baixa dependência de premissas otimistas. Naturalmente, isso a torna pouco interessante para quem prefere emoção a retorno ajustado ao risco. Afinal, não dá para contar uma história épica sobre um título IPCA+.
Não podemos usar o clássico: quanto você teria hoje se tivesse investido R$ 100,00 no ativo XXX em 2026
Bolsa não é barata, é um derivativo de juros
Pense na hipótese: Ibovespa a 8,7x lucro projetado, isso é pechincha ou cilada? Earnings yield de 11,5% contra um juro real de 7,5%, um prêmio de risco de 4 pp a favor das ações.
Atrativo? Depende.
Prêmio alto pode ser oportunidade ou risco que você subestimou, e 2026 não é ciclo clássico.
- Juros elevados
- PIB anêmico (1-2%)
- Eleições no horizonte
No Brasil, eleições/ política de forma geral promove a recalibração da taxa de desconto.
Histórico: VIX explode (acima de 30%), prêmio abre, curva de juros vira uma montanha-russa. Resultado? Seu modelo quebra no meio da execução.
- Otimista: Compre tudo agora sem ressalvas (alvo 190-200k)
- Realista: Hedge + muita calma nessa hora pelo menos até 3T2026, o famoso não jogue tudo agora, não sentar na graxa, não meter o pé na jaca, não colocar todos os ovos na cesta.
O fiscal continua sendo a variável que destrói planilhas
Podemos simplificar o cenário em três trajetórias:
- ajuste fiscal: compressão de taxa de desconto
- inércia: manutenção de prêmio de risco elevado
- deterioração: aumento do custo de capital
Ou seja, o Ibovespa não depende só de lucro, depende da credibilidade do país em pagar a conta. E isso, estatisticamente, nunca foi exatamente estável.
Se existe uma palavra que define 2026, é convexidade, aqueles ativos que sofrem mais no cenário adverso, mas sobem desproporcionalmente no cenário positivo. No Brasil, isso inclui small caps, construção civil, consumo discricionário e empresas alavancadas. Esses ativos são, essencialmente, apostas em queda de juros.
Estratégia deve ser menos opinião e mais estrutura
Existe um ciclo que se repete com precisão:
- juros altos: renda fixa ignorada
- juros caindo: renda fixa redescoberta
- bolsa barata: medo
- bolsa subindo: convicção
Se fosse puramente racional, já teria sido arbitrado. Mas como envolve comportamento humano, continua funcionando.
Dado esse cenário, a alocação não deveria ser criativa, mas lógica:
- base em renda fixa (carrego real relevante)
- entrada gradual em bolsa
- aumento de beta conforme a taxa de desconto cair
- proteção via ativos anticíclicos
Nada disso é novo, só raramente é seguido.
Este ano não é sobre retorno, mas transição. Em 2025 foi o aperto, 2026 é a inflexão e 2027, talvez, seja o resultado. Mas tudo isso passa por uma variável que o Brasil trata como detalhe: o fiscal. E, estatisticamente falando, confiar cegamente nisso nunca foi uma estratégia com bom histórico.
Então a pergunta não deve ser: qual ação vai subir? Deve ser: qual variável move todas ao mesmo tempo?
Em 2026, essa variável continua sendo a taxa de desconto, a diferença é que, desta vez, ela não está escondida, está explícita.
Patrícia Rossari
Analista de Negócios.